Cointelegraph
Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

O fim dos Bancos? Stablecoins iniciam a revolução que o sistema financeiro temia

Estudo da insights4.vc revela como stablecoins estão desmontando o monopólio bancário sobre infraestrutura financeira e inaugurando a era da Fintech 3.0.

O fim dos Bancos? Stablecoins iniciam a revolução que o sistema financeiro temia
Análise

Resumo da notícia

  • Stablecoins inauguram trilhos financeiros que funcionam fora do controle dos bancos.

  • Fintechs deixam de depender de infraestrutura bancária e ganham autonomia inédita.

  • Estudo da insights4.vc mostra como stablecoins aceleram pagamentos globais e reduzem custos.

Assim, como no Brasil, o sistema financeiro global vive um processo de transformação e digitalização que, até poucos anos atrás, parecia improvável.

Durante décadas, bancos, redes internacionais de transferência e processadores de cartão dominaram o fluxo do dinheiro e a lógica de como esse fluxo poderia ocorrer. Qualquer inovação dependia, obrigatoriamente, das permissões, limites e caminhos estabelecidos por essas instituições.

Essa realidade foi sentida ‘na pele’ por muitas empresas de criptomoedas que tiveram contas bancárias encerradas em diversos lugares do mundo sem qualquer justificativa plausível. Mesmo gigante de pagamentos globais como Visa e Mastercard, fecharam as portas para empresas cripto, tanto que em 2017-18, encerram todos os cartões pré-pagos que tinham qualquer ligação com cripto.

Até mesmo empresas que hoje dominam o mercado, como a Tether, sofreram a consequência de concentração de poder das instituições financeiras. Em 2019 o Metropolitan Bank fechou as contas da Tether que também já tinha enfrentando problemas similares com outros bancos.

No entanto, essa realidade começou a se romper com o avanço das stablecoins, que deixaram de ser um experimento de nicho no mercado cripto para se tornar, de forma surpreendente, a base de uma nova arquitetura financeira.

A pesquisa “Fintech 3.0: Stablecoin Rails”, publicada pela insights4.vc, aponta que o setor vive o primeiro momento em que fintechs deixam de ser inquilinas das redes bancárias e passam a operar, pela primeira vez, trilhos próprios, independentes, globais e programáveis.

Essa mudança altera o equilíbrio de poder. Pela primeira vez na história moderna das finanças, bancos deixam de ser guardiões das vias pelas quais o dinheiro circula. E, quando se perde o controle sobre a infraestrutura, perde-se também o monopólio que estruturou o setor por séculos”, destaca o estudo

Fintech 1.0 para 3.0

De acordo com o estudo, a evolução das fintechs ajuda a entender a profundidade dessa ruptura. A primeira fase, chamada Fintech 1.0, limitou-se a digitalizar serviços bancários. Internet banking, pagamentos online e aplicativos de cartão facilitaram a vida dos consumidores, mas não mexeram na essência das operações. Todo o dinheiro continuou trafegando pelas mesmas estruturas envelhecidas, como ACH, SWIFT e redes de cartões. A inovação aconteceu apenas na superfície, sem tocar na mecânica que realmente importa.

A Fintech 2.0, que ganhou força na década de 2010, ofereceu um salto de experiência, mas não de independência. Neobanks, carteiras digitais e serviços especializados pareciam revolucionários, porém dependiam de bancos patrocinadores, licenças custosas e da própria infraestrutura que buscavam desafiar. O estudo da insights4.vc destaca que essa fase manteve a inovação “no topo da pilha”, uma camada estética aplicada sobre um sistema antigo e intocável.

A Fintech 3.0 finalmente rompe esse ciclo. E, segundo o relatório, ela não nasce da tentativa de reformar bancos, mas da ousadia do setor cripto em construir uma infraestrutura paralela, capaz de operar sem a intermediação das instituições tradicionais. O produto mais bem-sucedido dessa construção não foi a moeda descentralizada que muitos imaginavam, mas as stablecoins que rodam em redes abertas e funcionam como substitutos eficientes do dinheiro bancário.”, afirma.

O estudo destaca também que as stablecoins viabilizam transações instantâneas, baratas e disponíveis o tempo todo, independentemente de fronteiras ou fusos horários. Uma transferência em stablecoin ocorre em segundos, enquanto uma remessa internacional tradicional pode levar dias ou até semanas. A diferença não é apenas de velocidade, mas de lógica, pois elas criam trilhos novos que transformam dólares em software e permitem que o dinheiro siga regras programáveis, algo impossível nos sistemas tradicionais.

Essa programabilidade representa um ponto decisivo da revolução descrita pela insights4.vc. Enquanto bancos operam com sistemas rígidos, construídos para serem estáveis, mas não flexíveis, stablecoins permitem automações complexas, como pagamentos contínuos por segundo, escrows inteligentes que liberam valores apenas quando condições são cumpridas e contratos financeiros capazes de se liquidar sozinhos. Nesse novo modelo, liquidação e execução acontecem no mesmo ambiente, eliminando camadas inteiras de intermediários.

