Na terça-feira (20), o fundador e CEO da Waves, Sasha Ivanov, foi ao Twitter anunciar a criação de uma nova stablecoin do projeto. A notícia foi recebida com rejeição pela comunidade, já que o Neutrino USD (USDN), stablecoin algorítmica já existente no ecossistema Waves, já não possui paridade com o dólar há mais de um mês e meio.

Embora Ivanov tenha dito que um plano para sanar o problema do USDN está em desenvolvimento, críticas partindo da comunidade de criptomoedas continuaram surgindo. Nesse cenário, é necessário entender o problema de paridade do USDN desde o início.

Ecossistema Waves

O USDN é uma stablecoin algorítmica supostamente colateralizada pela criptomoeda WAVES. Assim como no ecossistema Terra, onde a stablecoin Terra USD (UST) poderia ser trocada por tokens LUNA, a stablecoin USDN também podia ser trocada por WAVES em uma proporção 1:1. Ou seja, para obter 1 USDN, era necessário dar o equivalente a US$ 1 em WAVES, e vice-versa. Estas operações são conduzidas no protocolo Neutrino.

Uma análise publicada no dia 13 de setembro pelo coletivo Crypto Risk Assessments relata que os problemas começaram no início de 2022. A plataforma de empréstimos Vires Finance, do ecossistema Waves, superou US$ 1 bilhão em valor total alocado. Havia, porém, um problema: o sistema de empréstimos entre USDC/USDT e USDN.

O coletivo explica que usuários se aproveitaram da relação entre WAVES e USDN para bolar um esquema lucrativo de empréstimos. O esquema consistia em utilizar USDN como colateral para pegar empréstimos em USDT ou USDC. O montante adquirido, então, era utilizado para comprar a criptomoeda WAVES e impulsionar seu preço. Ao fim do processo, o investidor terminava com mais USDN do que o montante inicialmente fornecido como colateral.

Os usuários responsáveis por essa movimentação, no entanto, não eram pessoas anônimas. O investidor que se identifica como Oris Dorch, em uma publicação feita em seu perfil no Medium, acusa a equipe da Waves de usar o processo narrado para manipular o preço de dois criptoativos.

‘Waves gate’

Em dezembro de 2021, Sasha Ivanov foi ao Twitter afirmar que o Vires Finance tinha mais de US$ 1 bilhão em valor total alocado. Um usuário, entretanto, apontou que metade do montante estava vinculado a uma única carteira. Oris Dorch vincula esta e outras três carteiras ao time da Waves. Os quatro endereços foram utilizados para impulsionar os preços dos tokens WAVES e VIRES, token nativo do Vires Finance.

A carteira iniciada com “3PEEs” realizava um processo cíclico: a) converter WAVES em USDN; b) usar a stablecoin para tomar empréstimos em USDT ou USDC; c) enviar à Binance para comprar WAVES; d) sacar o montante de WAVES comprado na exchange; e) repetir o ciclo, convertendo WAVES em USDN. A pontuação do Vires Finance dava uma ‘pontuação de saúde’ ao endereço de 4,59%, indicando que seus empréstimos eram nocivos ao ecossistema. 

Imagem: descrição do suposto processo de manipulação de preços/Oris Dorch

Outro endereço, iniciado em “3P5Tk”, era responsável por um ciclo de empréstimos dentro da própria Vires Finance. Após receber US$ 25,7 milhões do endereço 3PEEs, o 3P5Tk foi responsável por US$ 500 milhões em valor total alocado (TVL, na sigla em inglês) dentro do Vires.

Dentro do protocolo de empréstimos do ecossistema Waves, o 3P5Tk usava USDN como colateral, e então tomava um empréstimo tirado do mesmo montante fornecido. À época, agregadores de TVL consideravam todas essas movimentações de empréstimo, razão pela qual a métrica disparou no Vires Finance.

