Paula Zogbi, gerente de research e head de conteúdo da Nomad, revelou em entrevista ao Cointelegraph que, embora o Bitcoin enfrente momentos de volatilidade, a longo prazo, ele pode se tornar um refúgio seguro para momentos de instabilidade, fazendo jus a sua alcunha de 'ouro digital'.
"No longo prazo, porém, não descartamos a possibilidade de a moeda digital se tornar um refúgio para momentos de instabilidade geopolítica e fiscal, especialmente em períodos em que a sustentabilidade fiscal dos EUA, que hoje emitem a moeda de referência, for questionada. Isso seria mais similar ao comportamento do ouro, e mais distante do que se considera o comportamento de um ativo de risco", afirmou.
A executiva também destacou que os ETFs têm desempenhado um papel fundamental na adoção de criptomoedas, especialmente o Bitcoin. Segundo Zogbi, o volume de negociações aumentou consideravelmente após a liberação dos primeiros ETFs spot nos EUA, embora o mesmo efeito não tenha sido observado com o Ethereum.
“Os ETFs tendem a atrair mais investidores para a tese das criptos, mas esse efeito deve se diluir no longo prazo”, afirmou a gerente de research.
A ampla adoção dos ETFs, um produto popular globalmente, pode transformar o mercado de criptomoedas, com uma concentração significativa de Bitcoins sendo custodiados por instituições financeiras tradicionais. Isso, segundo Zogbi, pode impactar o mercado spot de Bitcoin, já que menos moedas estarão disponíveis para negociação. A solução? Uma possível diversificação dos parceiros custodiantes para reduzir riscos.
Embora o mercado brasileiro de ETFs cripto ainda seja pequeno e apresente algumas dificuldades, como menor liquidez e taxas mais altas, Zogbi acredita que acessar esses produtos via mercado americano é uma opção mais eficiente para os investidores brasileiros. A maior liquidez e as menores taxas tornam o investimento mais vantajoso nos EUA, além de oferecer uma melhor proteção contra desvalorizações por falta de demanda no Brasil.
A expansão da Nomad no mercado cripto
Cointelegraph Brasil (CTBR): Como a Nomad vê o Bitcoin como um ativo de investimento? Ele é o ‘ouro digital’ ou apenas um ativo para diversificação de investimento?
Paula Zogbi (PZ): Até hoje, o Bitcoin tem se comportado como um ativo volátil em períodos de grande turbulência, apesar da natureza de escassez e da descentralização (o fato de não estar ligado às particularidades de alguma economia, como é o caso de moedas emitidas por governos).
Parte disso pode estar conectado ao fato de que as negociações são ininterruptas, o que faz com que a resposta a turbulências ocorra de maneira imediata, com a retirada de recursos a qualquer momento.
No longo prazo, porém, não descartamos a possibilidade de a moeda digital se tornar um refúgio para momentos de instabilidade geopolítica e fiscal, especialmente em períodos em que a sustentabilidade fiscal dos EUA, que hoje emitem a moeda de referência, for questionada. Isso seria mais similar ao comportamento do ouro, e mais distante do que se considera o comportamento de um ativo de risco.
CTBR: Como os ETFs estão impulsionando a adoção das criptomoedas como Bitcoin e Ethereum?
PZ: Observamos um aumento no volume de negociação especialmente do Bitcoin quando a primeira leva de ETFs spot foi liberada nos EUA, que não chegou a se repetir na mesma intensidade com o Ethereum.
Acredito que esse efeito tende a ser diluído no longo prazo, à medida que a negociação em bolsa, através de uma classe conhecida e amplamente adotada de ativos atrai mais investidores para a tese das criptos.
CTBR: Com o crescimento dos ETFs de Bitcoin, vocês acham que os ETFs (como um todo) podem se tornar maiores que as exchanges de criptomoedas, em termos de BTCs custodiados? Se sim, como isso pode afetar o mercado já que haverá menos BTCs para negociação no mercado spot?
PZ: Globalmente, o ETF é um produto de adoção muito ampla. Nos EUA, por exemplo, o total de AUM em ETFs acabou de atingir US$ 10 trilhões, ilustrando a popularidade de um produto que oferece facilidade de acesso, diversificação e eficiência.
Da forma como existem hoje, os próprios ETFs dependem de custodiantes, e boa parte das gestoras têm apostado em poucos parceiros para deter a custódia dos Bitcoins acessados pelos fundos, o que acaba concentrando o risco.
Daí as notícias recentes de que bancos como o BNY Mellon querem entrar nesse mercado e oferecer custódia de criptoativos para ETFs. Acredito que esse mercado deve evoluir para uma diluição dos riscos de custódia, trabalhando com uma gama maior de parceiros custodiantes.
CTBR: Como a Nomad vê o mercado de ETFs cripto no Brasil?
PZ: Acreditamos e defendemos muito a adoção da estratégia de diversificação global para investimentos, sempre de acordo com o perfil do investidor. De maneira geral, acessar esse tipo de produto através do mercado americano é mais eficiente, porque as taxas costumam ser menores e, principalmente, a liquidez é muito maior, evitando vendas com desconto por falta de demanda, que podem acontecer no mercado brasileiro dependendo do ativo e do lote negociado.
CTBR: A Nomad tem planos de ampliar sua atuação no mercado cripto, para além da ‘venda’ de ETFs?
PZ: No momento, nosso foco é dar acesso aos produtos listados em bolsa e títulos de dívida americanos, mas estamos sempre acompanhando as evoluções do mercado para entender a demanda dos nossos clientes por outras geografias ou outros mercados.
Na fase atual de adoção dos investimentos globais, o acesso que a bolsa americana dá aos brasileiros parece ser amplo o suficiente para otimizar muito as carteiras de investimentos nacionais, que hoje são aproximadamente 97% concentradas em ativos domésticos. Temos um longo caminho a percorrer para a sofisticação e proteção das carteiras dos brasileiros, e pretendemos estar sempre na vanguarda junto com nossos clientes.
CTBR: Como a Nomad vê os desenvolvimentos do Drex e do mercado de Tokens RWA no Brasil? A empresa planeja alguma inciativa no setor?
PZ: Estamos sempre atentos a iniciativas que facilitem transações financeiras e ampliem a adoção de tecnologias de pagamento e negociação de ativos, especialmente quando adicionam camadas maiores de segurança e democratização dessas atividades.
Por ora, nossas atividades continuam focadas em oferecer uma solução financeira completa para brasileiros no exterior, com as soluções de banking, pagamentos e investimentos.