Fundador da Bitconf fala sobre a saída da ABCB: ‘não percebemos nenhum benefício ou impacto direto’

A empresa 42 Digital, responsável pela Bitconf, um dos eventos mais tradicionais do mercado de criptomoedas do Brasil, anunciou sua desfiliação da Associação Brasileira de Criptomoedas e Blockchain em carta aberta assinada em 30 de julho.

Em entrevista exclusiva ao Cointelegraph, Wladimir Crippa, CEO da Bitconf - maior evento de criptomoedas e blockchain do Brasil - explicou porque decidiu retirar a empresa do quadro de associados da Associação Brasileira de Criptomoedas e Blockchain (ABCB):  

“Uma associação que represente esse mercado [de criptomoedas e blockchain] deveria se opor claramente à IN 1899”, disse, sobre as regras da Receita Federal do Brasil que entraram em vigor nesta quinta-feira (1).

O executivo também afirmou que a empresa “não percebeu nenhum benefício ou impacto direto das iniciativas propostas pela ABCB” e falou sobre o evento, a relação com ABCB e com as autoridades e muito mais.

Confira a entrevista na íntegra:

Cointelegraph - Há quanto tempo vocês estão considerando a desfiliação da ABCB?

Wladimir Crippa - Desde que aconteceram casos de problemas na relação entre usuários/clientes e exchanges, e não vimos nenhuma manifestação por parte da ABCB em defesa dos clientes, como deveria. Afinal, uma das preocupações é buscar combater a associação das criptomoedas com crimes, golpes e ilegalidades.

CT - Houve benefícios que vocês puderam perceber na atuação da ABCB no seu negócio? Caso não, o que faltou da parte da associação na sua visão?

WC - A ABCB começou bem, conseguindo reunir boa parte, senão a maioria, das empresas da economia cripto brasileira. Mas a pauta da entidade ficou apenas na questão da regulamentação. Não avançou além disso. Pra gente, não foi percebido nenhum benefício ou impacto direto.

CT - A IN 1.899 marca uma mudança importante no cenário brasileiro em relação aos criptoativos. Quais a sua percepção dessa IN e do apoio que ela recebeu da parte da ABCB?

WC - A IN inaugurou uma prática que não se vê no sistema bancário tradicional. Transacionar Bitcoin, que era (e é ainda) algo relativamente fácil, a partir desta instrução normativa torna-se mais complicado do que transacionar Real.

Instaurou-se uma vigilância sobre as exchanges e sobre os usuários de criptomoedas que não se vê no sistema bancário tradicional. As associações deveriam se opor claramente a isso, pois é algo que complica a vida do usuário de criptomoedas, burocratiza as empresas e as negociações de criptoativos e beneficia o sistema bancário tradicional.

CT - Qual a relevância da discussão sobre privacidade no espaço de criptomoedas à luz da IN 1.899?

WC - Privacidade é questão central na ideologia e na concepção das criptomoedas. Entendo que estamos em uma sociedade regrada, regida por inúmeras leis, e as preocupações com lavagem de dinheiro, com o combate ao crime, ao tráfico, são em grande medida justas. Mas é sabido que estes crimes não utilizam as criptomoedas em sua imensa maioria. As moedas mais usadas por estes criminosos são o Real, o Dólar, o Euro.

Em nome do combate a crimes, não se pode aceitar o sacrifício da privacidade e da liberdade individual.

Nota lamenta a saída da Bitconf

A ABCB informou em nota que "lamenta a saída da Bitconf de seu quadro de associados".

A associação rebateu as afirmações dos representantes da Bitconf dizendo que tal decisão "causa estranheza, sobretudo em relação à justificativa apresentada pela empresa à imprensa. Desde a publicação da IN 1.888, a ABCB vem pedindo que seus associados contribuam com suas opiniões e com sugestões de alteração ao documento. Foram várias contribuições, mas nenhuma delas partiu dos representantes da Bitconf", diz a nota.

Conforme relatado pelo Cointelegraph, empresas brasileiras estão se mudando do país para procurarem regulamentações mais favoráveis ao universo das moedas digitais.