“Por que alguém pagaria para tomar um empréstimo no mesmo ativo que está emprestando? Talvez para ganhar tokens VIRES, ou talvez para dar credibilidade à Vires Finance”, disse Oris Dorch. 

Durante o início de 2022, enquanto os preços dos criptoativos apresentavam quedas, o token VIRES teve uma valorização expressiva: 353% entre 1º de novembro de 2021 e 3 de abril. A título de comparação, o desempenho do Bitcoin (BTC) no mesmo período foi de 24% negativos. O WAVES, também relacionado ao suposto esquema de manipulação, teve uma valorização de 104% no período mencionado.

Estando a equipe da Waves por trás, ou não, o esquema durou entre o fim de 2021 e abril de 2022. Foi quando um colapso no preço do WAVES causou um grande problema dentro da plataforma Vires Finance.

Perda de paridade

No início de março, um usuário do Twitter que se identifica como 0xHamZ fez uma série de publicações chamando o ecossistema Waves de “maior esquema de Ponzi dentro do mercado cripto”. Sua explicação é semelhante à de Oris Dorch, descrevendo o esquema de empréstimos dentro do Vires Finance e vinculando carteiras à equipe da Waves.

O relatório publicado pelo Crypto Risk Assessments destaca que a publicação de 0xHamZ desencadeou a primeira perda de paridade do USDN. Após a série de publicações, usuários do Vires Finance ficaram preocupados e começaram a sacar seus USDC e USDT fornecidos como colaterais.

Os saques em massa, somados ao início da queda da criptomoeda WAVES, vinculada ao USDN, iniciaram uma espiral semelhante ao que ocorreu com o UST. Entre os dias 3 e 4 de abril, a stablecoin perdeu 25% da sua paridade com o dólar, chegando a custar US$ 0,75, indicam dados do DEX Screener. 

Desde então, o USDN não consegue manter sua paridade com o dólar durante longos períodos, com um agravamento da situação em dezembro. No momento da escrita desta matéria, a stablecoin do ecossistema Waves está cotada a US$ 0,52.

Imagem: variação de paridade do USDN desde abril/TradingView

Planos não são de hoje

Embora Sasha Ivanov tenha prometido que um plano para retomar a paridade do USDN esteja em desenvolvimento, outras tentativas já foram feitas. Uma série de novas regras foram estipuladas para o Vires Finance, como: a) juros de empréstimos foram limitados a 40%; b) um limite diário de 1.000 USDC/USDT em saques foi estipulado na plataforma; c) seis contas responsáveis por empréstimos sem pagamento foram agregadas em um único endereço, controlado por Sasha Inanov, que liquidaria os ativos “de forma apropriada”.

Além disso, o coletivo Crypto Assessment Risk ressalta que uma campanha, chamada ‘Traga o USDN para casa’, foi iniciada. A campanha tem o objetivo de encorajar todos os detentores de USDN a retornarem a liquidez para o ecossistema Waves. 

Um episódio mais drástico do ‘Traga o USDN para casa’ teve início quando, sem aviso prévio, transferências de USDN da blockchain Waves para o Ethereum foram desabilitadas. A razão dada, destaca o coletivo Crypto Assessment Risk, foi evitar a compra de USDN na Waves e venda na exchange descentralizada Curve. Isso manteria a liquidez na Waves, fazendo com que a arbitragem fosse mais sustentável.

Na prática, trata-se de uma decisão forçada para evitar que investidores tentassem se desfazer de seus USDN através da Curve. Ou seja, a intenção era evitar um agravamento na perda de paridade.

Também foi criado um novo sistema utilizando um token chamado SURF. O criptoativo é obtido através do staking de USDN ou WAVES, sendo uma tentativa da equipe da Waves de aumentar a demanda pelos dois criptoativos. O staking de SURF, por sua vez, gera o token gNSBT. 

