A rivalidade entre os bancos comerciais e o mercado de criptomoedas já foi mais quente no passado recente, mas não quer dizer que tenha se dissipado completamente.

Apesar de bancos comerciais importantes em todo o mundo anunciarem a adoção de criptomoedas em seus negócios, especialmente o Bitcoin (BTC), a grande preocupação do setor bancário hoje está voltada à disrupção das moedas digitais de bancos centrais (CBDC), que prometem transformar as economias dos países ao redor do mundo.

A China, através de seu banco central, tem o projeto mais importante e mais avançado no momento, com o yuan digital em fase de testes e pronto para ser testado em 2022 em escala ainda maior, dada a dimensão da potência asiática.

Um artigo do Financial Times escrito por Jonathan Guthrie detalha os motivos por trás do temor de entidades bancárias quanto à digitalização do dinheiro - algo já considerado inevitável ao redor do mundo:

"Qualquer banqueiro entre os visitantes poderá ter calafrios não atribuíveis a temperaturas negativas. As moedas digitais dos bancos centrais podem provocar uma ruptura significativa na indústria bancária. Novas formas de moedas digitais prometem ser fáceis e baratas de manter e intercambiar. Isso dá a elas o potencial de abalar as bases de poder das moedas nacionais convencionais."

A busca da China pelo pioneirismo também tem peso na balança comercial internacional, como forma de tentar desafiar a influência financeira dos Estados Unidos - que de acordo com o Federal Reserve ainda não vai acelerar o projeto do dólar digital.

Na Europa, o euro digital já está em discussão no Banco Central Europeu, que deve começar testes para casos de uso para este ano. As democracias "desenvolvidas", como trata o Financial Times, preparam suas CBDCs empurradas pelo temor de que "suas moedas possam ser substituídas por alternativas cripto mais vigorosas".

De fato, o desempenho das criptomoedas na enorme crise econômica em consequência da pandemia de coronavírus acendeu um alerta para bancos centrais e bancos tradicionais. Enquanto economias sofriam, as criptomoedas aproveitaram o vácuo para ganhar espaço e romper a bolha do mainstream, tornando-se uma ameaça real às entidades financeiras mais tradicionais - e acelerando projetos de regulação e de digitalização de moedas nacionais.

O artigo segue: 

"O problema é que os teóricos geralmente pensam que os bancos centrais precisam se tornar tomadores de depósito no varejo para suas CBDCs ganharem massa crítica. E captar depósitos no varejo tem sido o principal negócio dos banqueiros na Europa desde a Idade Média. Os bancos centrais das economias desenvolvidas não colapsam com o risco de os depósitos dos clientes evaporarem. Por outro lado, bancos comerciais foram exterminados na crise financeira. Paradoxalmente, os depósitos CBDC de um banco central poderiam agravar a instabilidade financeira por esse motivo."

De fato, o espaço europeu, reunindo diversas economias com diferentes particularidades, enfrentará um dos maiores desafios para adotar uma moeda digital de banco central centralizada. Mas há outros obstáculos a serem vencidos:

"A inércia dos clientes que favorece os oligopólios bancários é apenas um obstáculo às CBDCs nas democracias desenvolvidas. A privacidade é outro. Você não precisa lavar dinheiro para não gostar da ideia de órgãos estatais poderem ver todas as transações em que está envolvido. Isso pode ser possível com as CBDCs baseadas na tecnologia blockchain."

Apesar da adoção de CBDCs de forma ampla ainda precisar de tempo e desenvolvimento, não está claro ainda se os bancos comerciais conseguirão se preparar para uma mudança tão profunda, que pode ser determinante para o fim de um modelo de negócios secular:

"Nenhum desses empecilhos com as CBDCs põe os bancos comerciais totalmente fora de perigo. O BCE ainda contempla a nacionalização de parte de seus negócios de captação de depósitos. Isso se dá no momento em que intrusos estão ocupados tentando tirar outras linhas de negócios dos bancos tradicionais. As remessas são só um exemplo. O modelo de negócios da maior parte dos bancos comerciais agrupa múltiplos serviços para criar economias de escala. As CBDCs figuram como uma inovação que ameaça destruir esse modelo de negócios."

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