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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Stablecoins são um 'perigo' para o Brasil e podem retirar dinheiro de financiamentos e empréstimos, argumenta Campos Neto

Roberto Campos Neto aponta impactos das moedas digitais na soberania monetária, no sistema bancário e na estabilidade financeira do país.

Stablecoins são um 'perigo' para o Brasil e podem retirar dinheiro de financiamentos e empréstimos, argumenta Campos Neto
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Resumo da notícia

  • Stablecoins podem reduzir a eficácia da política monetária brasileira.

  • Migração para moedas digitais pode enfraquecer bancos tradicionais.

  • Risco de dolarização preocupa economias emergentes como o Brasil

O avanço das stablecoins e da tokenização financeira pode transformar profundamente o sistema econômico global, mas também traz riscos relevantes para países como o Brasil. O alerta foi feito pelo economista e ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em um artigo publicado neste domingo, 01, na Folha de São Paulo.

Campos Neto, que agora integra o quadro de executivos do Nubank, destacou possíveis impactos sobre a política monetária, o sistema bancário e a intermediação financeira, algo que ele já vinha alertando quando era presidente do BC.

Segundo ele, a digitalização do dinheiro e a crescente adoção de moedas digitais privadas podem reduzir a capacidade dos bancos centrais de controlar liquidez e crédito, além de incentivar a dolarização de economias emergentes.

O especialista afirma que o sistema financeiro vive uma transformação estrutural baseada na tokenização de ativos, na qual as stablecoins funcionam como ponte entre o dinheiro tradicional e o ecossistema digital.

Tokenização e transformação financeira

No artigo, Campos Neto explica que a tokenização permite converter ativos físicos e financeiros em representações digitais programáveis, facilitando liquidação, transferência e automação de contratos. Nesse cenário, as stablecoins ganham espaço por oferecer menor volatilidade em comparação com outras criptomoedas.

Ele observa que essas moedas digitais são lastreadas em ativos de alta liquidez e se tornam instrumentos relevantes para pagamentos e operações financeiras globais. No entanto, o economista ressalta que a expansão desses ativos ocorre principalmente em economias emergentes, onde há maior busca por alternativas ao sistema financeiro tradicional e acesso a moedas fortes.

Segundo o ex-presidente do BC, parte desse crescimento está associada à facilidade de acesso ao dólar digital e à maior eficiência transacional das stablecoins em relação aos meios tradicionais de pagamento.

Porém, um dos principais riscos apontados é a dolarização gradual das economias menores, que pode enfraquecer a soberania monetária nacional. Campos Neto afirma que, quando residentes passam a manter riqueza em moedas digitais estrangeiras, reduz-se a capacidade dos bancos centrais de influenciar liquidez, crédito e ciclos econômicos.

Esse processo, segundo ele, pode reduzir a eficácia das políticas monetárias e gerar desafios adicionais para países que precisam controlar inflação e fluxo de capitais, como é o caso do Brasil.

Impacto sobre bancos e crédito

Outro risco destacado é a desintermediação bancária. Campos Neto argumenta que a migração de recursos para stablecoins e carteiras digitais pode reduzir a base de depósitos dos bancos tradicionais.

Assim, com menos depósitos, as instituições financeiras enfrentariam aumento no custo de captação e maior restrição na concessão de crédito, afetando empresas e consumidores. Segundo o economista, o movimento pode alterar o modelo tradicional de financiamento da economia, exigindo novos instrumentos de crédito baseados em ativos digitais.

Diante desse cenário, Campos Neto defende o desenvolvimento de marcos regulatórios e soluções tecnológicas capazes de garantir estabilidade financeira e segurança jurídica.

Ele destaca a importância de instrumentos que permitam concessão de crédito com base em ativos digitais e mecanismos de supervisão que acompanhem a evolução do mercado tokenizado.

O economista também aponta que avanços tecnológicos, como inteligência artificial e sistemas de rastreamento digital, podem ampliar a transparência e transformar o sistema bancário, mas exigem adaptação das instituições financeiras.

Apesar dos riscos, Campos Neto afirma que a tokenização representa uma mudança estrutural inevitável no funcionamento das finanças globais.

Segundo ele, o sistema financeiro tende a se tornar mais digital, programável e baseado em infraestrutura blockchain, exigindo adaptação de bancos, reguladores e governos.

“O dinheiro será cada vez mais programável e a política monetária terá de se adaptar”, indica o economista ao discutir os impactos da nova arquitetura financeira.
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