Uma das características mais emblemáticas do mundo cripto é a capacidade de inovação dos projetos em função do formato de código aberto (Open Source), que permite que vários grupos de desenvolvedores diferentes contribuam para a construção de um projeto ou, a partir de uma base de código pré-existente, um novo projeto possa ser desenvolvido - os chamados forks. Os forks nos projetos cripto são fonte de melhorias e inovações, e são classificados em dois tipos: hard fork e soft fork.
- Soft fork: uma mudança é considerada soft fork quando é feita de modo incremental e não gera uma nova base de código, permitindo melhorias e inovações progressivas no projeto.
- Hard fork: uma mudança é considerada hard fork quando é feita de modo a gerar uma base de código muito diferente, incompatível e disruptiva, rompendo com o fio condutor do projeto original. Pode ser feito de maneira coordenada e planejada, ou simplesmente para alavancar novos projetos a partir da base de código original.
A velocidade de inovação impressa pela dinâmica dos hard forks é ainda muito maior do que a capacidade de adoção massiva dessas mesmas inovações, pois ainda é necessário muito trabalho e foco para se identificar os incentivos para adoção mesmo por usuários experientes.
Money LEGOs
Com a introdução com os protocolos de finanças centralizadas, a chamada DeFi, veio também a capacidade de compor estratégias financeiras diferentes, tais como investimentos (staking) em que o investidor empenha seus ativos digitais em troca de uma remuneração paga pelo protocolo; empréstimos em que tomadores podem tomar um determinado ativo digital emprestado colocando outros ativos digitais em garantia, até mesmo de maneira instantânea (flash loans); utilizar os tokens de liquidez de um protocolo para prover liquidez em outros protocolos, negociar, delegar e votar utilizando tokens de governança; automatizar essas funcionalidades combinando-as progressivamente através dos contratos inteligentes, em busca de estratégias cada vez mais sofisticadas e com incentivos claros, os chamados “money LEGOs”.
Low-code e No-code
Para construir forks e desenvolver smart contracts é necessário um bom conhecimento técnico tecnológico, o que é uma barreira de adoção em si, mas o mercado tem se movido na direção de soluções low-code (pouco código) e no-code (sem código) para vários casos de uso, como no caso de low-code da ThirdWeb para NFTs, e até mesmo para o desenvolvimento de estratégias de finanças descentralizadas.
Nesse movimento alguns projetos recentes tem chamado a atenção, não só por endereçar a possibilidade de programar estratégias de finanças descentralizadas de maneira amigável aos usuários, aumentando sua capacidade de adoção, mas também por buscar novas formas de monetização dessas mesmas estratégias, deixando ainda mais claro os incentivos. Alguns dos projetos emergentes nesse segmento são Stacked Invest, Nested Finance e Weave Financial.
Com Stacked Invest é possível definir e automatizar estratégias de investimento próprias, “assinar” estratégias de outros investidores, e até colocar suas próprias estratégias à venda no marketplace, ampliando a capacidade de monetização das estratégias de investimento. Todas essas funcionalidades ainda são executadas em um ambiente relativamente centralizado, mas com a velocidade de inovação que o código aberto dos projetos descentralizados permitem imprimir já surgem alternativas que “empacotam” essas funcionalidades.
Wrapped DeFi
O conceito de “wrapped DeFi”, ou finanças descentralizadas “encapsuladas”, mescla com as finanças descentralizadas um outro dispositivo que teve um amadurecimento acelerado desde 2020: os tokens não fungíveis, NFTs.
De maneira bem simples, Wrapped DeFi é a emissão (minting) de um NFT que registra de maneira inequívoca e comprovável uma estratégia de finanças descentralizadas, permitindo ao investidor comercializar e monetizar essa estratégia além da monetização direta com os ativos digitais.
Em protocolos como Nested Finance e Weave Financial o processo em si é bastante simples e estruturado:
- Estratégia: O investidor define a estratégia, combinando pares de tokens, limites de operação, frequência de recomposição e rebalanceamento;
- Minting: Uma vez satisfeito com os parâmetros, o investidor “minta” a estratégia em um NFT;
- Marketplace: Quando o NFT estiver disponível na carteira, o investidor pode oferecer a estratégia no marketplace
Como as estratégias agora estão sintetizadas em um NFT, as características funcionais desse tipo de token permitem algumas possibilidades de monetização adicionais:
- Assinatura: Quando o NFT é “alugado” ou “assinado” por um outro investidor, o investidor original recebe uma remuneração pela “assinatura” daquele NFT
- Royalties: Quando a estratégia do NFT assinado gera resultados, uma porcentagem daquele retorno pode ser atribuída ao dono do NFT com aquela estratégia;
- Composição: Dois ou mais NFTs podem ser combinados, gerando uma terceira possibilidade de estratégia, e mais uma alternativa de monetização para o criador dessa combinação;
- Secundário: O NFT pode ser oferecido no mercado secundário, permitindo ao investidor receber royalties pela revenda do NFT.
Além dessas possibilidades, os protocolos oferecem a seus usuários recompensas na forma de tokens das plataformas conforme sua utilização, tokens esses que podem ser utilizados como pares de tokens para prover liquidez na própria plataforma, como voto para decidir os rumos das plataformas, e também como moeda para comprar ou assinar os NFTs das estratégias disponíveis em seus marketplaces.
Conclusão
Esse não é um artigo de aconselhamento financeiro, é uma espiada pela janela das possibilidades abertas pelos protocolos de cripto com código aberto, que servem como um motor de inovação talvez nunca visto na história das finanças.
A nós, os curiosos, cabe entendermos não só as possibilidades, mas também os riscos e implicações, criando possibilidades de aprendizagem e, quem sabe, tornando a adoção dessas inovações cada vez mais ampla e democrática
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