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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Com RWA movimentando R$ 6 bilhões, Liqi mira expansão e quer captar US$ 10 milhões no Brasil

Plataforma de tokenização aposta em rodada em dólar para acelerar expansão, marketing e avanços regulatórios em um mercado que cresceu mais de 2.200% em um ano.

Com RWA movimentando R$ 6 bilhões, Liqi mira expansão e quer captar US$ 10 milhões no Brasil
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Resumo da notícia

  • Liqi mira US$ 10 milhões para acelerar tokenização no Brasil

  • Regulação pode destravar mercado secundário e capital institucional

  • RWA cresce 2.249% e consolida crédito digital no país

A Liqi, uma das principais tokenizadoras do Brasil, entrou em uma nova fase de expansão e se prepara para captar US$ 10 milhões no Brasil, segundo informou ao Cointelegraph Brasil o CEO e fundador da empresa, Daniel Coquieri.

A rodada, que começa a ser estruturada a partir de fevereiro, deve financiar principalmente avanços regulatórios, expansão comercial e investimento em marketing, com foco em acelerar a presença da empresa no mercado de ativos digitais e crédito tokenizado.

Segundo Coquieri, a nova captação será conduzida por meio de um roadshow com investidores, após uma sequência de rodadas anteriores realizadas em reais. Na primeira, a empresa levantou R$ 27,5 milhões, com liderança do Itaú e participação da Oliveira Trust, Honey e Aislan.

Em seguida, veio uma rodada de R$ 14,5 milhões, liderada pela Galápagos, novamente com o Itaú acompanhando. A última captação somou R$ 12 milhões de um investidor individual. Agora, a estratégia muda de patamar, com a empresa mirando recursos em dólar para sustentar a próxima etapa de crescimento.

“O uso dos recursos será voltado para regulatório, expansão e aceleração do negócio. Quando falo em expansão e aceleração, estou falando principalmente de investimento em marketing e área comercial, muito mais do que em tecnologia ou outras áreas operacionais”, revelou.

Tokenização avança no Brasil

O movimento da Liqi ocorre em um momento em que o mercado brasileiro de tokenização de ativos do mundo real (RWA) vive uma de suas melhores fases desde 2018 quando os primeiros tokens foram emitidos pela exchange Mercado Bitcoin (precatórios) e BTG (Reitz).

Em apenas um ano, o volume de emissões tokenizadas cresceu mais de 2.249%, segundo dados do RWA Monitor. Em fevereiro de 2025, o total somava R$ 122,44 milhões. Já em janeiro de 2026, o ecossistema ultrapassou R$ 2,876 bilhões (movimentando mais de R$ 6 bilhões no acumulado anual), impulsionado pela ampliação das ofertas corporativas, pela entrada de novos emissores e pela adoção de estruturas digitais de crédito.

Esse avanço ocorre em paralelo ao debate regulatório liderado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que planeja dois grandes movimentos em 2026, a revisão da IN 88 e a implementação da “135 Light”.

Para Coquieri, a revisão da CVM 88 se tornou um dos pontos mais estratégicos para garantir a continuidade do crescimento. Ele avalia que a norma, criada como um trilho regulatório para tokenização e operações de RWA via licença de crowdfunding, ajudou o mercado a sair do piloto e ganhar escala.

Quando a gente fala de tokenização e RWA no Brasil, a CVM escolheu a licença de crowdfunding como o trilho regulatório para essas operações. O mercado está avançando, mas ainda falta essa revisão para ampliar os limites, ajustar alguns pontos operacionais e, principalmente, permitir a criação de mercado secundário e trazer o investidor institucional para dentro da norma.

Regulação mais leve e infraestrutura digital

Coquieri também destaca que a CVM 88 se diferencia por ser uma regra mais leve, com menos participantes e uma infraestrutura mais digital. Na prática, isso permite processos mais eficientes, automatizados e compatíveis com a lógica de plataformas baseadas em blockchain. Em contraste, ele aponta que a infraestrutura associada à CVM 160 ainda opera com fluxos manuais, troca constante de e-mails e envio de arquivos, o que limita a escalabilidade.

Para o fundador da Liqi, a próxima etapa depende de ajustes claros na norma. Entre os principais pedidos do mercado estão a ampliação dos limites das operações, a criação de um mercado secundário estruturado e a interoperabilidade entre plataformas. Segundo ele, essas mudanças podem abrir espaço para a entrada de investidores institucionais e acelerar ainda mais a digitalização do crédito no país.

Os números mais recentes mostram como a tokenização já se espalhou por diferentes classes de ativos. Dados do RWA Monitor mostram que em janeiro de 2026, a Cédula de Crédito Bancário (CCB) tokenizada superou R$ 1,04 bilhão em emissões, representando cerca de um terço de todo o mercado. Na sequência, aparecem as Notas Comerciais tokenizadas, com R$ 992,78 milhões.

Outro segmento em destaque é a CPR tokenizada, que alcançou R$ 410,67 milhões, impulsionada pela demanda crescente por financiamento agrícola estruturado em blockchain. O Recebível de Cartão tokenizado também avançou, chegando a R$ 254,02 milhões. Já as Duplicatas tokenizadas, que somam R$ 111,42 milhões, reforçam o movimento de digitalização das rotinas de crédito corporativo.

Crédito, blockchain e o papel das registradoras

Quando o tema é duplicata escritural, Coquieri adota uma postura mais cautelosa. Ele afirma que a Liqi não atua diretamente nesse mercado, embora tokenize duplicatas em suas operações. Na avaliação dele, o papel das registradoras continua central no aspecto regulatório, mas existe uma oportunidade clara para que as empresas licenciadas adotem infraestruturas em modelo de rede, baseadas em blockchain.

Na visão do executivo, a tecnologia pode aumentar a eficiência, a transparência e a rastreabilidade dos registros. No entanto, a adoção ainda é limitada. Segundo ele, poucas empresas migraram para esse tipo de arquitetura, o que torna o acompanhamento da evolução desse segmento um ponto estratégico para os próximos anos.

Além dos grandes blocos de crédito, o mercado brasileiro também começa a experimentar modelos mais diversificados. A Renda Variável Digital soma R$ 10 milhões, enquanto o Pool de Investimento tokenizado, voltado ao agrupamento de posições, alcança R$ 4 milhões. Emissões internacionais aparecem como sinais de tendência, com Bonds tokenizados em R$ 1,30 milhão e Contratos de Mútuo em R$ 1,10 milhão. Até estruturas mais específicas, como o CRI tokenizado, começam a surgir, ainda que em volumes modestos.

Esse cenário local dialoga com movimentos globais. Recentemente, Vitalik Buterin, cofundador do Ethereum, destinou US$ 45 milhões em ETH para projetos de privacidade e infraestrutura de código aberto, reforçando a base tecnológica que sustenta parte das iniciativas de tokenização no mundo.

Para Coquieri, o ponto central continua sendo a regulação. Ele defende que a norma não precisa definir tecnologia, mas, ao permitir a entrada de novos participantes, naturalmente atrai players com soluções mais modernas. Na prática, isso cria um ciclo em que a infraestrutura do mercado se renova, os custos caem e o acesso ao crédito se amplia.

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