Os tokens não fungíveis (NFTs) tornaram-se um veículo anti-censura para parte dos 25 milhões de habitantes de Xangai, centro financeiro da China, protestarem contra o lockdown imposto pelo governo para conter a propagação do coronavírus no país, informou reportagem da agência Reuters publicada nesta quarta-feira, 4.

Proibidos de sair de casa há semanas, os moradores da megalópole chinesa estão utilizando NFTs para manter a sanidade, protestar ou simplesmente interagir com outras pessoas à distância.

Alguns cidadãos de Xangai estão utilizando os tokens não fungíveis para compartilhar situações dramáticas impostas pela severidade das restrições, que incluem dificuldades para obter alimentos sem sair de casa e a impossibilidade de receber tratamento médico adequado. Não apenas para a COVID-19, mas também para enfermidades que demandam cuidados especiais, como o câncer, por exemplo.

Ao mesmo tempo que servem para preservar as memórias do cotidiano sob as severas restrições a que vêm sendo submetidos, obras de arte, fotos e vídeos registrados em blockchains sob o formato de NFTs dificultam eventuais tentativas de censura das autoridades chinesas.

Como resposta à disseminação de informações sob a forma de tokens não fungíveis, os censores chineses prometeram intensificar o monitoramento da internet, especialmente grupos de bate-papo , para evitar a disseminação do que as autoridades têm tratado como infâmias e boatos produzidos deliberadamente para fomentar o descontentamento público crescente com as políticas sanitárias que restringem o ir e vir dos cidadãos chineses.

Enquanto algumas pessoas utilizam a internet para compartilhar suas impressões particulares sobre o bloqueio, outras estão se voltando para a disponibilização desses conteúdos em marketplaces de NFTs, como o OpenSea, motivados pelo fato de que os dados registrados em redes blockchain não podem ser apagados. Consequentemente, escapariam à censura.

"Vozes de Abril"

A "rebelião em NFT" dos habitantes de Xangai atingiu um ponto de inflexão em 22 de abril, quando internautas desafiaram os censores do governo para publicar um vídeo intitulado "Vozes de Abril". Em seis minutos, a peça audiovisual é uma montagem de vozes gravadas durante o período de lockdown forçado sobre imagens aéreas da cidade em preto e branco.

Em 23 de abril, um usuário chinês pseudônimo, identificado como imFong, publicou uma postagem no Twitter em que dizia: "Criei um NFT do vídeo 'Vozes de Abril' e congelei seus metadados. Este vídeo existirá para sempre no IPFS", referindo-se ao sistema de arquivos interplanetário descentralizado.

Depois disso, a produção de NFTs remetendo ao lockdown explodiu em Xangai. Entre o material produzido há capturas de tela da rede social chinesa Weibo em que usuários protestam contra as restrições de deslocamento impostas aos moradores de Xangai, um mapa mostrando como a maior parte da cidade foi isolada do mundo exterior, e até mesmo uma coleção de ilustrações satíricas sobre o evento inspirada na estética dos cartazes de propaganda comunista do período em que a China foi governada por Mao Tsé-Tung.

Na tarde desta quarta-feira, era possível encontrar 2.320 NFTs indexados a "Shangai Voices of April" no marketplace OpenSea.

O prolongado lockdown imposto à população de Xangai faz parte da estratégia de tolerância zero à COVID-19 instituída pela autoridade central. O mais recente surto da doença abateu Xangai em março, e foi o pior da China desde o início da pandemia em 2020.

NFTs na China

Embora o governo chinês tenha proibido a mineração e a comercialização de criptomoedas em meados do ano passado, a tecnologia blockchain não foi banida e é utilizada no país. Os NFTs, por sua vez, vêm crescendo em termos de adoção, embora não haja clareza regulatória sobre este nicho específico do mercado de criptoativos.

A tecnologia subjacente aos tokens não fungíveis tem sido adotadas por meios de comunicação estatais e grandes empresas do setor de tecnologia, como o Ant Group e a Tencent Holdings.

Mesmo assim, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, as principais plataformas de redes sociais e servidores da China atualizaram suas políticas de segurança para permitir a restrição ou até mesmo a remoção de plataformas de tokens não fungíveis por temerem uma eventual repressão do governo aos NFTs no futuro.

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