A Hashdex, gestora brasileira aprovada pela Comissão de Valores Mobiliários ganhou os noticiários ao anunciar, em parceria com a Nasdaq, o primeiro ETF de Bitcoin e criptomoedas do mundo. Logo na sequência, a empresa noticiou um fundo 100% em Bitcoin. 

Conversamos com Marcelo Sampaio, CEO da gestora, para entender sobre o ETF, o desenvolvimento e a demanda de investidores institucionais por fundos de criptomoedas e muito mais. 

Rafaela: O mercado de criptomoedas aguardava um ETF de Bitcoin já há alguns anos. A Hashdex venceu a corrida e lançou o primeiro ETF de Bitcoin do mundo. Como conseguiram?

Marcelo Sampaio: Criptoativos são uma tecnologia transformadora, com potencial de impactar vários setores da economia. A Hashdex acredita no potencial dessa tecnologia e, por consequência, na valorização dos ativos que representam o setor. Porém, por ser uma tecnologia muito nova e uma classe de ativos ainda muito incipiente, não são óbvias as formas de ter acesso ao mercado - seja para o investidor institucional, seja para o investidor comum. Nascemos com a missão de oferecer ao investidor acesso a esse investimento de forma simples, segura e regulada. 

Apesar de formada por brasileiros e da ótima aceitação dos nossos fundos por aqui, a Hashdex é uma empresa de presença global. Desde o começo da empresa, buscamos alternativas regulatórias em diferentes jurisdições para tornar um ETF possível. Acreditamos que um ETF de cripto é um passo importante para a entrada de investidores institucionais nessa classe de ativos, com impactos enormes para o mercado. 

Tendo isso em mente, viemos trabalhando desde 2018 em diferentes países para a construção de produtos listados - ETPs e ETFs. Temos um time extremamente experiente de profissionais oriundos do mercado financeiro e de tecnologia e com grande conhecimento da regulação sobre o tema, que vem se dedicando por mais de um ano especificamente ao projeto do ETF na BSX e ao co-desenvolvimento do Nasdaq Crypto Index (NCI) com a Nasdaq, administradora do índice. 

Vale lembrar que o ETF não é apenas de bitcoin: ele segue o NCI, um índice que tem por objetivo representar o mercado de cripto investível por investidores institucionais, selecionando os principais ativos do mercado e buscando um grau alto de representatividade. O objetivo é que, por meio de uma estrutura robusta e segura, investidores institucionais e do varejo se sintam confortáveis em investir nessa classe de ativos.

Rafaela: O que o lançamento do primeiro ETF de Bitcoin significa para o mercado de criptomoedas como um todo? 

Marcelo Sampaio: O surgimento do ETF é um marco que indica tanto o amadurecimento do mercado de criptoativos quanto da indústria de investimentos como um todo.

Com ele, o investidor pode ter exposição a cripto em um ambiente de negociação com o qual já está familiarizado - uma bolsa de valores tradicional no mercado de produtos estruturados. Isso garante transparência, simplificação da gestão do ativo e que o fundo segue uma série de controles, auditorias e processos de um ativo listado em bolsa, o que gera mais confiança para o investidor explorar o setor

Rafaela: O Hashdex Nasdaq Crypto Index ETF foi desenvolvido por uma gestora brasileira, mas a negociação será na Bolsa de Valores de Bermudas (BSX). Os investidores brasileiros têm acesso ao ETF?

Marcelo Sampaio: O Hashdex Nasdaq Crypto Index ETF é voltado para investidores institucionais estrangeiros, e estará disponível para negociação na bolsa de Bermuda em breve. Ele não é feito para que investidores brasileiros invistam nele diretamente. No entanto, os investidores brasileiros que queiram ter exposição indireta a esse fundo podem fazê-lo por meio dos nossos fundos Brasileiros, que investem no ETF. O Voyager, nosso fundo para investidor profissional, oferece 100% de exposição no HNCI ETF; o Explorer, para investidores qualificados, oferece 40% de exposição; e o Discovery, para investidores em geral, oferece 20% de exposição.

Rafaela: Por que o ETF não foi lançado no Brasil? O que o mercado de criptomoedas e de investimento brasileiro teria ganho, caso o ETF tivesse sido lançado aqui? 

Marcelo Sampaio: A legislação brasileira ainda não permite essa estrutura. Mas seguimos acompanhando avanços na regulação no mundo em busca de novas oportunidades de oferecer acesso a cripto de forma segura e regulada. 