Atualmente, somente os detentores de gNSBT e NSBT, adquiridos através do staking de WAVES, podem fazer trocas em proporção 1:1 entre WAVES e USDN. A iniciativa envolvendo o token SURF, além de tentar atrair demanda para WAVES e USDN, também tem como objetivo aumentar a proporção de colateralização entre esses dois criptoativos. 

Assim como a proibição de saques para a Curve, contudo, a solução encontrada não teve efetividade. No momento da escrita desta matéria, a proporção é de 6,19%, indicando que 93,81% dos USDN em circulação não possuem vínculo em WAVES.

O problema são as stablecoins algorítmicas?

O analista de finanças descentralizadas que se intitula como Ignas, coautor do relatório publicado pelo Crypto Assessment Risk, disse ao Cointelegraph Brasil que todas as stablecoins totalmente algorítmicas falharam até agora.

“O UST falhou, o USDN da Waves está à beira de um colapso e o USDD da Tron não é realmente algorítmica, já que apenas algumas entidades podem emitir. Falta a transparência que é inerente a essas stablecoins. A FRAX é a única que se mantém de pé”, diz o analista.

Ignas explica que a FRAX é, em sua maior parte, colateralizada por outra stablecoin, o USDC. O restante do pareamento com o dólar é mantido por um token do próprio projeto, o FXS. Ele menciona também a stablecoin Celo Dollar (CUSD), mas ressalta que ela é diferente do UST. 

“Apenas 50% do colateral é fornecido em CELO, o resto é composto por Bitcoin, Ethereum e outras stablecoins. Somente stablecoins parcialmente algorítmicas estão firmes”, destaca.

É importante lembrar, no entanto, que o mercado de criptomoedas é um mercado tecnológico. Por isso, a experimentação estará sempre presente nesse setor, algo que também se aplica às stablecoins algorítmicas. Através de uma série de publicações em seu Twitter, Ignas lista como projetos experimentais: UXD, BEAN e DEI.

A UXD utiliza derivativos com delta neutro para manter sua paridade com o dólar. “Por exemplo, se 1 SOL é depositada, o protocolo abre uma posição vendida em um contrato perpétuo para ganhar taxas de funding, que são distribuídas aos detentores de UXD.”

BEAN é uma stablecoin colateralizada por crédito, e está conectada a outros três tokens: Beans, illiquid Stalk e Seeds. A relação entre esses três tokens mantém a paridade do BEAN com o dólar. “Tem funcionado até agora”, diz Ignas em sua publicação.

Por sua vez, a DEI é uma stablecoin usada especificamente dentro do ecossistema de derivativos da DeusDAO. “É como uma LUNA com sintéticos e oráculos, alimentados por uma dose de testosterona de DeFi”, classifica o usuário Rektdiomedes em seu Twitter.

Ignas conclui suas publicações apontando que o valor de mercado das stablecoins algorítmicas caiu 90% em 2022, com a maioria delas sendo produtos de nicho com baixo valor de mercado. “No estágio atual, stablecoins algorítmicas não representam ameaça a nenhuma grande stablecoin lastreada por moedas fiduciárias, e nem mesmo a stablecoins sobrecolateralizadas.”

É possível confiar?

Apesar de todas as polêmicas envolvendo o ecossistema Waves, é possível que existam investidores inclinados a darem uma chance à nova stablecoin do projeto. Afinal, a blockchain Waves existe desde 2016, e a presença de entusiastas seria normal.

O especialista em DeFi do Cripto Select, que se intitula CarnaK, aconselha o contrário. “Como confiar em um ecossistema que criou uma stablecoin, só pra usá-la como colateral para pegar empréstimos em USDC e USDT? O rendimento para fornecer USDC e USDT como colateral no Vires Finance é alto, mas vai servir apenas para que os investidores com dinheiro preso na plataforma consigam sacar”, diz.

Pelo histórico já apresentado pelo USDN, CarnaK avalia que não é possível confiar em outra stablecoin criada pela equipe da Waves. 

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