Desde o ano passado as criptomoedas passaram a fazer parte da realidade de muitas pessoas no mundo todo. Mais do que apenas uma alternativa de investimento, ativos digitais passaram a ser mais aceitos como meio de pagamento e mais de 12 anos depois da criação do Bitcoin (BTC), finalmente estão assumindo o papel de moeda.
Um novo estudo encomendado pela firma de consultoria financeira DeVere revelou que, a julgar pelo desejo das novas gerações, receber salários em criptomoedas é uma tendência que deve ganhar maior amplitude em um futuro próximo.
Os resultados divulgados em uma reportagem da CNBC revelaram que mais de 30% dos millennials (aqueles com idade entre 26 e 42 anos) e metade da Geração Z (jovens de 25 anos ou menos) gostariam de receber ao menos metade de seus salários em Bitcoin ou outras criptomoedas.
Inclusive, oferecer benefícios sob a forma de ativos digitais já se tornou um atrativo adicional que as empresas estão utilizando para atrair novos talentos para os seus quadros.
Tony Jarvis, diretor de segurança empresarial na região do Pacífico asiático e do Japão da startup de segurança cibernética Darktrace, afirma que remuneração em criptomoedas está na moda, especialmente entre as novas gerações de trabalhadores:
“Oferecer-se para pagar seus funcionários com Bitcoin pode ser uma maneira de atrair o que podemos chamar de ‘trabalhadores que pensam no futuro’, especialmente em certos setores, como as Fintechs."
Chris Adam, fundador e CEO da SharpRank, uma agência de classificação de risco independente que trabalha com estudantes universitários e os remunera com criptoativos, compara o magnetismo das criptomoedas entre seus jovens empregados ao de grandes marcas de apelo global:
"Quando a Starbucks se tornou popular, era importante ser visto ostentando um copo da Starbucks pelas ruas como sinal de status. Hoje, é muito semelhante em relação a possuir algum tipo de criptomoeda, porque é disso que todos os seus amigos estão falando.”
A nova geração teria maior disposição ao risco em compensação por maiores retornos. Embora já sejam utilizadas para pagamento de salários em países tão diversos quanto Coréia do Sul, EUA e Argentina, há riscos e benefícios envolvidos nesta nova modalidade de remuneração.
Agilidade
Aceitando o salário em criptomoedas, evita-se o tempo de espera, tarifas bancárias e taxas de câmbio que fazem parte de transações realizadas através de instituições financeiras tradicionais. Especialmente em um mundo cada vez mais globalizado, em que é possível prestar serviços a empresas de qualquer parte do mundo.
Considerando-se que a aceitação de criptoativos como meio de pagamento também é uma tendência em ascensão, sequer há necessidade de conversão do salário em moeda fiduciária para começar a gastá-lo, como destaca Sumit Gupta, CEO e cofundador da CoinDCX, uma exchange de criptomoedas:
“Assim, eles têm acesso imediato aos criptoativos e podem adicioná-los aos seus portfólios, sem necessidade de conversão, o que geraria a uma taxa de transação adicional.”
Evitar impostos – ou não
Quando se trata de questões tributárias, tudo depende do país onde o trabalhador está baseado . Alguns países são “muito lenientes” nesse sentido em relação às criptomoedas, disse Jarvis, acrescentando:
“Quando você considera o quanto esses ativos podem se valorizar ao longo do tempo, implica em ganhos significativos se for possível evitar impostos nesta equação."
Portugal é conhecido como um paraíso fiscal para criptomoedas por não cobrar impostos sobre transações envolvendo Bitcoin. No entanto, novas legislações estão sendo implantadas neste sentido em diversos países e a tendência é que eles passem a ser taxados pelo governo.
Por exemplo, a partir de 18 de abril, cidadãos norte-americanos precisarão relatar transações de criptomoedas ao IRS – a Receita Federal dos EUA. A Índia acaba de implementar um imposto de 30% sobre rendimentos em transações envolvendo criptomoedas.
No Brasil, os rendimentos devem ser declarados a partir de ganhos que ultrapassem R$ 35.000 mensais. Neste caso, deve-se pagar imposto de ganho sobre capital, cuja alíquota é de 15%, no mês seguinte à consumação da venda do ativo.
Portanto, é importante que funcionários que aceitem receber salários em criptomoedas estejam cientes das regras tributárias de sua jurisdição.
Volatilidade
Se para os investidores, cujo horizonte temporal para utilização de criptomoedas é mais amplo, a volatilidade do mercado é uma preocupação constante, para profissionais que possivelmente necessitam utilizar seus ativos imediatamente em gastos cotidianos, os revéses negativos de preço podem ser fonte de prejuízo. De lucro também, é verdade.
Mesmo o Bitcoin, a mais consolidada das criptomoedas, não está imune a oscilações de preço imprevisíveis. Por exemplo, desde novembro, quando atingiu sua máxima histórica de US$ 69.000, o BTC desvalorizou 42% levando-se em consideração a cotação desta quarta-feira, 13, que está em torno de US$ 39.700.
Ou seja, lucros ou prejuízos causados pela volatilidade são sazonais. No entanto, o histórico de valorização do maior criptoativo do mercado mostra que no longo prazo a tendência é de valorização do patrimônio, como destacou Jarvis:
“Se você está recebendo seus pagamentos de salário por semana ou mês, ele entra como um certo valor em dólar hoje e cresce automaticamente ao longo do tempo … há alguns retornos sérios.”
Para Adam, da SharpRank, a exposição aos altos e baixos das moedas digitais “pode ser uma experiência muito positiva”:
“Vários jovens vão passar por ciclos como esse. Digamos que da noite para o dia, eu acordo e [a criptomoeda] se desvalorizou em 500%. A primeira coisa que vou fazer é perguntar por que e depois vou tentar descobrir maneiras de garantir que isso não aconteça novamente. Acho que essa é uma experiência que pode se converter em habilidades na hora de alocar e investir em determinados ativos ao longo da vida.”
Uma alternativa para se proteger das flutuações do mercado seria optar pelo recebimento dos salários em stablecoins, ativos cujo valor é atrelados a moedas fiduciárias. Principalmente, o dólar.
Segurança cibernética
Embora as ameaças de segurança cibernética não se restrinjam exclusivamente às criptomoedas, as violações continuarão ocorrendo. É um risco que os investidores devem estar dispostos a correr em função do sucesso e da contínua adoção dos ativos digitais, conforme destacou Jarvis, especialista em segurança financeira:
“Muitos golpistas e invasores estão visando carteiras de criptomoedas – eles estão usando engenharia social exatamente da mesma forma que recebemos e-mails de phishing. E se você não é um especialista em segurança, saber exatamente como proteger esses ativos pode ser muito, muito difícil. Você está armazenando ativos em uma plataforma de terceiros, então necessariamente há riscos.”
Em países expostos à inflação alta, instabilidade econômica e controle cambial, salários pagos em criptomoedas oferecem o benefício adicional de reserva de valor, oferecendo proteção contra a desvalorização do patrimônio dos trabalhadores. Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, por essa razão a Argentina é hoje o país que possui a maior parcela de empregados que recebe ao menos parte dos seus salários em criptomoedas.
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