A era dos ciclos de quatro anos do halving do Bitcoin acabou em 2016 e não deve mais ser tomada como um indicador preciso do desempenho da maior criptomoeda do mercado. Esta é a premissa central do relatório "Bitcoin Halving: The Four Year Cycle Is Dead" (Halving do Bitcoin: O Ciclo de Quatro Anos Está Morto, em tradução livre), publicado pelo fundo de capital de risco Outlier Ventures.

Apesar da crença estabelecida de que o halving – evento em que, a cada quatro anos, a recompensa por bloco minerado de Bitcoin (BTC) é reduzida pela metade – é um fator decisivo para o desempenho positivo do BTC, o relatório aponta que o mercado de criptomoedas se tornou muito mais complexo e diversificado. O preço do Bitcoin já não responde a padrões previamente estabelecidos e os investidores devem ficar atentos a variáveis externas ao mercado.

Há dois fatores que fundamentam o impacto do halving sobre o preço do Bitcoin, segundo Jasper De Maere, chefe de pesquisa da Outlier Ventures que assina o relatório.

O primeiro aspecto é estrutural. A redução pela metade da emissão de Bitcoins a cada quatro anos gera escassez, impactando a demanda em função do suprimento total limitado a 21 milhões de BTCs. O segundo é meramente psicológico. A lei da oferta e da demanda e os padrões históricos do preço do Bitcoin alimentam expectativas de aumento do preço do ativo.

Com base em dados de mercado, o relatório sustenta que a influência do halving sobre o preço do Bitcoin vem diminuindo a cada ciclo, tornando-se praticamente irrelevante após o halving de 2016.

Atualmente, o impacto do halving sobre o mercado se limita aos efeitos que a redução das recompensas tem sobre a receita dos mineradores, entidades que podem, sim, influenciar marginalmente o preço do Bitcoin. No entanto, o impacto é cada vez mais limitado.

A Outlier Ventures propõe um cenário hipotético de pressão extrema sobre as operações dos mineradores, forçando-os a despejar todos os Bitcoins minerados no mercado. A força dessa eventual pressão vendedora pode ser calculada pela divisão das recompensas diárias totais obtidas por todos os mineradores, pelo volume total de BTCs negociado no mercado, argumenta o relatório:

"Até meados de 2017, os mineradores tinham um impacto de mais de 1% no mercado. Atualmente, se os mineradores vendessem todas as suas recompensas de bloco imediatamente após recebê-las, isso representaria apenas 0,17% do volume diário total movimentado pelo mercado."

Em compensação,  enquanto as recompensas diárias por bloco minerado são reduzidas a cada ciclo, o volume de Bitcoins negociados cresce, contribuindo para o amadurecimento do mercado.

Lei dos retornos descendentes

Até 2016, o halving exerceu um efeito positivo sobre o preço do Bitcoin, afirma a Outlier Ventures, conforme demonstra a valorização do ativo nos quatro anos subsequentes ao evento.

No ciclo do halving de 2012, o Bitcoin valorizou aproximadamente 8.165% em relação ao preço do BTC na ocasião da redução. Em 2016, os retornos foram de 2.840%, e em 2020, de 667%.

Atualmente, o Bitcoin está 15% abaixo da cotação de US$ 64.800 registrada em 20 de abril de 2024, quando ocorreu o último halving. Embora a comparação entre resultados parciais e valorizações de ciclos completos não seja adequada, "observamos que o desempenho [do preço] após o halving é o pior desde a concepção do BTC", destaca o relatório:

"O preço do BTC está tendo seu pior desempenho nos 125 dias seguintes ao evento. Até agora, o preço caiu 8%, em comparação com um aumento médio de 22% observado em ciclos anteriores."

Gráfico do desempenho do BTC após os halvings. Fonte: Outlier Ventures

Rali pré-halving de 2024 foi motivado por aprovação de ETFs de BTC

O fato de o Bitcoin ter atingido um novo recorde histórico de preço antes do halving, algo que nunca havia acontecido anteriormente, reforça a tese de que agora o ativo está inserido em um cenário mais amplo e complexo.

Fatores externos ao mercado de criptomoedas, como macroeconomia, geopolítica, mercados tradicionais e regulação, estão se tornando cada vez mais determinantes para a ação de preço do Bitcoin.

A aprovação dos ETFs de Bitcoin nos EUA é o maior exemplo recente dessa nova dinâmica, afirma a Outlier Ventures:

"No início de 2024, tivemos a aprovação do ETF do BTC que, desde 11 de janeiro, registrou um saldo líquido de 299 mil BTC comprados, o que impulsionou significativamente o preço."

"Está claro que a aprovação do ETF foi um catalisador mais significativo para a ação de preço do que o halving, conforme demonstrado pela diferença de aproximadamente 29% entre os desempenhos de 100 dias do Bitcoin posteriormente a ambos os eventos", concluiu o relatório.

Gráfico comparativo do desempenho do BTC nos 100 dias seguintes à aprovação do ETF e do halving. Fonte: Outlier Ventures

Rali pós-halving de 2020 foi impulsionado pelo Covid

O desempenho superior à média histórica do Bitcoin durante o período posterior ao halving de 2020 poderia servir de contraponto à tese da Outlier Ventures.

Na ocasião, o preço do Bitcoin multiplicou 6,6 vezes nos 365 dias que se seguiram ao evento. No entanto, em 2020, o halving ocorreu durante os estágios iniciais da pandemia do coronavírus.

Para mitigar os efeitos econômicos da crise sanitária, houve uma flexibilização sem precedentes de políticas monetárias no mundo todo, aponta o relatório, "alimentando a especulação e a inflação em várias classes de ativos, incluindo imóveis, ações, private equity e ativos digitais."

Apesar de insignificante do ponto de vista da redução da emissão de novos BTCs, o halving pode ter exercido um efeito psicológico, contribuindo para o desempenho superior do Bitcoin na ocasião, reconheceu a Outlier Ventures:

"Embora não tenha sido um fator fundamental, o halving pode ter influenciado a ação de preço do BTC do ponto de vista psicológico. Com o BTC nas manchetes, as pessoas vislumbraram uma alternativa para investir o capital excedente em um momento em que havia poucas opções de gastos."

De Maere conclui que a crença de retornos garantidos a cada quatro anos por causa do halving distorce a percepção dos investidores.

O halving, ou mesmo a narrativa construída em torno dele, não será capaz de garantir o crescimento do Bitcoin no futuro, afirmou o analista:

"É chegada a hora de os fundadores e investidores do espaço que tentam antecipar os movimentos do mercado prestarem atenção em fatores macroeconômicos mais significativos, em vez de se basearem no ciclo de quatro anos."

Conforme noticiado recentemente pelo Cointelegraph Brasil, as mineradoras de Bitcoin estão sob pressão após o halving, devido ao aumento dos custos operacionais e do declínio das receitas.