Stablecoin Stack

O estudo também apresenta a chamada “Stablecoin Stack”, uma estrutura que detalha como essa nova economia se organiza. Na camada de liquidação, estão blockchains como Ethereum, Solana e Tron, que funcionam como a nova infraestrutura global de pagamentos. Elas substituem, em velocidade e eficiência, sistemas como FedWire e SWIFT.

Na camada de emissão, empresas como Circle e Tether transformam reservas tradicionais em tokens digitais. Já na camada intermediária estão ferramentas de custódia, compliance, infraestrutura de API e serviços corporativos que permitem a adoção das stablecoins sem exigir que empresas compreendam cada detalhe técnico do funcionamento da blockchain. Por fim, no topo da pilha, surgem os produtos que o usuário vê, como carteiras, aplicativos de pagamento, soluções de remessas e neobanks construídos diretamente sobre stablecoins.

De acordo com o estudo, a importância dessa organização está no fato de que ela reduz dramaticamente o custo para criar produtos financeiros. Se antes um empreendedor precisava negociar com bancos, pagar licenças altas e navegar por infraestruturas lentas, agora basta integrar APIs de stablecoins para lançar, em semanas, serviços que antes exigiam anos de desenvolvimento. É esse fenômeno que cria o cenário descrito no relatório: nunca foi tão barato e tão rápido construir um banco sem ser banco.

Essa redução de barreiras abre uma avalanche de novos mercados. Um dos casos mencionados no estudo é o dos freelancers internacionais, que sofrem com taxas elevadas e atrasos previsíveis no recebimento de pagamentos. Usando stablecoins, eles recebem em segundos, preservam valor em dólar e podem converter para moeda local quando desejarem. O impacto é direto na renda desses trabalhadores, que antes perdiam até 10% para intermediários. O relatório mostra que, em algumas plataformas, um terço dos freelancers já opta por receber em stablecoins.

O estudo aponta que outro grupo beneficiado é o das empresas nativas de tecnologia, especialmente as que atuam com blockchain. Muitas enfrentam obstáculos para abrir contas bancárias devido a restrições regulatórias. Stablecoins eliminam esse gargalo e permitem que equipes distribuídas globalmente recebam e paguem salários sem fricção. Plataformas de contabilidade, payroll e compliance para equipes Web3 surgem como novos negócios altamente lucrativos.

Os efeitos se estendem ao comércio internacional. Pequenas e médias empresas costumam sofrer com custos elevados e prazos longos em transferências internacionais. Uma remessa pode levar semanas para ser compensada e consumir até 6% do valor da transação. Com stablecoins, pagamentos ocorrem quase em tempo real, reduzindo custos e liberando capital de giro de forma imediata. Isso muda completamente a competitividade de pequenas empresas no mercado global.A revolução também alcança setores inesperados, como o de bens de luxo. Relógios, joias e obras de arte costumam gerar transações internacionais urgentes e de alto valor. Stablecoins oferecem liquidez instantânea e verificável, reduzindo riscos de fraude e substituindo escrows tradicionais por contratos inteligentes. O processo fica mais rápido, barato e seguro.

Fim dos bancos?

A insights4.vc destaca que a transição para um sistema financeiro nativo em stablecoins ainda enfrenta desafios já que a regulação global permanece fragmentada e, em alguns países, ainda indefinida. A confiança no lastro das stablecoins é crucial e ainda está muito ligada também ao sistema bancário. Questões de escalabilidade, segurança e usabilidade também exigem soluções.

O sistema bancário tradicional não desaparecerá. Ele continuará tendo papel relevante em crédito, compliance e integração com o sistema estatal. Mas seu poder de decidir como o dinheiro circula, quanto custa enviá-lo e quem tem acesso a quais serviços está, pela primeira vez, sendo erodido por uma infraestrutura tecnicamente superior, global e aberta. O relatório da insights4.vc ressalta que essa transição será gradual, mas irreversível.O mundo financeiro entra agora numa fase híbrida, em que bancos coexistem com rails baseados em stablecoins. No futuro, muitos usuários talvez nem percebam que estão usando stablecoins. Elas funcionarão nos bastidores, assim como a internet opera hoje sem que consumidores precisem entender seus protocolos.
A Cointelegraph está comprometida com um jornalismo independente e transparente. Este artigo de notícias é produzido de acordo com a Política Editorial da Cointelegraph e tem como objetivo fornecer informações precisas e oportunas. Os leitores são incentivados a verificar as informações de forma independente. Leia a nossa Política Editorial https://br.cointelegraph.com/editorial-policy