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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

O mercado virou as costas para o Bitcoin? Analista da Hashdex aponta o que virá para o BTC agora

Enquanto o ouro dispara, o Bitcoin fica para trás no curto prazo, mas tese de longo prazo segue intacta, diz Samir Kerbage.

O mercado virou as costas para o Bitcoin? Analista da Hashdex aponta o que virá para o BTC agora
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Resumo da notícia

  • Ouro bate recordes enquanto Bitcoin decepciona no curto prazo

  • Fluxos soberanos explicam a divergência, não os fundamentos

  • Institucionais seguem acumulando BTC apesar da volatilidade

Por meses, o Bitcoin foi tratado como o principal beneficiário do chamado debasement trade, a tese de que investidores migrariam de moedas fiduciárias para ativos escassos diante do avanço da dívida pública, da inflação estrutural e da desvalorização cambial.

No entanto, os movimentos recentes do mercado, com a queda do BTC para US$ 60 mil, colocaram essa narrativa em xeque. Assim, enquanto o ouro alcança novas máximas históricas, o Bitcoin segue negociado muito abaixo de seus recordes, levantando uma dúvida incômoda: o mercado estaria virando as costas para o BTC?

A resposta, segundo Samir Kerbage, CIO da Hashdex, exige uma análise mais profunda do comportamento dos fluxos globais de capital. Em uma leitura detalhada sobre os movimentos recentes do mercado, o executivo afirma que a divergência entre ouro e Bitcoin não invalida a tese de longo prazo do ativo digital, mas revela em que estágio de maturação o criptoativo ainda se encontra.

Incerteza global pressiona todas as classes de ativos

De acordo com Kerbage, o pano de fundo do atual momento é um ambiente de incerteza sem precedentes. Tensões geopolíticas, guerras comerciais, tarifas, o avanço acelerado da inteligência artificial e o aumento expressivo da dívida soberana criaram um cenário em que investidores enfrentam desafios em praticamente todas as classes de ativos.

Esse ambiente favoreceu uma busca intensa por segurança. O ouro, ativo tradicionalmente associado à preservação de valor, disparou e passou a ser negociado próximo de US$ 4.800 por onça, acumulando alta superior a 75% nos últimos 12 meses. Já o Bitcoin vive o movimento oposto. A criptomoeda acumula queda de cerca de 22% no mesmo período e segue mais de 40% abaixo da máxima histórica registrada em outubro.

“A comparação entre ouro e Bitcoin apareceu em praticamente todas as conversas que tive com assessores nesta semana”, afirma Kerbage. “Eles querem entender por que o Bitcoin, que teoricamente deveria se beneficiar do mesmo ambiente macro, está ficando para trás.”

Para o CIO da Hashdex, a chave para entender essa divergência está em separar fundamentos de fluxos. Segundo ele, um erro comum entre investidores é tentar explicar movimentos de curto prazo exclusivamente com base em fundamentos econômicos.

“Fundamentos impulsionam valor no longo prazo. Fluxos impulsionam preços no curto prazo. Confundir os dois leva à frustração”, destaca Kerbage.

O debasement trade, que antes era visto como uma tese alternativa, hoje se tornou dominante. No entanto, quem executa essa tese atualmente são governos soberanos e bancos centrais, e não investidores individuais ou fundos especulativos. Países como China, Índia e Rússia vêm acumulando ouro em ritmo acelerado, em resposta à fragmentação geopolítica, ao risco cambial e à chamada weaponization do dólar.

“O ouro é o hedge desses países há séculos. Ele já está incorporado às políticas de reserva soberana”, explica o executivo.

Bitcoin ainda não faz parte das reservas soberanas

Apesar de compartilhar algumas características com o ouro, como escassez e independência de governos, o Bitcoin ainda não foi incorporado às estratégias de reserva de bancos centrais. Para muitos investidores, essa ausência soa como uma fraqueza estrutural. Para Kerbage, é justamente o contrário.

“Se a maioria dos soberanos já tivesse Bitcoin, essa tese estaria encerrada”, afirma. “O ponto central é que o Bitcoin ainda é não consenso.”

Segundo o CIO da Hashdex, a verdadeira oportunidade está exatamente nessa transição potencial. O caminho de um ativo não consensual para se tornar consenso entre os maiores alocadores de capital do mundo é, em sua visão, o núcleo da tese do Bitcoin como reserva de valor digital emergente.

