Resistência digital do Telegram: a rede aberta e a proibição da Rússia

O Telegram tem sido chamado de “aplicativo de mensagens preferido no mundo de criptomoedas” por muitas fontes, inclusive a Forbes, e mais de 84% dos projetos baseados no Blockchain têm uma comunidade ativa no Telegram.

Por mais de 48 horas agora, o Telegram tem sido banido por provedores de serviços de internet na Rússia. A razão disso foi o fato que o Telegram recusou de fornecer as chaves criptográficas para as agências de segurança russas.

Mas bloquear o Telegram não parece ser uma tarefa fácil para o Serviço Federal de Supervisão de Comunicações, Tecnologia da Informação e Mídia (Roskomnadzor), o órgão responsável por limitar o acesso às fontes proibidas na Rússia.

Usuários do Telegram em toda a Rússia não sentiram quase nenhuma dificuldade em acessar o serviço, enquanto muitos outros sites russos, até mesmo estatais, enfrentaram problemas, já que o Roskomnadzor bloqueou quase 20 milhões de endereços IP, maioria de quais são pertence a Amazon e o armazenamento Google Cloud, tentando parar o Telegram.

O fundador do Telegram, Pavel Durov, disse que eles não houve uma queda significativa no engajamento do usuário desde o início da proibição. O aplicativo estava tecnologicamente pronto para a proibição, já que muitos usuários nem sentiram a anormalidade, outros evitam o bloqueio usando serviços VPN.

Durov disse que vai fazer doações de Bitcoin com valor de milhões de dólares para indivíduos e empresas que operam VPN's para ajudar os russos a burlarem o controle, chamando isso de “Resistência Digital”.

Lançamento do Telegram, fundadores e usuários

O Telegram foi fundado em 2013 por rimaõs Nikolai e Pavel Durov, da Rússia. Anteriormente, eles fundaram o “Facebook russo” chamado VKontakte. Em 2014, no entanto, eles venderam e deixaram a empresa devido a um conflito com o governo em relação à privacidade e à liberdade de expressão dos usuários.

O Telegram já contava com 100 milhões de usuários ativos por mês em fevereiro de 2016. Recentemente foi anunciado que o número chegou a 200 milhões.

Com base nos dados do Tokenmarket, o Telegram tem mais grupos de discussão de ICO do que qualquer outro aplicativo de mensagens, conforme mostrado no gráfico abaixo, no livro branco da ICO do Telegram.

Official ICO discussion groups

Fonte da imagem: Livro branco da ICO doTelegram’, página 12

O número de seguidores do Telegram de um projeto de cripto, bem como a taxa de crescimento da comunidade, está usado como a métrica para o sucesso por investidores. Alguns projetos até chegam ao limite de 50.000 seguidores e criam um segundo grupo.

O Telegram Open Network (TON) será a plataforma de lançamento de “The Open Network” e em 2021 o nome “Telegram” será descartado, como está claramente indicado no livro branco.

“Até 2021, a visão e a arquitetura inicial da TON terão sido implementadas e implantadas. A TON, então, descartará o elemento "Telegram" de seu nome e se tornará "The Open Network".

Objetivos da ICO do Telegram, rodadas de financiamento e quantidade levantada

No livro branco, o Telegram identifica um número de desafios para a adoção generalizada da tecnologia Blockchain e criptomoedas: escalabilidade, complexidade para o usuário médio e disponibilidade de mercadorias e serviços que podem ser comprados ou vendidos com criptomoedas.

Considerando que o Telegram não conseguiu encontrar nenhuma plataforma Blockchain existente que permitiria levar a criptomoeda ao grande público em 2018, eles decidiram desenvolver uma plataforma Blockchain necessária.

Até agora, o Telegram realizou duas duas rodadas pré-ICO de 850 milhões cada, totalizando 1,7 bilhão de dólares arrecadado, mesmo que o número de investidores para cada rodada foi menor que 100. Uma terceira rodada pré-ICO pode ser considerada e, se o Telegram decidir realizar uma ICO, eles poderiam levantar um valor recorde de até US $ 2,6 bilhões.

A equipe de desenvolvimento manterá 4% dos tokens com período aquisição de quatro anos, enquanto 52% serão para a TON Reserve e 44% para os investidores. Espera-se que os investidores vão receber os tokens TON (Grams) no quarto trimestre de 2018.

É importante notar também que alguns investidores proeminentes área de cripto na verdade decidiram não investir neste projeto, como foi mencionado em alguns artigos.

TON vs outros

Até agora, algumas das maiores ICO's foram a Filecoin (US $ 257 milhões), a Tezos (US $ 232 milhões) e a Polkadot (US $ 145 milhões). O livro branco técnico da TON forneceu uma tabela de comparação com alguns projetos.

Chart

Fonte da imagem:  livro branco da ICO do Telegram, página 74

De acordo com o livro branco, a TON se posiciona como o Blockchain da “5ª Geração”. O plano da Telegram com essa ICO é obviamente construir uma plataforma Blockchain parecida a Polkadot, e não apenas um aplicativo melhor. A base de usuários do Telegram poderia ajudar a lançar essa nova plataforma Blockchain com os 200 milhões de usuários ativos mensais atuais.

A Polkadot, que aparece na tabela como o Blockchain da 4ª Geração junto com a EOS e a Cosmos, arrecadou um total de US $ 145 milhões, enquanto a TON já levantou US $ 1,7 bilhão nas duas rodadas pré-ICO. Será extremamente interessante ver quais inovações a TON vai desenvolver com essa enorme quantidade de dinheiro.