Rafaela: Além do ETF, vocês acabaram de lançar o Bitcoin Full 100 FIC FIM, um fundo 100% Bitcoin para investidores brasileiros qualificados. O que esse lançamento representa para o mercado brasileiro de criptomoedas?

Marcelo Sampaio: A legitimidade do bitcoin como ativo alternativo, com efeitos positivos para o portfólio, se consolidou ao longo dos últimos anos, culminando com a entrada de investidores tradicionais no mercado, como Paul Tudor Jones e Renaissance Technologies. No entanto, o investimento direto, seja por pessoas físicas ou institucionais, ainda apresenta certas fricções operacionais ou regulatórias - algo que é eliminado com o investimento via fundos. 


Com este produto, atendemos a pedidos de uma série de investidores puristas da moeda, que buscavam uma maneira simples de incorporar o ativo à sua carteira - caso de hedge funds e investidores sofisticados, por exemplo. 

O que nós estamos oferecendo aos investidores é uma solução de acesso simples, via plataformas de investimento, e que conta com menos burocracias e riscos na hora de tratar de questões como tributação, sucessão, armazenamento, etc. Aqui o acesso ao ativo passa a ser feito em poucos cliques e ainda com mais segurança para impedir eventuais ataques de hackers e perdas de acesso - risco grande quando o investidor resolve fazer a gestão das próprias chaves privadas.

Rafaela: Um produto em Bitcoin exclusivo para investidores com mais de R $1 milhão em patrimônio financeiro leva as criptomoedas para outro patamar. Existe grande demanda de investidores qualificados para produtos de Bitcoin? 

Marcelo Sampaio: O cenário de juro real zero está levando investidores tradicionais - como hedge funds e family offices - a procurar alternativas de investimentos como criptomoedas. O Voyager, um dos nossos fundos, é destinado a investidores institucionais e dobrou de tamanho durante os últimos meses. Essa alta expressiva indica justamente essa tendência entre os investidores institucionais brasileiros, tradicionalmente alocados em ativos mais tradicionais. Em 12 meses, o Hashdex Criptoativos Voyager FIM IE apresentou rentabilidade positiva de cerca de 50%. No acumulado de 2020, a rentabilidade do Voyager é superior a 100% - esse tipo de performance naturalmente acaba atraindo uma variedade de investidores. 

O que aqui ainda é uma tendência já é tem uma estrutura consolidada no exterior. Uma pesquisa recente realizada com 800 investidores institucionais dos EUA pela Fidelity Digital Assets indica que 36% dos entrevistados afirmaram que atualmente investem em ativos digitais. Além disso, seis em cada dez acreditam que os criptoativos possam vir a integrar seus portfólios. Por fim, 80% dos investidores pesquisados sinalizam essa classe de ativos como atraente para investimentos. Esse movimento só deve crescer nos próximos anos e impactar em investidores com todos os perfis.

Rafaela: Depois do primeiro ETF do mundo e da vanguarda de um fundo regulado 100% em Bitcoin, já sabemos que a Hashdex tem mirado em grandes realizações. Qual o próximo grande objetivo que vocês esperam alcançar? 

Marcelo Sampaio: Como disse anteriormente, acreditamos realmente no potencial transformador dos criptoativos e buscamos dar acesso a esse mercado para o maior número possível de investidores. Acreditamos que a regulação vai avançar globalmente e estamos atentos a novas oportunidades. Nosso objetivo é oferecer segurança e tranquilidade para que mais pessoas possam ter acesso a esse mercado, que consideramos tão promissor. 

Rafaela: De forma geral, quais desenvolvimentos dentro do mercado de criptomoedas tem chamado mais sua atenção? 

Marcelo Sampaio: Acreditamos que o potencial da tecnologia está só no começo. Imagine que era difícil prever o poder transformador da internet no início dos anos 90, quando o browser nem existia, e imaginar o impacto e valor de um Uber, de uma Amazon, Facebook, Netflix, entre outros. Há uma série de iniciativas ganhando corpo e que começam a tornar mais evidentes para o público essa promessa - seja em campos com potencial revolucionário, como DeFi, seja em projetos específicos como o Filecoin, por exemplo. A beleza de cripto é que a cada dia surge algo novo e que faz os olhos brilharem - é o campo de vanguarda e de encontro de tecnologia, economia, finanças e de várias outras áreas. Estamos ainda nos primeiros passos e aguardamos com ansiedade o que vem pela frente!