Resumo da notícia
Blockchain rastreia soja da fazenda até a granja
Ração sustentável reduz emissões na produção de ovos
Transparência amplia acesso a mercados exigentes
A tecnologia que deu vida ao Bitcoin, a blockchain, começa agora a ser usada na produção de ovos de galinha no Brasil.
De acordo com informações da Bloomberg Linea, a Mantiquiera, uma das maiores produtoras de ovos da América Latina, esta usando blockchain em um sistema de rastreamento que abrange tanto produtos consumidos pelas galinhas, quanto seus ovos.
A empresa firmou recentemente um acordo com a Bunge para a compra inicial de 12 mil toneladas de farelo de soja rastreável, com menor pegada de carbono. O volume faz parte de um projeto piloto, mas já sinaliza um caminho de expansão que deve ganhar escala nos próximos anos.
A adoção da tecnologia ocorre em um momento em que consumidores e mercados internacionais elevam o nível de exigência sobre a origem dos alimentos. Executivos da Mantiqueira afirmam que a rastreabilidade deixou de ser uma aposta futura e passou a integrar a agenda atual da empresa.
A companhia não altera critérios técnicos ou comerciais tradicionais na compra de insumos, mas adiciona uma camada ambiental que acompanha o produto desde a fazenda até o destino final.
Ovo em blockchain
O sistema em blockchain reúne dados primários coletados diretamente nas propriedades rurais. Essas informações passam por auditorias independentes e permitem medir, com mais precisão, o impacto ambiental de cada lote de farelo.
Segundo a Bunge, o insumo fornecido nesse modelo apresenta uma pegada de carbono entre 40% e 70% inferior à média nacional calculada por metodologias de mercado.
Na prática, a tecnologia cria um registro imutável de cada etapa da produção. O produtor rural insere dados sobre plantio, manejo e colheita da soja. A processadora registra o transporte, o processamento e a entrega. A granja, por sua vez, documenta o uso do farelo na alimentação das aves. Todo esse histórico fica disponível em uma plataforma que pode ser consultada por parceiros comerciais e, futuramente, pelo consumidor final.
A Mantiqueira aposta que essa transparência amplia o acesso a mercados mais exigentes, principalmente no exterior. A empresa afirma que não espera repassar custos adicionais ao consumidor. O objetivo, segundo seus executivos, é manter produtos acessíveis enquanto avança na redução do impacto ambiental.
A estratégia se conecta a um movimento mais amplo dentro da companhia, que mantém linhas de produção voltadas para sistemas sustentáveis. A marca Happy Eggs, por exemplo, trabalha com galinhas criadas soltas, enquanto a Fazenda da Toca se dedica à produção de ovos orgânicos. Outras empresas do setor, como a Raiar Orgânicos, também concentram esforços em modelos de produção com foco exclusivo em alimentos orgânicos para as aves.
Até adubo chega a blockchain
Além da rastreabilidade da ração, a destinação dos dejetos das galinhas ganhou papel central no plano ambiental. Na Mantiqueira, esse material se transforma em fertilizante orgânico por meio da Solobom, braço da empresa responsável pela produção do adubo. A operação conta com três polos industriais localizados em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás.
A produção anual supera 100 mil toneladas de fertilizante, que abastece culturas como cana-de-açúcar, café, soja e milho em diferentes regiões do país. A empresa afirma que esse reaproveitamento reduz a necessidade de fertilizantes químicos e fecha um ciclo que conecta a criação das aves à produção agrícola.
O avanço tecnológico também ocorre em paralelo a uma mudança societária relevante. No início de 2025, a JBS adquiriu 50% da Mantiqueira, marcando a entrada da maior processadora de carnes do mundo no segmento de ovos. O movimento abriu caminho para a expansão internacional da empresa brasileira.
E, se depender da JBS, o uso de blockchain deve continuar e ser ampliado já que desde 2021 a empresa vem usando a tecnologia para monitorar sua cadeia de produção.
Para isso, a empresa está usando Plataforma Pecuária Transparente, ferramenta que integra o ecossistema "Plataforma Verde" que usa DLT em todo o seu processo de registro de informações para garantir a imutabilidade e a transparência dos dados registrados.
Segundo a JBS, o objetivo da Plataforma Pecuário Transparente, é que os pecuaristas, fornecedores da JBS, façam voluntariamente o cadastro de dados de seus respectivos fornecedores que os abastecem nos demais elos do ciclo pecuário.
“Essa plataforma convida o produtor a fornecer os dados dos fornecedores deles… para que eles tenham acesso aos mesmos requisitos socioambientais que já checamos dos produtores que negociam diretamente conosco”, disse no lançamento da plataforma Renato Costa, presidente da Friboi, unidade de bovinos da JBS no Brasil.
JBS e Blockchain
Costa destaca também que todos os dados coletados pelo sistema são enviados para validação da Agri Trace Rastreabilidade Animal, sistema da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e que a expectativa é obter informações de até 20% destes fornecedores indiretos até ao final do ano.
As informações também são integradas na Plataforma Verde, o 'big data' em blockchain da JBS. A Plataforma é responsável por agregar dados sobre a origem e destino de seus produtos e que também conta com os chamados 'Escritórios Verdes' que são as unidades de processamento e produção da empresa já adaptadas ao sistema com DLT.
Atualmente a companhia instalou 13 Escritórios Verdes em unidades de processamento espalhadas pelo país: em Marabá e Redenção (PA), Porto Velho e São Miguel do Guaporé (RO) e mais sete em Mato Grosso: Alta Floresta, Confresa, Juara, Diamantino, Barra do Garças, Água Boa e Pontes e Lacerda. A iniciativa também chegou a Goiânia (GO) e Campo Grande (MS).

