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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Bancos integram Open Finance, mas ainda não aproveitam seu potencial, aponta estudo do Google Cloud

Marisa Kinoshita aponta que, quatro anos após o lançamento do Open Finance, as instituições deixam de usar dados para personalizar ofertas, simplificar UX e agilizar serviços.

Bancos integram Open Finance, mas ainda não aproveitam seu potencial, aponta estudo do Google Cloud
Brasil

Nesta terça, 27, durante o FinFacts, evento organizado pelo Google Cloud em São Paulo, Marisa Kinoshita, head de marketing do Google Cloud Brasil, apresentou um estudo da instituição sobre a experiência digital dos bancos e instituições financeiras do Brasil e a relação destas soluções com os clientes.

Entre as descobertas, o estudo revelou que embora os bancos tenham integrado o Open Finance para seus clientes as instituições não aproveitam todo seu potencial, inclusive no campo de investimentos, deixando de aproveitar os dados para oferecer produtos e serviços personalizados para os clientes, como investimentos em ativos digitais, poupança, empréstimos, entre outros.

“O Open Finance completa quatro anos em 2025 e já conta com adesão de quase metade da população bancarizada do país. Mesmo assim, muitas instituições ainda deixam de explorar ao máximo esse ecossistema”, destacou Kinoshita.

Segundo a head do Google Cloud, o estudo apontou que 11 de 19 instituições exibem o saldo de contas de outros bancos diretamente no próprio app. No entanto, 6 delas não permitem que o cliente realize transações usando esse saldo de terceiros, limitando a conveniência e a eficiência desse recurso.

Além disso, apenas 4 de 19 instituições aproveitam o acesso via Open Finance para oferecer produtos financeiros ou benefícios personalizados com base no saldo de outros bancos, ou seja, a maioria das instituições não usam os dados do Open Finance para oferecer produtos financeiros adequados com o perfil do cliente, como investimento em ativos digitais para clientes que estão interessados ou já investem nesse mercado.

“Essa lacuna representa uma oportunidade significativa: ao integrar dados de diferentes instituições e aplicar modelos de análise, os bancos podem criar ofertas mais relevantes, no momento certo, elevando tanto a satisfação do cliente quanto a rentabilidade da própria instituição”, afirmou.

Bancos são digitais, mas experiência não é tão boa

O estudo também apontou que embora os bancos tenham evoluído nas experiências e integrações digitais, os processos ainda não são fluídos e estão muito longe da experiência que os clientes tem em outros ambientes digitais que integram soluções de inteligência artificial.

No caso do onboarding e abertura de conta, metade das instituições não abriu a conta em tempo real, e duas delas levaram mais de 72 horas para abrir a conta.

“Desde a primeira edição do finfacts sempre iniciamos com essa constatação: há quatro anos, metade das instituições demorava, em média, mais de 48 horas para concluir a abertura. Hoje, nove delas conseguem abrir em tempo real, oito finalizam em até um dia útil e apenas duas levam mais de três dias. É impressionante acompanhar essa evolução ao longo desse período”, avaliou a head do Google.

Além disso, o estudo apontou que das 19 instituições analisadas, apenas quatro não exigiram o upload de documentos. Outro ponto interessante é que somente cinco instituições já oferecem abertura de conta 100% conversacional, por meio de assistentes virtuais.

Ainda na etapa de abertura, apenas três das 19 instituições apresentaram um resumo dos termos e condições adequado para tela de celular.

“Pensem: quantos de nós realmente leem todo o contrato de cabo a rabo? Seria muito útil se as instituições disponibilizassem um resumo instantâneo, destacando os pontos de maior impacto para o usuário, e “traduzissem” a linguagem jurídica para o cotidiano. Esse pequeno ajuste pode elevar significativamente a experiência do cliente e melhorar a segurança para ambos os lados”, afirmou.

Bancos não oferecem serviços personalizados com dados

Conforme o estudo do Google, após a abertura da conta, a oferta de produtos e serviços — assim como a personalização dessas ofertas — mostrou-se um ponto crítico, já que 11 das 19 instituições não apresentaram nenhum produto ou serviço nos primeiros 30 dias.

“Em um cenário de multibancarização, em que o brasileiro mantém em média seis contas, perder a janela inicial de engajamento significa abrir mão de participação na carteira do cliente. Comunicações e ofertas individualizadas, baseadas no perfil e no histórico de cada usuário, são fundamentais para ampliar esse relacionamento”, afirmou Kinoshita.

