A mistura explosiva de investimentos bilionários em inteligência artificial (IA) e criptomoedas, somada a uma dívida global em expansão, equivalente a mais de três vezes o PIB mundial, é o “gatilho para uma instabilidade gigantesca” nos mercados financeiros e de capitais, afirma Carlota Perez.

A autora do livro “Technological Revolutions and Financial Capital: The Dynamics of Bubbles and Golden Ages” ["Revoluções Tecnológicas e Capital Financeiro: A Dinâmica das Bolhas e das Eras de Ouro"] aponta que todos os ciclos de inovação tecnológica são marcados por excesso de investimentos, irracionalidade e a formação de bolhas financeiras – e o que estamos testemunhando agora não é diferente.

A revolução da IA é parte do quinto ciclo de aceleração, inaugurado na década de 1970 pela tecnologia da informação. Antes, houve a era da produção em massa, no começo do século 20, a revolução do aço e da engenharia em 1870, a revolução das máquinas a vapor e do carvão, por volta de 1830, e a revolução industrial no final do século 18.

Em comum, todas provocaram disrupção social e destruição criativa, à medida que os antigos modos de produção eram substituídos por novos modelos de negócio, resultando na ascensão dos centros urbanos e no declínio de cidades e, por vezes, regiões inteiras.

É de se esperar que com a IA, esse padrão se repita. Talvez com consequências inigualáveis, diante do enorme investimento em infraestrutura para transformá-la na tecnologia de uso geral de alcance mais rápido e abrangente da história.

JP Morgan prevê US$ 3 trilhões em investimentos nos próximos anos somente nos EUA

Até o final de 2026, apenas quatro empresas – Amazon, Google, Meta e Microsoft – gastarão US$ 750 bilhões na construção de data centers capazes de processar o volume de dados necessário para treinar e implementar seus modelos de IA.

Recentemente, os Estados Unidos investiram US$ 8,9 bilhões para adquirir 10% de participação na fabricante de chips Intel, em uma rara iniciativa de aliança entre os setores público e privado no capitalismo americano.

Embora a participação acionária não conceda ao governo voz em decisões de governança ou assentos no conselho da empresa, a aquisição demonstra o papel central da IA na batalha geopolítica contra a China no século 21.

O JP Morgan estima que, apenas nos Estados Unidos, US$ 3 trilhões serão investidos em infraestrutura para IA. O impacto positivo sobre a capitalização de mercado do S&P 500, principal índice do mercado acionário americano, seria de 29%. De US$ 13 trilhões a US$ 16 trilhões seriam adicionados ao mercado.

No entanto, apesar dos investimentos maciços e da adoção ampla e acelerada de ferramentas de IA generativa, analistas de mercado e os próprios investidores estão começando a manifestar preocupação sobre a capacidade de as empresas do setor gerarem retornos sobre o capital investido.

Diante da enorme valorização do mercado acionário desde o início do boom da IA, com o lançamento do ChatGPT em 2022, resultados positivos já não parecem suficientes para sustentar a confiança dos investidores.

As ações da Nvidia, líder na produção de chips para IA, caíram 5% imediatamente após a divulgação de uma receita trimestral recorde de US$ 46,7 bilhões no segundo trimestre.

O evento reforça a percepção manifestada recentemente por Sam Altman, CEO da OpenAI, de que “alguns investidores provavelmente vão perder muito dinheiro” com uma possível bolha da IA.

O ChatGPT é usado por 700 milhões de usuários semanalmente menos de três anos após seu lançamento, mas a OpenAI é uma empresa deficitária devido ao alto custo de sua infraestrutura de pesquisa e desenvolvimento.

Perez destaca que ainda não está claro como as empresas de IA conseguirão lucrar com os ganhos financeiros e de produtividade que ajudarão a gerar em outras indústrias, como a farmacêutica, a biotecnologia, a robótica e a ciência de materiais.

Nesse contexto, um crash, ou até mesmo vários, é provável, afirma a historiadora em reportagem do Financial Times:

“Nunca vi uma era dourada acontecer sem um crash.”

Segundo Perez, os mercados de capitais estão operando de forma distorcida, priorizando a especulação em detrimento da atividade produtiva. Além da concentração da capitalização de mercado do S&P 500 em ações de tecnologia, o mercado de alta das criptomoedas seria um sintoma evidente disso.

Bolhas podem ser positivas para os ciclos de inovação financeira

Apesar dos eventuais danos causados pelos prejuízos financeiros, as bolhas especulativas têm um papel fundamental no ciclo de inovação, pois, em geral, esse capital é direcionado para a construção da infraestrutura que mais tarde vai garantir a ampla adoção e a disseminação de seus benefícios econômicos e sociais.

O passado ensina que o sucesso de uma tecnologia emergente depende da capacidade da sociedade civil de moldar as inovações em prol do interesse comum. Nesse sentido, a regulação deve equilibrar a inovação com salvaguardas à potencial disrupção no mercado de trabalho ou do uso de ferramentas para fins de manipulação política e controle social.

Ao mesmo tempo que a IA contém a promessa de uma nova era dourada, a concentração de poder econômico nas mãos das big techs, a irracionalidade dos mercados financeiros, a ascensão do populismo e a crise climática impõem desafios que caberão aos humanos solucionar – e não às máquinas, adverte a historiadora.