A ascensão do metaverso tem reacendido discussões filosóficas sobre a natureza da realidade e a hipótese de que a vida na terra não passa de uma simulação, afirma o cientista cognitivo e futurista, Diogo Cortiz, em um texto publicado no Tilt na semana passada.
Cortiz ressalta que embora o metaverso tenha renovado o debate sobre a possibilidade de que o que entendemos por realidade seja um ambiente programado por uma inteligência muito mais avançada e inapreensível, esse postulado não é novo e atravessa os debates filosóficos em diferentes culturas ao longo da história da civilização humana.
O futurista relembra uma antiga lenda da mitologia oriental para ilustrar sua afirmação. Depois de uma longa caminhada em um dia ensolarado, o mestre taoísta Chuang-Tzu parou para descansar sob a sombra de uma árvore e caiu em sono profundo, sonhando que era uma borboleta flanando sobre os campos por onde havia acabado de passear.
Ao acordar, em dúvida sobre qual das duas experiências havia sido de fato real, questionou a si mesmo:
"Estou diante do problema filosófico mais complicado da minha vida. Quem sou eu? Sou um homem que sonhou que era uma borboleta? Ou sou uma borboleta sonhando que se transformou em um homem?"
Diante de novas tecnologias digitais, como jogos de videogame e realidades virtuais e aumentadas, o antigo questionamento toma novas formas e ganha um novo postulado teórico.
Formulado pelo filósofo inglês, Nick Bostrom, em um artigo publicado em 2003, a "hipótese da simulação" apresenta um argumento estatístico para afirmar que a probabilidade de que estejamos vivendo em um ambiente programado por uma inteligência superior é altíssimo – e não teríamos nem como percebê-lo nem como tentar refutá-lo, afirma Cortiz:
"Qualquer evidência que você apresente —seja uma árvore, um vírus ou até um sistema caótico— pode ser perfeitamente resultado da própria simulação. Uma simulação muito bem produzida. Sem contar o fato de que porque nascemos dentro dessa simulação não teríamos como saber a diferença entre uma árvore digital e uma física —nem se existirá uma versão física."
A tese de Bostrom se sustenta a partir da lógica de que qualquer civilização suficientemente evoluída seria capaz de desenvolver um poder computacional enorme. Mesmo que uma parcela minúscula da população tivesse interesse em criar "simulações da realidade", o número de indivíduos "simulados" rapidamente excederia o número de indivíduos "reais".
Assim, em termos estatísticos, a probabilidade de habitarmos um universo simulado é bem maior do que a de estarmos vivendo na "realidade" original. Caso não houvesse nenhum interesse por parte da civilização humana em criar estes universos simulados, ainda assim isso não diminuiria as chances de que sejamos produtos de uma simulação. Apenas tornaria impossível que tenhamos sido parte da "realidade original".
Basta observar a evolução dos jogos de videogame para aceitar que a "hipótese da simulação" não é tão absurda quanto possa parecer. Em mais ou menos 40 anos, a indústria evoluiu de jogos rudimentares em preto e branco e baixíssima definição para a criação de multiversos generativos e imersivos.
Lançado em 2019, "No Man's Sky" é um jogo de exploração espacial com infinitos planetas. Os jogadores podem navegar neste metaverso utilizando recursos de realidade virtual cuja experiência sensorial poderá ser elevada a níveis sobre-humanos em um período não muito distante, através da utilização de sensores hápticos e outros equipamentos sequer ainda comercializados ou mesmo inventados.
"Simulação real"
Para Cortiz, ao fim e ao cabo, estarmos ou não vivendo em uma simulação não altera aquilo que entendemos por realidade. Para justificar esse argumento ele cita "Reality+", o novo livro de David Chalmers, um filósofo que se ocupa da investigação sobre a natureza da mente humana.
Segundo Chalmers, o fato de estarmos vivendo em uma simulação apenas altera a natureza da realidade, mas não a elimina da equação. Uma "realidade simulada" teria como matéria básica a informação. Ou seja, bits ao invés dos átomos da realidade física.
De qualquer forma, a "hipótese da simulação" (ainda) não pode ser cientificamente comprovada, pois a civilização humana não parece ter meios para tanto. Trata-se apenas de um questionamento filosófico.
Exatamente por isso, afirma Cortiz, ela será fundamental para definir os limites éticos, morais e de governança que nós, enquanto seres humanos, desejamos impor a estes novos ambientes virtuais simulados que já estão sendo criados neste exato instante.
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Embora universos paralelos tenham permeado a história da humanidade e tenham se tornado bastante populares ao longo do século passado por conta das narrativas de ficção científica, nem todos os intelectuais e acadêmicos sentem-se confortáveis com a ascensão do metaverso.
Recentemente, o escritor e professor da Universidade de Nova York, Scott Galloway, afirmou que estes novos ambientes virtuais imersivos configuram-se como um "risco para a liberdade", como noticiou o Cointelegraph Brasil.
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