A Lightning Network foi implementada em 2018 com o objetivo de solucionar os desafios de escalabilidade e de adoção mais ampla da rede do Bitcoin (BTC). Projetada como uma rede de camada 2, a Lightning foi recebida pela comunidade como uma solução fundamental para viabilizar o Bitcoin como um meio de pagamento global descentralizado com transações rápidas a custos baixos. Ou seja, nada mais nada menos do que cumprir o objetivo proposto por Satoshi Nakamoto de fazer do Bitcoin uma rede de pagamentos ponto-a-ponto (P2P), como destacou Rafaela Romano, criadora do hub Disruptivas:

"Em todos os e-mails e comunicação nos fóruns, Satoshi deixa clara que ele via o Bitcoin como um meio de pagamento. Ele inclusive cita que o valor do Bitcoin está diretamente relacionado ao seu uso em coisas como cabeleleiros e pizzas. Então, a LN realmente permite um passo rumo a esse objetivo."

Com a experiência de usuária da rede e de quem já rodou um nó da Lightning Network ela faz a ressalva de que a "experiência ainda está LONGE do ideal."

Passados seis anos desde a sua criação, a complexidade operacional da Lightning segue inviabilizando o estabelecimento de um sistema de pagamento descentralizado e eficiente a partir do Bitcoin. Agora, à medida que um novo mercado de alta se estabelece e a rede permanece à margem dos principais vetores de adoção e de crescimento do Bitcoin, membros da comunidade de criptomoedas têm questionado a sua utilidade.

O desenvolvimento do ecossistema do Bitcoin com novas aplicações e casos de uso está de volta ao centro das atenções desde o ano passado com o advento dos Ordinals e o desenvolvimento de novas soluções de camada 2. Enquanto o ecossistema do Bitcoin se expande, a Lightning se move em direção contrária. Após um período de forte crescimento durante o mercado de baixa de 2022, as métricas da rede de camada 2 estão em declínio.

Declínio da quantidade de BTC

Desde o fim de 2023, a quantidade de Bitcoins acessíveis aos usuários da Lightning Network em canais públicos tem diminuído constantemente. Em dezembro, caiu abaixo de 5.000 e atualmente é de menos de 4.700 bitcoins. O número de canais públicos que os usuários da rede podem acessar para realizar transações também está em queda. No caso desde outubro de 2022. Os dados são do rastreador on-chain Mempool.Space.

Os canais públicos da Lightning têm, em média, uma capacidade de processar transações de até 8.719.553 satoshis, equivalentes a cerca de US$ 5.750 a preços atuais de mercado. Embora se prestem para viabilizar pagamentos no dia a dia dos usuários, não têm a capacidade de contribuir de fato para o aumento da escalabilidade da rede.

Além disso, a Lightning apresenta falhas críticas que não favorecem o crescimento da adoção. A depender da quantidade de BTC envolvida na transação os custos não são realmente baixos, como explicou o especialista em criptoativos e autor do "Manual do CriptoInvestidor", Alexandre Bianchi, em um depoimento ao Cointelegraph Brasil:

"Embora inicialmente se esperasse a redução dos custos de transação ao longo do tempo, as taxas médias aumentaram desde 2018. Além disso, os usuários incorrem em taxas para abrir canais com nós de roteamento, que podem variar com base na taxa e na taxa base escolhidas pelos operadores de nós."

Eventualmente, o destinatário de transações envolvendo Bitcoin tem que arcar com os custos de transferência em uma inversão da lógica clássica de que as taxas devem incorrer sobre os remetentes.

A Lightning também não seria suficientemente descentralizada, potencializando riscos para os usuários da rede, apontou Bianchi:

"A segurança da rede depende de nós estarem online em todos os momentos, representando riscos como fechamentos de canais fraudulentos e potencial perda de fundos durante ausências prolongadas. Ataques maliciosos também podem causar congestionamento, dificultando a capacidade dos usuários da rede de recuperar seus fundos prontamente."

Fornecedores de serviços para a Lightning oferecem soluções para subsidiar os custos de transação da rede através de carteiras custodiais. Se por um lado há ganhos na experiência do usuário, por outro estabelecem-se intermediários para transações que deveriam ser P2P.

