O Brasil se prepara para uma transição no comando do Banco Central, que nos últimos 4 anos, lançou inovações que impactaram fortemente a vida e o cotidiano dos brasileiros, como o Pix e o Open Finance.
A 'era Campos Neto', como ficou conhecida, foi marcada pela inovação e tecnologia, já que o atual presidente, que deixará o cargo no final do ano, deu enfase na agenda BC#, focada na economia digital, na inserção dos desbacarizados e na diversificação dos serviços e atores do sistema financeiro, como as fintechs que ganharam espaço igual ao lado dos bancos tradicionais.
Sob Roberto Campos Neto a agenda BC# também passou a englobar o lançamento de uma CBDC, conhecida inicialmente como Real Digital e que ganhou o nome de DREX.
A nova moeda do Brasil, promete intensificar ainda mais a agenda de inovação do BC, criando no Brasil uma plataforma regulamentada para contratos inteligentes e tokens RWA que será interligada com o Pix, o Open Finance e pretende promover uma mudança de paradigma total no sistema financeiro do Brasil (Agregador Financeiro).
A proposta de Campos Neto é que, com a implementação destas frentes de tecnologia, o cidadão não seja mais 'preso' em uma instituição, sendo seu cliente e, portanto, restrito as ofertas, taxas e regras daquele banco X, mas que o cidadão seja dono de seus dados, dinheiro e ativos (os dados também são um ativo nesta nova lógica web3 do BC) e, deste modo, o cidadão decide com quem compartilhar estas informações e com qual oferta (e não mais instituição) ele quer se relacionar.
Simplificando, na proposta da era 'Campos Neto", os bancos e fintechs é que vão 'brigar' para atender o cliente com produtos e serviços competitivos e não mais o cliente que terá que 'brigar' para ser aceito em um banco, ter sua conta aprovada e, conforme a 'benevolência' do banco, acessar este ou aquele serviço.
Quem vai 'mandar' será o cliente e não mais o banco.
No entanto, com a saída de Campos Neto, o mercado passou a colocar em dúvidas a prioridade que a nova gestão do BC deve dar a esta agenda de inovação e o foco dos novos diretores do BC, que sinalizações do governo apontam para um desejo de um BC menos 'tecnológico' e mais 'tradicional' focado na redução de juros e em ferramentas para facilitar o crédito imediato.
Gabriel Galípolo
Um dos nomes mais cotados para suceder Campos Neto é Gabriel Galípolo, atual diretor de política monetária do BC, e que entrou para o BC focado em ser uma ponte entre o governo e a autarquia e, com foco na agenda econômica tradicional.
“Temos avaliação de que a desaceleração [da atividade econômica] está forte demais e que isso inspira cautela. Por isso, o Galípolo vai ser uma ponte muito importante”, disse o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, quando o executivo foi nomeado no BC.
No caso da inovação, Galípolo já chegou a divergir publicamente de Campos Neto. Quando o atual presidente do BC rechaçou a ideia de uma moeda digital comum entre Argentina e Brasil, proposta por Lula no começo do mandato, Galípolo disse que a moeda seria válida e que não invalidaria nem o Real, nem o Peso argentino.
No entanto, apesar das divergências, para Henrique Meirelles, ex-presidente do BC, Galípolo é um nome ótimo para presidir a instituição. Em entrevista ao Radar Econômico, Meirelles destacou que Campos Neto fez um excelente trabalho e que o nome de Galípolo é visto com otimismo, mas não garante a 'continuidade' da agenda de Campos Neto.
"Ele está na diretoria, conhecendo cada vez mais toda a metodologia e o aspecto técnico do BC. O fato de ele estar no BC é útil e muito importante”, disse.
Além da mudança na liderança, 2025 trará uma nova modalidade de meta de inflação, que será contínua, não mais anual. Meirelles comenta sobre essa alteração, mencionando que a meta contínua abrirá mais margem para discussões, embora alguns países a utilizem com sucesso.