A turbulência recente na Venezuela e no Irã voltou a colocar em evidência a dualidade das stablecoins, com ativos lastreados em dólar americano, como a Tether, atuando ao mesmo tempo como um alívio para cidadãos em dificuldade e como uma ferramenta para entidades na lista negra burlarem sanções.
Tanto a Venezuela quanto o Irã vêm ocupando as manchetes no início de 2026 em meio à incerteza política e à agitação civil. Com ambos enfrentando uma série de sanções, inflação, instabilidade política e uma crise do custo de vida, cripto e stablecoins tornaram-se uma parte importante do ecossistema.
O emaranhamento das stablecoins no Irã
O Irã tem visto protestos irromperem por todo o país nas últimas duas semanas em resposta à piora das condições econômicas e ao rial iraniano despencando para mínimas históricas frente ao dólar americano.
A situação escalou de manifestações locais para protestos generalizados em todo o Irã, com milhares de presos e centenas supostamente mortos. Nesse contexto, o governo iraniano também se moveu para cortar o acesso doméstico à internet na quinta-feira.
Cripto e stablecoins tornaram-se uma ferramenta importante para os cidadãos no Irã, dado que o rial iraniano vem perdendo valor frente ao dólar há décadas.
A Tether baseada na Tron (USDT) é relatada como o ativo mais utilizado no país, com cidadãos usando o ativo para se proteger da inflação e do risco sistêmico.
A adoção mais ampla sofreu um baque em 2025, no entanto, com um hack na maior exchange do país e um número significativo de blacklistings de Tether. Enquanto isso, o governo também estabeleceu um limite anual para stablecoins no fim de setembro, permitindo que cidadãos mantenham no máximo US$ 10.000 e comprem no máximo US$ 5.000 por pessoa.
Mas stablecoins também têm sido usadas por entidades sancionadas. Um relatório da empresa de análise on-chain TRM Labs, publicado na sexta-feira, indica que, desde 2023, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) teria movimentado mais de US$ 1 bilhão em stablecoins por meio de duas “empresas de fachada sediadas no Reino Unido”, chamadas Zedcex e Zedxion.
O relatório alegou que, apesar de as duas firmas se apresentarem publicamente como empresas individuais, elas têm funcionado discretamente juntas “como infraestrutura financeira para a IRGC”.
“Na prática, elas operam como uma única empresa inserida em um ecossistema mais amplo de evasão de sanções do Irã, movimentando valor através de fronteiras, moedas e jurisdições em nome de uma das organizações militares mais sancionadas do mundo”, disse a TRM Labs.
“Uma figura-chave nessa rede é Babak Zanjani, um financiador de evasão de sanções de longa data no Irã, anteriormente sancionado por lavar bilhões em receitas de petróleo em nome de entidades do regime, incluindo a IRGC”, acrescentou a TRM Labs.
A Venezuela está intimamente ligada ao USDT
De forma semelhante aos iranianos, venezuelanos também adotaram o USDT para se proteger da incerteza econômica, à medida que o bolívar venezuelano despencou ao longo da última década.
Uma severa falta de confiança nos bancos teria feito com que o USDT fosse adotado de forma tão ampla que pessoas comuns usam o ativo para pagar por todo tipo de serviço cotidiano, optando por criar carteiras cripto em vez de usar contas bancárias.
“É assim que você paga o jardineiro e como paga o corte de cabelo. Você pode usar tether basicamente para qualquer coisa”, disse ao Wall Street Journal no sábado o empresário cripto venezuelano de 71 anos Mauricio Di Bartolomeo, afirmou, acrescentando:
“A adoção de stablecoins foi tão longe na Venezuela que, mesmo sem haver locais regulamentados onde você possa comprá-las e vendê-las, as pessoas ainda assim escolhem stablecoins em vez de usar os bancos locais.”
O WSJ também destacou que o USDT é amplamente utilizado pela estatal venezuelana de petróleo, a Petroleos de Venezuela. A empresa teria começado a exigir pagamentos diretamente na stablecoin para evitar sanções que foram impostas pela primeira vez em 2020.
A companhia é estimada a aceitar 80% de toda a sua receita de petróleo via Tether e frequentemente usa o ativo para liquidar pagamentos de entrada e saída.
A Tether usa blacklists para combater evasores de sanções
O relatório do WSJ acrescenta que a Tether vem combatendo isso ao cooperar com o governo dos EUA para colocar na lista negra “dezenas de carteiras” ligadas ao comércio doméstico de petróleo.
De acordo com dados compilados em um relatório de 5 de dezembro da AMLBot, a Tether colocou na blacklist cerca de US$ 3,3 bilhões em fundos entre 2023 e o fim de 2025, sendo US$ 1,75 bilhão desse total em USDT na Tron.
No fim de semana, a empresa supostamente aumentou esse número ao congelar US$ 182 milhões em USDT na Tron em cinco carteiras; no entanto, isso não foi confirmado como relacionado à Venezuela ou ao Irã.
O Cointelegraph entrou em contato com a Tether para comentar.