Além disso, 15 das instituições analisadas exigiram um novo formulário para solicitar o cartão de crédito, mesmo depois de toda a documentação entregue na abertura da conta, “para o cliente, isso se traduz em uma experiência fragmentada e frustrante — e para a instituição, em custos operacionais duplicados”, afirmou a executiva.

Outro dado interessante é que nenhum dos aplicativos analisados reconheceu uma chave PIX manuscrita ou impressa ao apontar a câmera do celular. Oito instituições ainda não oferecem uma loja online dentro do app. Porém, 10 já integraram marketplaces, transformando o banco em um hub de consumo — não apenas um canal de pagamento. Além de facilitar as compras, essa integração permite oferecer benefícios extras, como acúmulo de pontos, cashback e até opções de financiamento para produtos de maior valor.

“Essas descobertas evidenciam que, após vencer o desafio da abertura de conta, o verdadeiro teste está em manter o cliente ativo e engajado por meio de ofertas relevantes, processos simplificados e experiências cada vez mais integradas, afirmou.

Aplicativos dificultam a vida do cliente

O estudo também apontou que apenas 6 de 19 instituições analisadas oferecem geolocalização ou conexão Wi-Fi como recurso de segurança extra nas transações. Com o celular cada vez mais utilizado como carteira digital, cresce também a preocupação com fraudes: 57 % dos usuários de serviços financeiros apontam o furto ou perda do aparelho como sua principal ameaça. Esses dados reforçam a necessidade de camadas extras de proteção que validem a localização e o tipo de rede antes de autorizar operações.

Apesar dos inúmeros recursos disponíveis, muitos aplicativos ainda dificultam a vida do cliente na hora de encontrar o que ele precisa. Como observou um executivo bancário:

“Se você olhar o menu do app, verá a estrutura interna do banco. Mas nem sempre ela ajuda o cliente a encontrar o que precisa.”

Segundo o estudo, essa fragmentação piora a experiência do usuário e pode gerar abandono de funcionalidades importantes. O estudo avaliou também os mecanismos de busca embutidos nos apps:

  • Tratamento de erros de digitação12 de 17 instituições não retornam resultados quando o usuário comete um erro de digitação. Apenas duas já corrigem automaticamente o termo pesquisado, evitando a frustração de “nenhum resultado encontrado”.

  • Busca semânticaSó 6 de 17 aplicativos entendem buscas em linguagem natural, como “qual é a taxa para compras no exterior?”. Esse tipo de consulta reflete o uso cada vez mais conversacional que os consumidores esperam, especialmente com as ferramentas de IA cada vez mais presentes.

“À medida que a inteligência artificial avança, os usuários se habituam a interagir com sistemas que os compreendem de forma natural. Oferecer correção de digitação e busca semântica deixa de ser diferencial para se tornar requisito básico de usabilidade — e pode ser decisivo para a fidelização do cliente”, destacou a executiva.

Chatbots bancários avançam, mas ainda enfrentam desafios de usabilidade

O estudo também destacou que a inserção de chatbots em aplicativos financeiros cresce a cada ano, mas as instituições ainda têm um longo caminho para oferecer um atendimento verdadeiramente conversacional e integrado, aponta a última edição do nosso estudo.

Das 18 instituições que disponibilizam chatbots, apenas uma permanece sem nenhum recurso desse tipo. Atualmente, 75 % já utilizam campos de texto livre em vez de menus pré-definidos, permitindo ao usuário escrever perguntas de forma mais natural. Ainda assim, cinco bancos não suportam completamente esse formato de linguagem natural, limitando a fluidez da interação.

Quando o atendimento evolui para um formato consultivo, as deficiências ficam claras. Só quatro chatbots realizam análise de sentimento — por exemplo, detectam frases como “estou muito decepcionada” e sugerem ações apropriadas. E apenas dois conseguem responder adequadamente a perguntas sobre produtos financeiros, atuando de fato como consultores.

Para testar a continuidade do atendimento, fizemos sequências de perguntas, como “Qual a melhor forma de guardar meu dinheiro?” seguida de “Quero juntar dinheiro para comprar um carro. Tem alguma dica?”. Só dois chatbots foram capazes de manter o contexto e oferecer recomendações personalizadas ao perfil do cliente.

O estudo apontou ainda que nem sempre o bot dá conta de todas as demandas, e a transição para um atendente humano é fundamental. Entre as instituições avaliadas:

  • Cinco chatbots oferecem transferência automática, retomando a conversa com todo o histórico.

  • Oito ainda não disponibilizam esse recurso, obrigando o cliente a repetir informações.

  • Das que transferem, apenas cinco realizam essa passagem de forma fluida, sem exigir reenvio de dados.

Confira o estudo completo no link.

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