Sob pressão

Atualmente sediada em Dubai, a equipe do Telegram está sob pressão desde que o Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia o ordenou entregar as chaves criptográficas.

O Telegram apelou a decisão, mas, considerando que os fundadores dele foram forçados a vender sua empresa anterior depois de perder uma batalha legal com o governo russo, a situação é muito preocupante. O principal benefício que o Telegram oferece aos seus usuários é a privacidade e segurança. Se eles fornecerem as chaves criptográficas, as informações particulares dos usuários serão comprometidas.

Além disso, a Rússia não está sozinha em exigir acesso as mensagens criptografadas. Nos últimos meses, o Irã também pediu o Telegram as informações e o bloqueio de alguns canais. O ministro do Interior do Irã, Abdolreza Rahmani Fazli, disse que o uso indevido de redes sociais como o Telegram por alguns indivíduos está "causando violência e medo" e que "tal comportamento será eliminado". Durov respondeu ao Irã no Twitter:

As autoridades iranianas estão bloqueando o acesso ao Telegram para a maioria dos iranianos depois de nossa recusa pública em encerrar o site https://t.co/9E4kXZYcP9 e outros canais que protestam pacificamente.

Como dezenas de sites caíram na Rússia, enquanto o Telgeram continua a funcionar 

O Tribunal da Rússia ordenou bloquear o acesso ao serviço Telegram em 13 de abril devido à disputa de criptografia. O bloqueio começou na segunda-feira em 16 de abril, mas obviamente não prosseguiu tão bem quanto foi esperado pelos órgãos responsáveis.

Desde 16 de abril, o Serviço Federal de Supervisão de Comunicações, Tecnologia da Informação e Mídia (Roskomnadzor) bloqueou 18 endereços IP, que pertencem à Amazon, ao Google e ao armazenamento em nuvem DigtalOcean.

Mas o Telegram está bem preparado tecnologicamente para mudar rapidamente seus endereços IP, enquanto o bloqueio na realidade afetou muitos outros sites e serviços "inocentes", entre quais são bancos estatais como o Sberbank e o VTB; MasterCard; Viber; Coursera; jogos online como Fortnite e Total War: Arena; Slack; Trello; FIFA; Spotify e muitos outros.

Até o próprio site do Serviço Federal Roskomnadzor sofreu com quedas.

Pelo menos 100 empresas pediram um suporte jurídico após as perdas provocadas pela queda de seus sites.

Parece que os problemas ocorrem devido à preparação do Telegram em relação a tecnologia, bem como a incapacidade do Roskomnadzor combater com isso.

Quando o fundador do Telegram, Durov confirmou a proibição na Rússia em seu canal oficial no Telegram, ele enfatizou a importância dos VPN's também:

"Apesar da proibição, não temos uma queda significativa no engajamento do usuário até agora, já que os russos burlam a proibição com VPN's e proxies. Também dependemos de serviços em nuvem de terceiros para permanecer parcialmente disponíveis para nossos usuários.

Para apoiar a liberdade da internet na Rússia e em outros lugares, comecei a distribuir doações em Bitcoin para indivíduos e empresas que executam socks5 proxies e VPN. Fico feliz em doar milhões de dólares este ano para esse objetivo e espero que outras pessoas sigam. Chamei isso de Resistência Digital - um movimento descentralizado que significa liberdade digital e progresso global ”.

Como contornar o bloqueio

Há vários métodos para contornar o bloqueio:

Proxies

Os proxies são a primeira opção que fornece privacidade para usuários escondendo seu endereço IP. Entretanto, eles não protegem os dados dos Provedores de Internet (ISP's) com criptografia.

VPN's

Os VPN's oferecem essa proteção de dados para usuários. O possível problema com os VPN's tradicionais é que os usuários em vez de confiar em seu ISP, vão confiar em um VPN centralizado. Esses VPN's possuem as informações dos usuários que podem dar a governmeno ou uma força-terefa se for pedido.

dVPN's

É por isso que as VPN's descentralizadas (dVPN's) são o próximo passo para o anonimato e a proteção de dados do usuário. As VPN's decentralizados usam a tecnologia Blockchain e são apoiados por investidores renomados, como Sequoia, Andreessen Horowitz e DFJ, de Tim Draper.

Enquanto a Rússia  e o Irã estão tentando banir o Telegram, eles podem enfrentar forte resistência dos usuários que podem começar a usar serviços como VPN's descentralizados.

Além disso, a enorme quantidade de recursos arrecadados pelo Telegram em suas duas rodadas pré-ICO significa que eles têm muitos recursos para melhorar seus serviços e se proteger de tentativas de obter as chaves criptografadas ou a proibição do aplicativo.

Resistência digital

O Telegram desempenha um papel fundamental na comunidade de cripto e além, garantindo a segurança e privacidade de seus usuários. 

A Rússia representa apenas cerca de 7% da base de usuários do Telegram, mas pode ser importante para Durov porque é seu país e porque constitui um precedente de uma verdadeira batalha pela liberdade de expressão.

Até Edward Snowden, que anteriormente criticou o modelo de segurança do Telegram, agora apoia a resistência do Telegram e sua liderança contra as ações limitadoras do governo russo.

Já critiquei o modelo de segurança do @telegram no passado, mas a resposta de @Durov à demanda totalitária do governo russo por acesso clandestino a comunicações privadas - recusa e resistência - é a única resposta moral e mostra a verdadeira liderança.

Se o Roskomnadzor conseguir limitar o acesso ao Telegram para usuários da Rússia ou não, isso pode realmente ajudar a atrair mais pessoas da comunidade de cripto à medida que o aplicativo de mensagens aumenta seus esforços para manter as informações dos usuários anônimas e seguras.