Resumo da notícia:
Política monetária do Brasil restringe financiamento de IA, aponta FMI.
PIB nacional deve desacelerar 0,3% em 2026, na contramão global do boom da IA, segundo o Fundo.
Tecnologia também traz riscos aos investidores e alavancagem pode piorar o eventual “estouro da bolha da IA”.
IA pode obrigar outros países a seguir o Brasil no aperto monetário, além dos riscos de perda de emprego.
O Brasil teve sua projeção de crescimento econômico reduzida em um relatório divulgado na última segunda-feira (19) pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), na contramão da elevação de sua perspectiva de crescimento econômico global em 2026, capitaneado pelo boom da inteligência artificial (IA).
O relatório “Perspectiva Econômica Global” do organismo internacional atribuiu a redução, de 1,9% para 1,6%, de sua perspectiva de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro este ano, à manutenção da política monetária restritiva do país como medida de controle da inflação.
As perspectivas mais fracas para o Brasil estão ligadas, principalmente, à política monetária restritiva adotada para conter a inflação elevada no ano passado, explicou o FMI.
Em relação ao crescimento global, o Fundo destacou a resiliência do mercado às interrupções comerciais causadas pela guerra tarifária promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, revisando para cima (de 3,1% para 3,3%) a previsão de crescimento para este ano, com destaque para EUA e China.
De acordo com o artigo assinado pelos conselheiros Financeiro, Tobias Adrian, e Econômico, Pierre-Olivier Gourinchas, “o fator crucial para essa resiliência é o contínuo aumento dos investimentos no setor de tecnologia da informação, especialmente em inteligência artificial”, o que, no Brasil, esbarra no custo de crédito.
Segundo o relatório, o avanço tecnológico representa atualmente a maior fatia da produção econômica dos EUA desde 2001, embora ele também esteja “gerando impactos positivos em nível global, principalmente nas exportações de tecnologia da Ásia”.
Por outro lado, o FMI alertou sinais de formação de uma bolha financeira de IA, semelhante ao que ocorreu com o boom da intenet (1995-2000), explicando que “condições financeiras favoráveis e lucros robustos têm sustentado a alta dos preços das ações e ajudado a financiar novos investimentos. Mas, à medida que a expansão se acelera, o financiamento por dívida está se tornando mais comum, aumentando a alavancagem”.
Essa mudança introduz riscos consideráveis: uma maior alavancagem pode amplificar choques caso os retornos não se materializem ou se as condições financeiras em geral se tornem mais restritivas, impactando negativamente as empresas e aumentando as preocupações com possíveis efeitos colaterais no sistema financeiro como um todo, completou.
Para o Fundo, a possível bolha da IA pode ser ainda maior que a da internet, já que “muitas empresas essenciais relacionadas à IA não estão atualmente listadas em bolsas de valores”.
A capitalização de mercado é agora muito maior em relação à produção, passando de 132% em 2001 para 226% atualmente nos Estados Unidos; portanto, mesmo uma correção mais modesta poderia ter um efeito considerável no consumo geral, avaliou.
Riscos e perspectivas da IA
Positivamente, o FMI avaliou que “a IA poderá começar a cumprir suas promessas de produtividade, elevando a atividade econômica dos EUA e global em 0,3% este ano, em relação à projeção anterior”. Por outro lado, o relatório destacou “as empresas de IA podem não conseguir gerar lucros compatíveis com suas altas avaliações, e o sentimento dos investidores pode azedar”.
Apesar de o aperto monetário brasileiro remar na contramão dos financiamentos da IA, o FMI destacou que, “se o boom tecnológico continuar, poderá pressionar as taxas de juros neutras reais para cima — como ocorreu durante a era da bolha da internet — exigindo um aperto na política monetária”.
Isso reduziria o espaço fiscal, especialmente em países que não se beneficiam do crescimento impulsionado pela inteligência artificial, explicou a análise de Tobias e Pierre-Olivier.
Eles também observaram que a IA, apesar de impulsionar o crescimento econômico, “corre o risco de eliminar empregos e reduzir os salários de certos segmentos da força de trabalho”.
As políticas devem se concentrar em reduzir as barreiras à adoção, ajudar os trabalhadores a investir nas habilidades certas , apoiar a mobilidade profissional por meio de programas específicos e manter mercados competitivos para facilitar a entrada e garantir que os benefícios da inovação sejam amplamente compartilhados, sugeriram.
Este mês, a Moody’s também emitiu um relatório destacando que o consumo energético de data centers de IA deve chegar a 600 terawatts em 2026, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.

