Um cientista de computação anônimo e desconhecido propõe uma nova ordem monetária baseada na escassez digital e depois desaparece sem deixar rastro, abandonando o produto do seu gênio aos cuidados de um grupo de desenvolvedores obstinados que em pouco tempo o transforma em um ativo global supervalorizado.
Esta premissa poderia muito bem render uma narrativa distópico-futurista de ficção científica em que cabe a alguns eleitos salvar a humanidade da degradação social causada pela aliança entre corporações inescrupulosas e forças estatais corruptas. No entanto, não passa de um breve resumo dos primeiros doze anos de existência da invenção de Satoshi Nakamoto.
A história do Bitcoin é um daqueles casos em que a realidade supera a ficção e a capacidade de imaginar os próximos anos da primeira criptomoeda da história da humanidade a prosperar de fato parece uma tarefa impossível.
Mas se alguém tem autoridade para arriscar-se a fazê-lo, essa pessoa é Gavin Andresen. Um dos principais interlocutores de Satoshi Nakamoto nos anos iniciais de desenvolvimento do Bitcoin, Andresen traça um possível cenário para a rede em um breve texto publicado em seu site pessoal, na terça-feira, intitulado "Um futuro possível para o BTC."
Na introdução, ele adverte que as palavras a seguir devem ser lidas como "uma pequena peça de ficção científica". E acrescenta:
"As chances de que o futuro se desenrole dessa maneira são pequenas, mas, entre todos os futuros possíveis, acho que este tem a mesma chance de acontecer do que qualquer um outro".
Com um estilo simples e direto, Andresen abre o texto contextualizando o cenário. "Imagine: estamos em 2061". Em seguida, ele revela sua expectativa de preço para o Bitcoin na ocasião: US$ 6 milhões. Descontada a alta taxa de inflação dos 40 anos anteriores, esse valor seria equivalente a US$ 1 milhão nos dias de hoje.
Sua próxima estimativa diz respeito às recompensas por bloco minerado. Segundo seus cálculos, estarão na faixa de US$ 6.000 por bloco:
"Os mineradores estão sendo recompensados com 0,006103515625 BTC por bloco, mais taxas de transação de cerca de 5 BTC para aproximadamente 4.000 transações ($ 7.500 por transação)."
No futuro visualizado por Andresen, a grande maioria das transações não ocorrerá na rede do Bitcoin, mas sim em redes de segunda camada, como a Lightinig Network.
Os BTCs em circulação serão versões sintéticas espelhadas a partir dos tokens originais que proporcionarão aos usuários transações mais rápidas, taxas mais baixas, maior privacidade, além de permitir que os Bitcoins sejam reinvestidos em protocolos de finanças descentralizadas (DeFi).
As transações na rede principal ficarão restritas a baleias gigantes - exchanges centralizadas, bancos centrais e os endereções de computação multipartites que guardam os tokens espelhados. Essas baleias serão ao mesmo tempo os mineradores e os responsáveis pelas transações, e não se importarão de pagar altas taxas pois serão compensados pelas recompensas de bloco.
Porém, em 2100, essas recompensas se tornarão irrisórias, e as transações, cada vez mais raras. Então, para economizar recursos, a rede será desativada, conoforme Andresen descreve:
Um por um, eles desligam as “pontes” que movem o BTC entre as cadeias. Em seguida, eles queimam qualquer BTC bloqueado na rede, enviando-o para o endereço 0x000…, para garantir que ninguém possa gastá-lo na rede BTC.
Ao final, não haverá mais BTCs sendo produzidos ou circulando na rede, e ela deixará de existir.
Para aqueles que podem estar pensando que este seria o fim do Bitcoin, não é exatamente essa a visão de Andresen. Para ele, o Bitcoin terá se transformado, mas continuará existindo:
"Mas cerca de 20 milhões de BTC seguem vivos, circulando em outras blockchains. Valiosos porque há um número limitado deles e porque o BTC foi o primeiro ativo digital escasso."
Andresen delineia uma perspectiva utópica sobre o futuro do Bitcoin. Se a criptomoeda nunca dependeu do seu criador para sobreviver, no futuro ele poderá nem mesmo depender da própria estrutura que o tornou possível. Talvez porque alguma utopia esteja desde sempre inscrita nas entrelinhas do seu código-fonte.
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