No dinâmico e volátil mercado de criptomoedas, a novidade sempre foi uma narrativa poderosa, capaz de atrair a atenção e o capital de investidores. No entanto, desde o final do ano passado, o simples fator novidade não tem garantido a valorização dos preços de tokens recém-lançados.
Pelo contrário, muitos tokens de projetos novos acumulam prejuízos significativos, que na maioria das vezes acabam impactando os investidores de varejo. Isso ocorre porque grandes investidores e fundos de capital de risco (VCs) continuam a desfrutar de acesso antecipado a preços reduzidos em aquisições privadas, antes de Tokens Generation Event (TGE) – ou evento de geração de tokens, em tradução livre.
Geralmente, ao chegarem aos investidores de varejo, via listagem pública em exchanges de criptomoedas, apenas uma pequena parte do suprimento total é disponibilizada para negociação, num fenômeno identificado como low float (baixa flutuação, em tradução livre).
Ao mesmo tempo, esses tokens chegam ao mercado livre com um preço superior ao valor pelo qual foram negociados nas pré-vendas privadas, fazendo com que seus Valores de Mercado Totalmente Diluídos (do inglês, Fully-Diluted Valuation) sejam sensivelmente altos. O FDV é calculado multiplicando o preço atual de mercado de um determinado token pelo suprimento total de tokens a serem emitidos.
No início deste mês, o departamento de pesquisa da Binance publicou um relatório analisando o fenômeno e concluiu que o "lançamento de tokens com um baixo suprimento circulante tem influenciado a dinâmica do mercado, principalmente pelo aumento da pressão vendedora."
E explicou por que a tendência predominante tem sido a desvalorização de moedas recém-lançadas:
"Com uma proporção média da relação MC/FDV de 12,3%, criptoativos lançados em 2024 terão uma quantidade significativa de tokens entrando em circulação no futuro. Isso também significa que, para que esses tokens mantenham seus preços atuais nos próximos dois anos, aproximadamente US$ 80 bilhões em liquidez do lado da demanda precisaria ser direcionado para eles para equiparar o aumento da oferta."
Proporção entre suprimento circulante e bloqueado de tokens lançados recentemente. Fonte: Binance Research e CoinMarketCap
Além disso, na mais recente edição de seu boletim de mercado, o analista independente pseudônimo The DeFi Edge afirmou que tokens com baixa flutuação estão mais afeitos à manipulação de mercado. Com menos tokens em circulação, é mais fácil para grandes investidores ou grupos coordenados manipular o preço de um ativo, produzindo picos ou quedas artificiais em benefício próprio.
O relatório da Binance mostra que os fundos de capital de risco são os principais responsáveis por essa nova dinâmica de mercado, uma vez que os investimentos em projetos de criptomoedas desde 2017 ultrapassam US$ 91 bilhões:
"À medida que mais fundos fluem para o espaço com a participação de VCs, eles inerentemente aumentam as avaliações iniciais dos tokens de projetos investidos. De fato, os aumentos maciços de preço nos mercados privados levam a avaliações multibilionárias no lançamento público, o que torna mais desafiador para os investidores do varejo lucrarem com potenciais valorizações futuras."
Memecoins têm performance muito superior a "tokens de VCs" em 2024
Em uma análise publicada no X, o analista pseudônimo Crypto Koryo comparou a performance do que ele qualificou como "tokens de VCs" e as memecoins para mostrar o impacto negativo da baixa flutuação e do FDV alto sobre o valor de mercado dos criptoativos.
Com o suprimento total disponibilizado ao público desde o lançamento, tanto memecoins "novas" quanto "velhas" tiveram uma performance superior nos últimos 90 dias.
Enquanto isso, no mesmo período, "os tokens com pior performance são de projetos de VCs lançados recentemente, em que a parcela do “suprimento não circulante” é muito alta:
Com 75% a 98% de seus suprimentos bloqueados, os tokens de Dymension (DYM), Wormhole (W), Manta Network (MANTA), Celestia (TIA), AltLayer (ALT) e Worldcoin (WLD) acumulam perdas de 61%, 58%, 47%, 43%, 35% e 20%, respectivamente.
Comparação da performance do Bitcoin com a dos 6 tokens de VCs analisados por Crypto Koryo. Fonte: TradingView
As exceções que confirmam a regra são os tokens da Jupiter (JUP), uma exchange descentralizada baseada na Solana (SOL), e da Ondo (ONDO), um projeto de tokenização de ativos do mundo real (RWA). Apesar de terem apenas 13% e 14% do seu suprimento total atualmente em circulação, os tokens valorizaram 157% e 193% nos últimos três meses.
"Projetos com baixa flutuação e FDV alto tendem a ter uma performance ruim. É claro que há duas ou três exceções, mas você quer fazer todo o trabalho árduo e se esforçar para encontrá-las?, questiona Crypto Koryo. Em seguida, acrescenta:
"Observamos que os projetos com suprimento circulante mais alto geralmente têm um desempenho melhor, independentemente de quando tenham sido lançados."
Como traders podem se proteger da desvalorização de tokens de VCs
Tanto o relatório da Binance Research quanto os analistas apresentam estratégias que os investidores de varejo devem adotar para se proteger do despejo de tokens por fundadores e VCs.
Crypto Koryo sugere que os traders prestem atenção ao suprimento circulante dos tokens nos quais investem ou pretendem investir. Uma boa medida seria algo em torno de 50% a 90% do suprimento total em circulação.
O analista apresenta o gráfico abaixo mostrando os tokens de melhor performance nos últimos três meses que se enquadram nessa categoria.
Fonte: Crypto Koryo (X)
A outra dica é traçar uma estratégia de investimento baseada nas narrativas mais quentes do mercado. Depois das memecoins, derivativos de staking de camada 2, RWA e IA são os setores cujos tokens acumulam as melhores performances desde o início deste ano, segundo o Painel de Narrativas que o analista mantém na Dune Analytics.
Em uma linha semelhante, The DeFi Edge sugere que os traders evitem comprar tokens de baixa flutuação e FDV alto. "Se o mercado passar a ignorar esses tokens, as equipes mudarão a forma como eles são lançados", afirma.
Ainda assim, caso acreditem no potencial de valorização de alguns deles, os traders devem ficar atentos ao calendário de desbloqueio desses tokens, sabendo que o despejo quase sempre gera pressão vendedora no mercado.
Por fim, investigar o valor pago pelos VCs ao adquirir determinados tokens também é importante. Segundo o analista, "quanto maior o lucro no papel para os VCs, maior a probabilidade de despejo dos tokens no mercado."
A Binance Research afirma que, ao tomar uma decisão de investimento, os fundamentos dos projetos devem ser o principal fator a ser analisado pelos traders.
Assim, os traders devem investigar o modelo econômico dos tokens (tokenomics). Isso inclui o suprimento total, o cronograma de emissão e desbloqueio, e os casos de uso. A qualidade do produto e a sua demanda de mercado também são cruciais para a boa performance dos tokens, acrescenta o relatório. Essas métricas podem ser medidas objetivamente através da atividade dos usuários e da geração de receita, por exemplo. Por fim, uma comunidade de usuários ativa é uma evidência importante que pode ser observada, a partir do engajamento dos usuários nas redes sociais.
Segundo o relatório, essas recomendações também são válidas para os fundadores, ressaltando que a sustentabilidade e o sucesso no longo prazo não se resumem à valorização inicial de seus tokens nativos.
Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, mais de 80% dos tokens listados na Binance nos últimos seis meses estão cotados abaixo do valor em que eram negociados no momento em que foram lançados.