Se o cenário macroeconômico não oferece perspectivas clara para o fim do rigoroso inverno cripto de 2022, alguns analistas e investidores começam a buscar respostas e sinais no desenvolvimento da própria indústria.

A narrativa dominante neste momento, provavelmente por ser a única que pode ser realmente levada a sério, estrutura-se em torno do The Merge da Ethereum (ETH). A transição da rede líder de contratos inteligentes e segunda maior criptomoeda em termos de capitalização de mercado, de um mecanismo de consenso baseado em Prova-de-Trabalho (PoW) para um algoritmo baseado em Prova-de-Participação (PoS) é a atualização mais antecipada e aguardada da história do mercado de criptomoedas

Embora no curto prazo, ela não altere de forma decisiva a dinâmica da rede, é garantido que a eficiência energética da Ethereum vai tornar-se 99% superior à de hoje, e que a emissão de novas moedas cairá de forma significativa, favorecendo a valorização do ETH no longo prazo.

A solução dos críticos problemas de escalabilidade da rede foram deixados para depois, em benefício de uma transição lenta, gradual e, principalmente, segura. Afinal, além de uma capitalização de mercado de quase US$ 200 bilhões, de acordo com dados atualizados da CoinGecko, a Ethereum fornece a infraestrutura para aplicações que movimentam setores da indústria tão diversos quanto DeFi (finanças descentralizadas), NFTs (tokens não fungíveis) e games.

Na semana passada, a gestora global de investimentos Bernstein listou sete tendências capazes de reverter a atual tendência de baixa do mercado de criptomoedas a partir de fatos gerados pela própria indústria. No entanto, tudo depende do êxito do primeiro. Vamos à eles:

1. O sucesso do The Merge

Até então, tudo tem corrido bem nas fases de testes e dos eventos prévios à conclusão do The Merge, que deve ocorrer em algum momento entre 10 e 20 de setembro. De forma resumida, tecnicamente o The Merge irá modificar a Ethereum através de uma fusão entre a rede atual atual, que opera sob Prova-de-Trabalho, com a Beacon-Chain, uma nova camada de consenso, resultando no que é chamado de Ethereum 2.0.

Esta "nova Ethereum" funcionará sob um algoritmo de Prova-de-Participação, mantendo todo o histórico de blocos e transações da rede desativada. A grande questão é que um evento tecnicamente complexo será realizado sem que a rede seja desativada para manutenção e o sucesso ou o fracasso da "fusão" é algo que ainda está em jogo.

Não há dúvida de que o êxito do The Merge poderá se tornar um catalisador poderoso de atração de capital para o mercado, afirmaram os analistas da Bernstein, Gautam Chhugani e Manas Agrawal.

2. Os rollups podem criar uma nova demanda para usuários de criptomoedas

Rollups são soluções de camada 2 que ajudam a solucionar os problemas de escalabilidade da Ethereum – a lentidão da rede e o alto custo das taxas de transação – processando transações em redes paralelas.

Recentemente, tem-se verificado um aumento considerável tanto nos números de usuários e de transações como no valor total bloqueado em rollups como o Optimism (OP) e a Arbitrum. Atualmente, elas respondem por cerca de 15% a 25% de todas as transações realizadas na blockchain da Ethereum.

A partir da conclusão do The Merge com êxito, rollups podem atrair novos usuários ao espaço cripto, acreditam os analistas da Bernstein.

3. Ether supera o Bitcoin e se torna líder do mercado

Chhugani e Agrawal acreditam no "flippening", uma tese que sustenta que eventualmente o Ethereum vai superar o Bitcoin (BTC) para tornar-se a maior criptomoeda em capitalização de mercado. A recente queda da dominância do Bitcoin a níveis que não eram vistos desde 2018 associada à narrativa do The Merge deram nova vida à tese, que não é nova, diga-se de passagem. Ela surgiu durante o ciclo de alta de 2017, quando a participação de Bitcoin e Ether no mercado chegou a proporção de 34,5% e 21,6%, respectivamente.

Os analistas da Bernstein são partidários do "flippening", uma vez que é importante que ativos digitais tenham seu desenvolvimento orientado à inovação. De acordo com a dupla, a Ethereum é o principal representante da inovação no espaço cripto. Por isso, o Ether se credencia como a forma monetária digital preferencial para os usuários de criptomoedas.

4. Novo "verão DeFi"

As finanças descentralizadas emergiram como uma nova tendência de mercado a partir da segunda metade de 2020. Os protocolos da primeira geração das finanças descentralizadas – MakerDAO (MKR), AAVE, Compound (COMP) e Uniswap (UNI) – ganharam força nesse período, que passou a ser conhecido como o "verão DeFi".

Uma nova temporada DeFi pode ocorrer a partir da popularização das soluções de escalabilidade de camada 2, já mencionadas anteriormente. Rollups como Optimism e Arbitrum tornam os instrumentos de finanças descentralizadas acessíveis a uma maior quantidade de usuários, uma vez que minimizam os custos operacionais para realização de transações.

5. Games evoluem com o fim do modelo "play-to-earn"

Os games têm se mostrado um dos setores mais resilientes durante o atual inverno cripto, apesar do fracasso do modelo play-to-earn, que foi o grande responsável pela atração de uma grande quantidade de usuários para o espaço.

Uma nova cultura vai emergir para transformar a natureza dos blockchain games, com foco maior na jogabilidade e na diversão do que em eventuais lucros financeiros. Chhugani e Agrawal citam a migração de talentos da indústria de games tradicional para startups de Web3 como sintomáticos deste movimento.

6. Tokens com modelo econômico baseados na receita gerada

Uma das grandes falhas de projetos de todos os setores da indústria, passando pelos supracitados games e finanças descentralizadas, diz respeito ao modelo econômico de seus tokens. Até então, a valorização dependia majoritariamente de campanhas de mineração de liquidez e de movimentos especulativos.

Agora, começam a surgir projetos cujos tokens acumulam valor a partir das receitas geradas pela atividade real no protocolo. Esse novo modelo tende a aumentar a confiança dos investidores, afirmam os analistas da Bernstein.

7. Aplicativos superam os protocolos

Até então, eram os protocolos os principais catalisadores da liquidez disponível no mercado, sugerindo que o valor na criptoeconomia estaria acumulado na camada do protocolo base, e não na camada dos aplicativos.

Todas as tendências anteriores desaguam nesta última tendência, pois em última instância o que interessa para a grande maioria dos usuários é a utilidade dos aplicativos, e não a infraestrutura que os sustenta. Quanto mais esta última se tornar invisível, maior o potencial de adoção das criptomoedas por um número mais amplo de usuários.

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