Em 1º de outubro, o Banco Central da Nigéria colocará em circulação a eNaira, a versão digital da moeda oficial do país que tem a maior economia do continente africano. Parte do pioneirismo nigeriano pode ser explicado pela popularidade que criptomoedas como o Bitcoin (BTC) vêm conquistando na África.
Em agosto, o continente tornou-se a região do mundo que concentra o maior número de operações em criptomoedas, à frente, inclusive, dos Estados Unidos, embora agora a Europa tenha assumido a lidenrança desse ranking. Até o BIS (Banco de Compensações Internacionais), conhecido como Banco Central dos Bancos Centrais, já fez um alerta de que as moedas virtuais precisam avançar urgententemente. Caso contrário, correm o risco de ficar para trás de concorrentes como o Bitcoin na corrida pela adoção de formas digitais de dinheiro.
Por essa razão, o lançamento da eNaira é cercado de muitas expectativas não apenas pela comunidade financeira internacional, mas também porque muitos temem o potencial desestabilizador que as criptomoedas podem ter sobre a soberania dos estados nacionais, conforme ressaltou o economista Jude Eggoh, professor-convidado da Universidade francesa de Angers, em uma reportagem do portal g1:
"As criptomoedas se tornaram comuns para transferências pela diáspora africana em outros continentes pela simples razão de que os custos são bem menores. Mas não esqueçamos que essas moedas são também usadas para o tráfico, o terrorismo, as drogas. É melhor não deixarmos prosperar um sistema de moeda paralelo. São moedas não reguladas e desenvolvidas por blockchain, sem nenhum controle do poder público, e que suscitam uma verdadeira corrida da juventude africana com acesso às tecnologias. As autoridades financeiras têm interesse em não apenas controlar esse fenômeno, como propor mecanismos de substituição”.
No entanto, a questão não se resume simplesmente à praticidade da eNaira como meio de troca. As moedas digitais dos bancos centrais (CBDCs) africanos terão que que disputar com o Bitcoin e outras criptomoedas a primazia pela forma mais efetiva de reserva de valor.
No primeiro semestre de 2021, a Nigéria registrou uma inflação de 18%, a mais alta em quatro anos, e o investimento em criptomoedas apresentou-se como a forma mais eficaz de proteção contra a desvalorização da Naira.
Nem mesmo a proibição nos moldes chineses promovida pelas autoridades nigerianas em fevereiro deste ano, determinando que os bancos locais identificassem pessoas e entidades que fizessem transações de criptoativos para encerrar imediatamente suas contas, conseguiu atrapalhar a disseminação dos ativos digitais no país. Desde então, os nigerianos passaram a operar através de transações peer-to-peer (P2P), sem intermediários, ampliando o mercado de criptoativos no país.
Segundo a empresa de pesquisa de dados em blockchain Chainalysis, o volume de criptomoedas negociado na Nigéria vem crescendo de forma sustentada desde 2020, quando o país acabou o ano ocupando o 8º lugar do ranking mundial de adoção de ativos digitais. Em 2021, até agora, pulou para a 6ª posição.
Em maio, a Nigéria recebeu US$ 2,4 bilhões em criptomoedas, em comparação com US$ 684 milhões em dezembro passado, de acordo com a Chainalysis. Uma pesquisa promovida pelo instituto de pesquisa e análise Statista revelou que 32% dos entrevistados nigerianos eram adeptos de moedas como Bitcoin e Ethereum (ETH)
Em parte isso se explica também pelo fato de que grande parte da população africana não tem acesso a serviços bancários. E esta é uma lacuna que as CBDCs da Nigéria e de Gana poderão imediatamente suprir, além de diminuir o tempo de processamento e baratear os custos de envio e recebimento de remessas internacionais de dinheiro, muito comuns nos países africanos.
O manejo da moeda digital nigeriana será bastante similar ao do Bitcoin em El Salvador. Os usuários terão que baixar um aplicativo, fazer um registro seguindo as diretrizes anti-lavagem de dinheiro e de KYC determinadas pelo Banco Central Nigeriano, informar seu número de identificação junto ao órgão fiscal local e então transferir fundos para o aplicativo através de internet banking ou, em caso de transferências em dinheiro vivo, dirigindo-se a uma agência bancária.
Ainda assim, em uma reportagem da agência de notícias France Presse, Ayodeji Ebo, chefe de investimentos de varejo da Chapel Hill Denham, com sede em Lagos, disse que a eNaira terá sua utilização limitada a "fins transacionais" e os nigerianos seguirão investindo em criptomedas como reserva de valor.
Seja como for, duas formas de dinheiro digital concorrentes, embora não necessariamente excludentes, estarão em circulação na Nigéria a partir de amanhã. Os resultados servirão de parâmetro para outras nações que prentendem instituir suas próprias CBDCs em breve, inclusive o Brasil, conforme afirmou Jude Eggoh ao g1:
"A África de fato é um laboratório ideal para as moedas digitais. Elas têm um papel muito importante na inclusão financeira das populações, que não teriam acesso às transferências bancárias, nem a contas no banco”.
Os eventuais benefícios ou prejuízos da iniciativa também poderão servir de base de comparação com a experiência de El Salvador, que adotou o Bitcoin como moeda de curso legal há menos de um mês atrás, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.
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