O debate sobre o impacto que a computação quântica pode trazer para o futuro do Bitcoin e de praticamente todas as criptomoedas do mercado, pode ficar mais 'acalorado' com o recente anúncio de um grupo de pesquisadores chineses que declararam ter realizado, com sucesso um experimento de 'internet quântica' na qual dados entre duas memórias quânticas foram transmitidos a quase 50 quilômetros de distância.

No experimento, duas estações idênticas foram montadas em um único laboratório, cada uma delas gerando fótons pelo uso de um laser atravessando uma nuvem de átomos de rubídio (entrelaçamento quântico), desta forma, os fótons foram enviados para uma terceira estação, em um laboratório a 11 quilômetros de distância. Ali, instantaneamente, reproduziram na terceira nuvem a conexão de emaranhamento original das nuvens atômicas distantes. A ligação das duas nuvens originais foi transmitida então para outra nuvem, dessa vez, a 50 quilômetros.

Contudo, apesar do sucesso no experimento, Xiao-Hui Bao, Jian-Wei Pan, principais pesquisadores envolvidos com a 'internet quântica', destacaram que o estudo precisa ser aprimorado e que ainda há muitos desafios nas nuvens atômicas para a manutenção do estado quântico necessários para se criarem 'repetidores' de um 'sinal quântico".

“Ainda há um longo caminho a percorrer para que um repetidor quântico funciona em situações reais de longa distância",Bao.

Já seu colega, Jian-Wei Pan destaca que uma 'internet quântica' pode estar disponível somente daqui há 10 anos.

“As nuvens atômicas ainda não mantêm seus estados quânticos por tempo suficiente para permitir a ligação múltipla necessária em um repetidor quântico. Nosso grupo está trabalhando nisso, mas acho que uma verdadeira rede de internet quântica está a pelo menos uma década de distância", disse.

Especialistas em computação divergem sobre como a computação quântica poderia impactar o futuro do Bitcoin. Enquanto especialistas apontam que o poder computacional de um computador com esta configuração poderia quebrar as chaves privadas criptografadas e associadas a chaves públicas, outros pesquisadores apontam que isso é só teoria.

“Por meio de engenharia reversa, podem ser acessadas chaves privadas que fornecem acesso as carteiras. Eu acho que isso é uma ameaça real e substancial. Bitcoin é um registro público. Assim, é possível olhar para quais carteiras armazenam os maiores saldos e depois atacá-las”, disse o chefe de blockchain da IBM, Jess Lund.

Para o desenvolvedor do Bitcoin, Jimmy Song, é uma besteira dizer que a computação quântica pode destruir o BTC. Segundo ele as pessoas que declaram isso deveriam entender melhor como a tecnologia funciona e "estudar mais".

"Isso é tudo uma besteira (risos). O problema é que a maioria das pessoas não entende a computação quântica, e a concepção popular é a de que 'se conseguirmos mais poder de processamento podemos calcular coisas em 5 segundos'. mas não é assim que funciona. Com a computação quântica você obtém melhores raízes quadradas mas isso não garante que elas serão suficientes para decifrar uma chave privada", disse.

Já para Ulisses Mello, também da IBM, "Todo tipo de sistema  transacional que utiliza os sistemas de Blockchain ou criptomoedas poderiam ser rapidamente destruídos por um computador Quântico, por isso que já vemos estudos em processo com o intuito de tornar os sistemas atuais fortes contra a computação quãntica”, disse

"As máquinas quânticas são muito eficientes na execução de algoritmos de força bruta, como a fatoração de números primos e buscas em listas não ordenadas. As soluções de criptografia são feitas de forma que nenhum computador convencional possa quebrar a chave em tempo hábil, mas com computadores quânticos isto pode vir a ser possível nos próximos anos. Pela própria característica de processamento acelerado do computador quântico, pode colocar em risco não somente o bitcoin, mas todo o sistema de criptografia existente", disse Wander Cunha, head da Minsait no Brasil.

O desenvolvedor especialista em Bitcoin e Blockchain, Everton Melo, disse que a questão da computação quântica destruir o Bitcoin é falácia, para ele é como você ter uma Ferrari em um congestionamento, ou seja, por mais que ela permita você chegar a 300 Km/h, a via não te permite andar mais do que 20 km/h, desta forma, tanto uma Ferrari quanto um Fusca 69 conseguem fazer o mesmo trabalho.

"A internet que temos hoje com seus equipamentos e infraestrtura que temos hoje, eles não funcionam para particulas atômicas ou seja, a transmissão de dados que temos na internet não é compatível com uma 'internet quântica' e não conseguimos trafegar um 'bit quântico' na rede, um exemplo, na informação quantica quando você envia um dado, ela têm um nível de detalhe tão alto que se alguém visualizar aquela informação ela altera o estado das partículas que estavam compondo aquela informação. Assim Desta forma não dá para 'plugar' um computador quântico na internet. Embora existam falhas teóricas sobre ataque a força bruta, nenhuma delas foi provada até agora, por isso a internet quântica pode ser um divisor de àguas quando ela estiver pronta"

Entretanto, de acordo com o desenvolvedor do bitcoin Pieter Wuille, pouco mais de 64 mil bitcoin estariam vulneráveis a um ataque quântico, ou seja 37% do total de BTC em circulação.Os endereços afetados seriam aqueles reutilizados diversas vezes para uma chave privada. Para impedir, isso, segundo ele, o núcleo do Bitcoin Core já vem estudando mudanças na assinatura do Bitcoin para implementar um esquema de assinatura de segurança PQC.

O mesmo estaria sendo feito com o Ethereum, que debateu no último Ethereal Ethereum Summit o conceito do Ethereum 3.0. Uma das soluções que vem sendo debatida é o programa SNARGs proposto por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley, que não utiliza a criptografia do SHA256 mas ‘combina’ diferente tipos de criptografia.

Para ajudar no debate, o Cointelegraph preparou um Guia sobre os principais pontos que norteiam a relação da computação quântica e o Bitcoin, confira.

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