Ainda que não tenhamos uma definição ampla e consensada do que o mercado veio a chamar de Web3, já podemos considerar alguns aspectos claros do que ela pode vir a ser. A chamada “internet do valor” deve encampar mecanismos de descentralização, privacidade, propriedade, monetização e composabilidade. Todas essas características só serão possíveis se a Web3 for construída sobre blockchains, pois são os desafios que essas tecnologias resolvem nativamente, permitindo modelos de negócio impossíveis de se conceber com as tecnologias tradicionais da chamada web2.

A Web3, como em todo ciclo de inovação, tem seus próprios desafios específicos e característicos, dos quais aqui destaco os três mais proeminentes, e proponho algumas potenciais soluções - nem todas triviais - para endereçar esses desafios.

Experiência do Usuário

Você já deve ter lido que alguns early adopters (e até alguns late adopters) tiveram problemas com suas criptos, perdendo suas chaves privadas, seus hard drives, e ficando sem acesso a seus ativos. 

Mais recentemente, se você joga ou já tentou jogar os cada vez mais populares videogames com mecanismos de play-to-earn (jogar para lucrar) passou pela interessante experiência de precisar usar mais de uma cripto-wallet e perder muito dos fundos movendo criptomoedas e tokens entre cada uma delas.

O que esses processos têm em comum é uma UX -- experiência de usuário -- ruim, frágil e cara, que desencoraja os mais entusiasmados e assusta os não-iniciados, travando o potencial de crescimento dessa nova economia. Se não há facilidade de uso e existe risco de erro humano e definitivo no gerenciamento dos acessos, existe pouco incentivo para usuários comuns se aventurarem em terras que aparentam ser tão hostis. Percepção é realidade.

Para resolver essa situação, os serviços da web3 precisarão de soluções mais simples de usar para a gestão e recuperação de acessos, custódia dos ativos, e melhorar os custos de transação. Quem resolver os desafios de usabilidade da web3 vai destravar uma nova onda de adoção para essa nova indústria, atraindo novos usuários e, com eles, mais fluxo de capital.

Integração Regulatória

A tensão criativa entre disruptores e reguladores é uma constante deste século, desde a bolha das ponto-com no início dos anos 2000, até mais recentemente com as discussões sobre finanças descentralizadas (DeFi), stablecoins (criptomoedas pareadas a moedas fiduciárias) e CBDCs (moedas digitais dos bancos centrais, na sigla em inglês). No contexto da Web3 o engajamento entre disruptores e reguladores tem variado ao redor do mundo, com diferentes jurisdições sendo mais ou menos amigável às criptos dependendo de quão relevante elas são no contexto geopolítico atual. Com a exceção óbvia da China, algumas geografias menos relevantes encontraram na Web3 um palco interessante para se posicionar e atrair talentos e capital.

Provocações como a Libra/Diem projetadas pelo Facebook colocaram em marcha as discussões sobre CBDCs pelo BIS (Bank for International Settlements, o Banco Central dos Bancos Centrais) e também pelos Banco Centrais das principais economias. A explosão das criptomoedas, finanças descentralizadas e NFTs forçaram reguladores a discutir e tipificar essas novas classes de ativos, ainda sem consenso global.

Para resolver essa tensão de modo definitivo é preciso um bom grau de abertura de ambas as partes - indústria e reguladores, um trabalho organizado e o entendimento que, daqui em diante, estaremos em estado transicional permanente entre o estado atual das regulações para um cenário integrado, que permita que a inovação aconteça sem impor riscos sistêmicos.

Vejo como fundamental que a indústria se coordene para a educação dos legisladores e reguladores, os reguladores avancem nas experimentações, tais como os sandboxes regulatórios e, combinadamente, fomentem programas de aceleração para que a integração entre inovação e regulação seja fluida e constante.

Alcance Socio-econômico

Com todo hype sobre cripto, NFTs, metaversos e afins, e os valores milionários (às vezes bilionários) voando de um lado pra outro em diversas aplicações das mais diversas Blockchains, a gente fica se perguntando “de onde vem e pra onde vai toda essa grana?” e “será que tem mesmo tudo isso de dinheiro circulando nessas aplicações?” ou ainda “como as pessoas sem acesso vão se beneficiar de toda essa riqueza sendo gerada?”. O ponto é, se não acertarmos igualdade de acesso no exato momento em que estamos construindo essa nova realidade e economia (ou meta-realidade e meta-economia) os grandes abismos socioeconômicos que foram exacerbados durante a idade de ouro da web2, vamos acabar repetindo em uma escala muito maior essas diferenças, reduzindo cada vez mais o TAM - total available market da web3.

Na web3, não só a alfabetização digital, mas também a financeira, são fundamentais para ampliar esse alcance socioeconômico e, finalmente, democratizar a mobilidade social através dos dispositivos de remuneração e monetização que a web3 torna possível. Um exemplo recente e claro nesse sentido foi a transição dos artistas da arte digital, antes uma modalidade menos nobre e quase marginal em termos de mercado, para o centro das atenções dos mercados através do uso de NFTs para garantir a escassez e a comprovação de originalidade, posse e propriedade que não era possível sem essa tecnologia. Artistas que antes não teriam possibilidade de subsistir através de sua arte, agora o fazem de maneira às vezes ostensiva.

Olhando para o futuro, é preciso que os grandes projetos contenham componentes de educação desse potencial mercado consumidor e produtor, consiga reinvestir parte da riqueza gerada para fomentar novos entrantes, e trabalhem em mecanismos de gamificação para atrair novas populações através da alfabetização digital e financeira. 

Esses três desafios não são todos os desafios da web3. Na verdade são apenas os mais óbvios. Entretanto, são desafios não só de desprendimento, mas também de investimento no desenvolvimento de um mercado de consumidores atualmente marginalizados e que podem, com os incentivos adequados, serem a nova força de consumo da web3: uma web mais acessível, mais segura, melhor e mais amplamente monetizada e, finalmente, mais democrática.

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