Na semana passada, a maior exchange de criptomoedas do Brasil, a Mercado Bitcoin, anunciou o rompimento de um contrato de patrocínio em vigência com o Corinthians e apresentou planos para a fundação de um novo time de futebol, cuja administração ficará a cargo de uma Organização Autônoma Descentralizada (DAO).
Ao trocar a associação direta com um dos clubes mais tradicionais e de maior torcida do país por um time próprio, a Mercado Bitcoin surpreendeu o mercado. Trata-se de uma jogada ousada, mas os executivos da exchange por trás da ideia confiam no potencial da descentralização proporcionada pela tecnologia blockchain e as criptomoedas para engajar uma comunidade de torcedores-administradores e ao mesmo tempo aumentar a exposição da marca.
Com estreia prevista para o final deste ano e nome ainda indefinido, o time da Mercado Bitcoin terá a gestão compartilhada pelos detentores dos 100 milhões de tokens que serão emitidos na oferta inicial para financiar o início do projeto. Aos clientes ativos da exchange serão distribuídos 3,5 milhões de tokens através de um airdrop que automaticamente os tornará sócios do novo clube.
De acordo com Bruno Maia, executivo de inovação no esporte e CEO da Feel The Match, a atitude da Mercado Bitcoin pode inaugurar uma nova era para os clubes-empresa no Brasil, conforme explicou em um artigo publicado na Exame na segunda-feira, 30,:
"A Mercado Bitcoin joga luz sobre um formato que pode atrair dezenas de outras instituições e para as quais ele pode servir de plataforma. É um jogo de educação financeira e cultural."
Em seguida, Maia apresenta as principais vantagens que essa nova modalidade de estrutura societária das organizações autônomas descentralizadas tem sobre os modelos antigos e semi-amadores que predominam ainda hoje na administração dos principais clubes do futebol brasileiro:
"As DAOs são organizações que representam o interesse de um grupo de pessoas que se une com um fim específico e constituem uma estrutura jurídica em forma de código, com regras específicas de governança, em uma rede blockchain, dispensando a necessidade de uma liderança centralizadora das tomadas de decisão. Esse código substituiria, de certa forma, os obsoletos estatutos dos clubes e permitiria uma interação aberta de todos os integrantes de acordo com o que está previsto e com o poder de cada um dos membros. Isso pode ser definido por quantidade de investimento de cada um ou por qualquer regra que esteja prevista no código."
Maia explica que a introdução da tecnologia blockchain ao dia a dia da gestão do futebol garantiria maior transparência, imutabilidade e segurança nos processos decisórios das agremiações. Em última instância, os contratos inteligentes poderiam acabar com a figura centralizadora do cartola, conferindo aos membros da DAO poder de decisão de acordo com regras determinadas por códigos de programação:
"Esse código substituiria, de certa forma, os obsoletos estatutos dos clubes e permitiria uma interação aberta de todos os integrantes de acordo com o que está previsto e com o poder de cada um dos membros. Isso pode ser definido por quantidade de investimento de cada um ou por qualquer regra que esteja prevista no código."
Segundo Maia, as DAOs poderiam aprofundar um tipo de experiência que já vem sendo testado no Brasil através do lançamento e da comercialização de fan tokens. Essa classe de ativos digitais tornou-se bastante popular no Brasil ao longo do ano passado, quando a maioria dos clubes que disputam a primeira divisão do campeonato brasileiro lançou sua própria criptomoeda.
A diferença fundamental é que no modelo dos fan tokens, os dirigentes e a empresa que emite os tokens determinam até que ponto pode chegar o envolvimento dos torcedores. Em geral, as escolhas e benefícios concedidos aos detentores de fan tokens restringem-se a questões marginais, como a escolha de design de uniformes alternativos ou mensagens de incentivo a serem compartilhadas com os jogadores em dias de partidas.
Com as organizações autônomas descentralizadas, o engajamento pode ser levado a outro nível. Na prática, o integrante da DAO de um determinado clube se torna uma espécie do que seria um acionista em uma empresa:
"O exercício desses direitos e responsabilidades de cada membro sobre a DAO, se dá através de tokens, que passam a funcionar como espécie de ações ordinárias do mercado financeiro. Os valores arrecadados com a venda deles entram para o caixa da empresa/clube, ficando disponível para desenvolver ainda mais os projetos da entidade. Cada um desses tokens tem suas atribuições previamente definidas naquele tal código da organização, bem como as regras que definem condições para aquisição e transferência dos mesmos."
DAOs e o esporte
Nos EUA, propostas de que DAOs assumam o controle de entidades esportivas, conferindo a um colegiado o poder de decisão sobre questões administrativas, começaram a surgir no ano passado.
Em maio do ano passado, uma DAO intitulada Krause House foi formada com o objetivo de arrecadar fundos coletivamente para adquirir uma franquia da NBA – a Liga Profissional de Basquete dos EUA. Uma coleção de NFTs com valores que variavam entre 10 ETH (aproximadamente R$ 90.300 na cotação de hoje), 1 ETH (R$ 9.300) e 0,1 ETH (R$ 930) foi lançada para financiar a DAO, estabelecendo três níveis diferentes de associação aos seus respectivos detentores.
Segundo um dos integrantes da Krause House declarou em uma reportagem do Decrypt publicada em novembro do ano passado, o propósito da iniciativa era "mostrar que, quando os fãs se tornam proprietários do time, eles se tornam muito mais ativos e engajados, o que pode levar a melhores resultados tanto para a equipe quanto para os negócios associados à marca.
E em fevereiro deste ano, um grupo de torcedores do Denver Broncos, time que disputa a Liga Profissional de Futebol Americano (NFL), formou a BuyTheBroncosDAO para tentar levantar US$ 4 bilhões e assumir o controle da equipe.
Nenhuma das duas iniciativas chegou a ser concretizada e ainda não se tem notícia de experiências concretas de DAOs associadas a associações esportivas profissionais. Assim, a Mercado Bitcoin pode colocar o Brasil na vanguarda dessa nova modalidade de gestão no futebol, popularizando por aqui iniciativas do mesmo tipo, também em outras áreas da sociedade.
Como pontua, Maia em seu artigo, trata-se de um modelo ainda incipiente e que não foi de fato testado para comprovar sua eficácia:
"Ainda existem fragilidades no modelo das DAOs que vêm sendo cada vez mais corrigidas, tais quais o aperfeiçoamento em questões como privacidade, limitações dos contratos inteligentes e até resistência a fraudes. É cedo para se avaliar se já existe maturidade, especialmente no mercado brasileiro para uma iniciativa assim, ainda que seja evidente se tratar de um projeto de longo prazo."
No entanto, assim como as criptomoedas têm se tornado cada vez mais populares como alternativa às finanças tradicionais, também as organizações autônomas descentralizadas podem se tornar cada vez mais comuns no âmbito da gestão de entidades esportivas ou culturais e até mesmo de empresas.
"Novas tecnologias nos permitem transformar a forma como nos relacionamos e criamos o mundo que nos cerca. As DAOs serão cada vez mais comuns na sociedade das próximas décadas e vão encontrar o esporte rapidamente. É questão de tempo para sentirmos o entendimento e absorção legal dessas novas possibilidades", conclui Maia.
Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, a Web3 também se aproxima do futebol através do metaverso. A transmissão de jogos de futebol em ambientes virtuais imersivos já é uma realidade, e deve criar novas formas de interação entre torcedores e seus times do coração.
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