Essa leitura é reforçada por estudos recentes de grandes instituições financeiras. Um relatório do Deutsche Bank, citado por Kerbage, aponta que o Bitcoin pode ser incluído nas reservas de bancos centrais até 2030, à medida que sua volatilidade diminua e seu comportamento se aproxime do ouro.

“Por enquanto, o Bitcoin ainda é tratado como um ativo de crescimento, não como hedge”, resume.

Uma transição geracional, não trimestral

Para o executivo, a expectativa de que o Bitcoin se comporte como ouro em poucos anos ignora uma diferença fundamental: o tempo. O ouro carrega uma vantagem histórica de cerca de cinco mil anos como reserva de valor reconhecida. O Bitcoin, por outro lado, tem pouco mais de uma década.

“Essa transição não acontece em um trimestre. Ela é geracional”, afirma Kerbage. “A diferença se fecha lentamente, e então, de uma vez só.”

Para ilustrar esse processo, o executivo recorre a uma analogia histórica: a prata. Durante anos, a prata frustrou investidores que acreditavam na tese de desvalorização monetária. Mesmo com o ouro subindo de forma consistente, a prata permaneceu abaixo de sua máxima de 2011 por mais de uma década.

O motivo, segundo ele, é que bancos centrais não compram prata. Sem acumulação soberana, o metal ficou à margem do debasement trade. Só quando o rali do ouro se tornou incontestável e traders de varejo entraram no movimento, a prata reagiu de forma explosiva, rompendo máximas e superando os US$ 70 por onça.

“Esse comportamento pode ser um paralelo útil para entender o momento atual do Bitcoin”, avalia Kerbage.

O papel do varejo e o efeito momentum

Outro fator central para explicar a divergência atual está no perfil dos investidores de Bitcoin. Apesar do avanço institucional, a maior base de detentores da criptomoeda ainda é formada por investidores de varejo. E o varejo, em agregado, tende a agir como trader de momentum.

“Investidores de varejo rotacionam de ativos que estão caindo para ativos que estão subindo”, explica o CIO da Hashdex.

Nesse contexto, a combinação da narrativa do ciclo de quatro anos do Bitcoin com o forte rali dos metais preciosos pode ter estimulado uma rotação de capital de cripto para ouro e prata. Esse comportamento ajuda a explicar a fraqueza de curto prazo do BTC, mas não altera sua tese estrutural.

“Isso explica a divergência de curto prazo, mas não invalida nada em nossa visão de longo prazo”, afirma Kerbage.

Enquanto manchetes destacam a queda dos preços, outro movimento ocorre longe dos holofotes. Segundo Kerbage, gestores de patrimônio continuam construindo alocações estratégicas em criptoativos com horizonte de longo prazo.

“Vemos isso nas conversas diárias com assessores, nos fluxos de ETFs e também nos registros 13-F da SEC, que mostram acumulação institucional consistente”, afirma.

Esses investidores não estão reagindo ao preço semanal ou mensal. Estão estruturando posições para a próxima década, em um padrão que o executivo diz observar ao longo de seus oito anos na Hashdex.

“O sentimento do varejo oscila violentamente com o preço. A alocação institucional cresce de forma constante através dos ciclos”, resume.

A tese de longo prazo segue intacta

Para Kerbage, o ponto mais importante é que nada mudou na tese estrutural do Bitcoin. O ativo continua sendo digitalmente escasso, com oferta limitada por código, e sua demanda cresceu de forma exponencial ao longo dos últimos quinze anos.

Além disso, instituições financeiras tradicionais que antes descartavam o criptoativo passaram a abrir suas plataformas para produtos ligados ao Bitcoin. Nomes como Vanguard, Bank of America, Morgan Stanley e UBS já oferecem ou avaliam exposição a ETFs de Bitcoin e outros ativos digitais.

O ambiente macroeconômico, marcado por déficits fiscais elevados, instabilidade cambial e fragmentação geopolítica, segue favorável a reservas de valor não soberanas. Ainda assim, o Bitcoin enfrenta desafios próprios, especialmente no campo regulatório.

Segundo o CIO da Hashdex, esse cenário pode mudar mais rápido do que o mercado imagina. O avanço da legislação de estrutura de mercado de ativos digitais nos Estados Unidos, como o CLARITY Act, pode criar um novo marco regulatório ainda este ano.

Paralelamente, o ecossistema cripto avança como infraestrutura financeira. Stablecoins e tokenização de ativos já movimentam trilhões de dólares e começam a se consolidar como as primeiras killer apps do setor.

“A integração do cripto aos serviços financeiros tradicionais não é mais especulação”, conclui Kerbage. “Ela está acontecendo em tempo real.”
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