Em menos de 48 horas, a Ethereum (ETH) deve concluir o The Merge, deixando de ser uma rede cujo mecanismo de consenso baseia-se em Prova-de-Trabalho (PoW) para assumir um novo modelo baseado em Prova-de-Participação (PoS).
Entre as muitas coisas que vão ser afetadas pela mais aguardada atualização da história do mercado de criptomoedas, o mercado de NFTs é uma das principais, visto que o ecossistema de tokens não fungíveis nasceu, se desenvolveu e se popularizou na rede líder de contratos inteligentes.
Os maiores riscos do Merge associados a esse mercado bilionário, embora momentaneamente em retração, dizem respeito a possíveis hard forks da rede. Versões alternativas da Ethereum cujo objetivo fundamental será mantê-las operando sob Prova-de-Trabalho, de modo a manter a indústria de mineração do Ether ativa e operante, poderão causar confusão e abrir espaço para golpes e fraudes à medida que colecionáveis digitais em NFT poderão ser replicados e comercializados nestas novas redes.
A princípio, nada muda para os detentores de NFTs baseados na Ethereum após o The Merge: os colecionáveis digitais permanecerão nas carteiras de seus detentores sem que nada precise ser feito previamente. Da mesma forma, eles poderão ser negociados em marketplaces ou utilizados em aplicativos descentralizados (DApps).
No entanto, há alguns cuidados a serem tomados justamente ao que diz respeito à comercialização de NFTs na sequência da atualização da rede, alertam especialistas.
Ethereum 2.0
A transição da Ethereum para um mecanismo de consenso baseado em Prova-de-Participação representa um grande benefício para o mercado de NFTs, pois a partir da conclusão do The Merge os tokens não fungíveis não poderão mais ser acusados de contribuírem para a devastação do meio ambiente.
Estima-se que a nova Ethereum deve reduzir os gastos energéticos operacionais da rede em mais de 99%, de acordo com a Ethereum Foundation. Por outro lado, embora todo o processo do The Merge tenha sido extensivamente testado e monitorado, com os desenvolvedores da Ethereum tentando antever possíveis falhas e problemas técnicos, não se pode descartar que haja problemas logo após a transição, como destacou Eric Diep, cofundador da startup de contratos inteligentes Manifold, em reportagem do Decrypt:
"A Ethereum roda a partir de software, e todo software sofre com problemas de travamento – em outras palavras, é impossível determinar com certeza se haverá algum problema técnico. Dito isso, eu não apostaria contra a comunidade de desenvolvedores da ETH.”
Hard forks
A maior parte da comunidade da Ethereum, incluindo usuários, desenvolvedores de aplicativos descentralizados e emissores de stablecoins está apoiando o The Merge. Muitos já disseram que não oferecerão suporte a eventuais hard forks da rede. Inclusive o OpenSea, marketplace líder do mercado de NFTs.
A esta altura, no entanto, parece óbvio que forks serão criados. O mais proeminente deles até então é chamado Ethereum PoW (ETHPOW), cujo líder é o minerador chinês Chandler Guo e tem apoio do fundador da Tron (TRX), o polêmico Justin Sun.
Hard forks com o Ethereum PoW hospedarão versões duplicadas dos NFTs do Ethereum. Como um NFT é simplesmente um token registrado em uma rede blockchain que funciona como uma escritura de propriedade digital, forks da Ethereum terão registros vinculados ao mesmo colecionável digital baseado na Ethereum 2.0 – ou "Ethereum oficial".
Marketplaces de NFT que oferecem suporte tanto à Ethereum 2.0 quanto a eventuais hard forks abrirão espaço para que haja duas ou mais versões de um mesmo NFT listadas para comercialização. Isso poderá causar confusão, permitindo que golpistas tentem vender versões duplicadas de coleções populares de NFTs – como Bored Ape Yacht Club e CryptoPunks – para colecionadores desavisados, disse Johnna Powell, chefe de NFTs da ConsenSys, ao Decrypt:
"É plausível imaginar que traders de NFT mais sofisticados tentem vender colecionáveis de alto valor de sua propriedade em forks PoW a preços de barganha para obter um lucro rápido, ao passo que traders novatos podem não detectar a diferença e entender o que de fato estão comprando."
Ataques de repetição
Outra modalidade de golpe que tem sido levantada pela comunidade da Ethereum são os denominados "ataques de repetição" (replay attacks, em inglês). Basicamente, eles permitiriam que uma transação realizada em algum dos forks da Ethereum possa ser replicada.
Na prática, funcionaria assim: um proprietário de um NFT da CryptoPunks pode vender a versão duplicada em um dos forks de Prova-de-Trabalho da rede original. Caso essa mesma transação seja "repetida" por um agente mal intencionado na Ethereum 2.0, então o vendedor também pode perder a versão original do NFT baseada.
Para isso, é necessário que as duas blockchains compartilhem o mesmo ID. Pelo menos no caso da Ethereum PoW, isso não vai acontecer, garantiu Chandler Guo, vedando a possibilidade de eventuais "ataques de repetição" naquele que possivelmente será o principal fork da Ethereum.
Janela de oportunidade
De qualquer forma, tudo indica que a janela de oportunidade para golpistas e criminosos será pequena, uma vez que tanto projetos como marketplaces estão se posicionando oficialmente previamente ao The Merge para alertar os colecionadores de NFTs sobre os riscos associados ao The Merge.
Detentora dos direitos sobre as duas principais coleções de NFTs, a Yuga Labs comunicou à comunidade com um mês de antecedência do The Merge que não oferecerá suporte a NFTs de eventuais hard forks da Ethereum.
The Ethereum network is gearing up for the merge mid September. In line with the broader Ethereum community, in the event of a viable PoW fork, Yuga intends to only recognize NFTs on the PoS ETH chain as subject to the relevant NFT license and eligible for Yuga-offered utility
— Yuga Labs (@yugalabs) August 17, 2022
A rede Ethereum está se preparando para o The Merge em meados de setembro. De acordo com a comunidade da Ethereum, no caso de um eventual fork PoW, a Yuga pretende reconhecer apenas NFTs na rede PoS ETH como sujeitas às licenças relevantes dos NFTs e elegíveis para recebimento dos benefícios oferecido pela Yuga
— Yuga Labs (@yugalabs)
Assim, ainda que haja um movimento inicial de comercialização de NFTs em hard forks da Ethereum, se houver consenso entre os colecionadores de que estes itens não têm valor, a tendência é que haja pouca demanda.
Os preços de colecionáveis digitais duplicados provavelmente não chegarão perdo dos valores dos itens originais e, mesmo assim, os NFTs baseados em forks da Ethereum devem desvalorizar rapidamente, até finalmente não valerem praticamente nada. Assim como é provável que ocorra com os tokens nativos destes forks, como tem sido consenso entre investidores experientes.
Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, o trader e cofundador do CoinGecko, Bobby Ong, sugeriu que investidores podem aproveitar-se dos airdrops dos prováveis hard forks da Ethereum desde que estejam preparados para negociá-los tão logo estes tokens sejam distribuídos.
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