"Apesar do potencial da Lightning Network, a rede enfrenta vários desafios, e na minha opinião, falhou por três motivos: a persistência de altas taxas de transação, suscetibilidade a fraudes e ataques e a volatilidade dos preços do Bitcoin", conclui Bianchi.

Debate sobre utilidade da Lightning voltou a esquentar nas redes sociais

Um ponto de inflexão recente no debate sobre as limitações da Lightning foi uma entrevista com John Carvalho, CEO da Synonym, uma empresa de desenvolvimento de produtos para usuários de Bitcoin. Defensor de longa data da rede de camada 2 do Bitcoin, ele afirmou que o design da Lightning é uma "piada", expressando uma mudança radical de opinião.Segundo Carvalho, a experiência do usuário da Lightning é "complexa e frágil."

No entanto, segundo Carvalho, o principal problema da Lightning foram as expectativas criadas em cima dela, as quais ela jamais será capaz de atender:

"Todas as narrativas que surgiram com a Lightning nos primeiros anos após o lançamento da rede foram extremamente exageradas. Como 'a Lightning vai matar a Visa', ou 'todo mundo vai usar a Lightning'."

Carvalho disse também, que há diversas questões que tornam a expansão da base de usuários da Lightning improvável, incluindo as dificuldades para escalar a economia da rede, a gestão de liquidez e uma série de incompatibilidades com o ecossistema mais amplo do Bitcoin. 

Rodar um nó na Lightning não é uma tarefa fácil para quem não detém algum grau de experiência prática com a rede do Bitcoin e, principalmente, capital disponível, reafirmou Rafaela Romano a partir de sua experiência pessoal:

"Acredito que ainda há um grande gap de incentivo para quem provê liquidez para a Lightning. O risco é alto e a recompensa, extremamente baixa. Hoje, qualquer pessoa com menos de R$25-35 mil pra começar a brincar com a LN nem deveria pensar em prover liquidez. A complexidade de gerar liquidez também é bem grande. Requer muito tempo balanceando os canais e eu pessoalmente, conheço várias histórias de pessoas que cometeram alguns erros e tiveram o dinheiro bloqueado por meses e meses. Na minha própria experiência, eu já tinha praticamente todos os componentes para montar um nó e gerar liquidez, passei alguns meses brincando e tentando balancear os canais. E acho que mesmo desconsiderando o custo de montar a máquina, eu devo ter perdido dinheiro na brincadeira. Se fosse pra considerar o custo de montar a infraestrutura necessária, acho que o payback seria de décadas."

Ainda assim, Romano acredita que a Lightning ainda pode evoluir e atender ao menos parcialmente as expectativas da comunidade cripto. Especialmente se surgirem competidores capazes de desafiar a sua atual dominância no espaço de soluções de camada 2 do BTC:

"Eu sou bem a favor do darwnismo tecnológico. Precisa ter competição, pra ter evolução de verdade. Acho que se outra side-chain vier com força, talvez a própria LN evolua mais rápido."

Dando prosseguimento ao debate nas redes sociais que se seguiu à entrevista de Carvalho, o podcaster e bitcoiner Guy Swann declarou no X (antigo Twitter) que utiliza há Lightning há anos, sem maiores falhas ou problemas:

"Recentemente, fiz várias transações de US$ 500 a US$ 1.000 pela #Lightning sem nenhum problema. Eu utilizo a rede literalmente todos os dias, mais do que o meu próprio cartão bancário."

Ele completa sua reflexão afirmando que toda solução apresenta pontos a serem melhorados e que os problemas de escalabilidade da rede não serão solucionados magicamente da noite para o dia.

Nesta quarta-feira, 3 de abril, a Coinbase deu mais um passo em sua intenção de incorporar a Lightning à sua plataforma, com o anúncio de que a Lightspark foi a empresa escolhida para a prestação da infraestrutura técnica necessária para a integração.

Antes disso, a Binance já integrara a Lightning à sua plataforma, contribuindo para a adoção da solução de camada 2. Por outro lado, desenvolvedores abandonaram a rede recentemente denunciando vulnerabilidades na segurança da rede, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.

As críticas endereçando as falhas e inconsistências da Lightning não são algo novo no ecossistema do Bitcoin. Enquanto não surgir uma alternativa à rede pioneira, o debate continuará na ordem do dia.