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Christina Comben
Escrito por Christina Comben,Redator
Bryan O'Shea
Revisado por Bryan O'Shea,Editor da Equipe

Lemon lança cartão de crédito lastreado em Bitcoin na Argentina, onde guardam dinheiro em espécie

A exchange de criptomoedas Lemon lançou um cartão de crédito Visa lastreado em Bitcoin na Argentina, permitindo que usuários usem BTC como garantia para acessar linhas de crédito em pesos sem vender suas moedas.

Lemon lança cartão de crédito lastreado em Bitcoin na Argentina, onde guardam dinheiro em espécie
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A Lemon, uma das maiores exchanges de criptomoedas da Argentina, lançou o que descreve como o primeiro cartão de crédito Visa lastreado em Bitcoin do país, oferecendo financiamento em pesos argentinos sem obrigar os usuários a liquidarem suas reservas de BTC.

Segundo o La Nación, um dos principais jornais diários da Argentina, os clientes precisam bloquear 0,01 Bitcoin (BTC) como garantia (cerca de US$ 960 aos preços atuais) para obter um limite inicial de crédito de 1 milhão de pesos, com o BTC mantido como uma garantia imobilizada, em vez de ser vendido ou convertido para moeda fiduciária.

A Lemon planeja expandir o produto para que os usuários possam ajustar a garantia e os limites de crédito ao longo do tempo e, futuramente, liquidar compras denominadas em dólar diretamente em stablecoins atreladas ao dólar, como a USDC (USDC) ou o USDt (USDT).

De crises bancárias aos “dólares no colchão”

O lançamento reflete a desconfiança histórica dos argentinos em relação aos bancos, alimentada por desvalorizações repetidas e pelo congelamento de depósitos do “corralito” em dezembro de 2001, que destruiu economias e levou muitas famílias a manterem patrimônio em dólares em espécie, em vez de em contas em pesos.

Uma reportagem da Reuters, citando dados oficiais usados no programa da Argentina com o Fundo Monetário Internacional, estimou que os argentinos mantêm cerca de US$ 271 bilhões em dólares em espécie não declarados escondidos “em colchões e contas bancárias no exterior”, bem fora do sistema financeiro formal.

Esse montante continua existindo mesmo após a iniciativa de anistia fiscal “Inocência Fiscal” do presidente Javier Milei ter levado quase 300.000 poupadores a declararem mais de US$ 20 bilhões.

Ao permitir que usuários ofereçam Bitcoin como garantia para linhas de crédito locais, a Lemon está tentando, na prática, transformar um ativo preferido de poupança em poder de compra no dia a dia, sem forçar os poupadores a desfazerem suas posições em BTC ou suas reservas em moeda forte.

Trilhos cripto se aprofundam na América Latina

O cartão também chega em um momento em que os trilhos cripto estão cada vez mais integrados às finanças da América Latina. Dados compilados a partir do Dune e de outras plataformas de análise indicam que os fluxos em exchanges centralizadas na região cresceram cerca de nove vezes nos últimos três anos.

Os fluxos das exchanges atingiram cerca de US$ 27 bilhões em 2024, e a atividade cripto acumulada na região se aproximou de US$ 1,5 trilhão entre 2022 e 2025, com empresas como Bitso, Mercado Bitcoin e Lemon assumindo uma fatia crescente de remessas, proteção cambial e pagamentos do dia a dia.

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Fluxos de exchanges de criptomoedas centralizadas na América Latina. Fonte: Dune

Esse cenário dá à Lemon uma base de usuários pronta, já familiarizada com o uso de ativos digitais tanto para poupança quanto para transações.

Crédito com garantia em criptomoedas vira tendência

No cenário global, o crédito com garantia em criptomoedas já não é uma novidade. Várias plataformas nos Estados Unidos, Europa e Brasil permitem que usuários tomem empréstimos usando Bitcoin ou posições em stablecoins como garantia, e algumas fintechs oferecem cartões que utilizam linhas de crédito lastreadas em cripto.

O diferencial da oferta da Lemon é seu posicionamento explícito como um produto de crédito rotativo denominado em pesos e garantido por Bitcoin, lançado em um ambiente bancário altamente dolarizado e ainda frágil.

Embora a inflação tenha esfriado recentemente a partir de níveis de três dígitos, ela ainda segue elevada pelos padrões globais, na faixa dos 30% baixos, e as lembranças de crises passadas continuam moldando o comportamento de poupança dos argentinos.


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