As blockchains de segunda camada do ecossistema Ethereum e as aplicações criadas sobre elas dominaram as narrativas no primeiro semestre de 2023. E, ao que tudo indica, elas continuarão relevantes pelo resto do ano. Fontes ouvidas pelo Cointelegraph Brasil compartilham suas avaliações sobre quais narrativas seguirão quentes no segundo semestre, com menções a staking líquido, tecnologia ZK e Real Digital.

Segundas camadas seguirão fortes

Para André Franco, head de research do Mercado Bitcoin, as blockchains de segunda camada criadas sobre o Ethereum continuarão como uma forte narrativa no segundo semestre de 2023. 

“Vem se falando muito dos tokens de segunda camada, mas ainda não se desabrocharam em 2023. Tem coisas que ainda podem acontecer nesse semestre. Há o caso do MATIC, que sofreu pela caracterização da SEC de valor mobiliário, mas esses tokens, em conjunto, ainda não se valorizaram massivamente. Se eu tivesse que apostar em alguma coisa mais óbvia que ainda não aconteceu, seria isso”, avalia Franco. 

ZK rollups ainda podem crescer

A narrativa das blockchains de segunda camada dentro do ecossistema Ethereum guarda outras narrativas, que seguem as diferentes tecnologias por trás dessas redes. Tim Balabuch, Builder na Balancer e Fundador do PFP Supply Co., acredita que os projetos focados em modelos de conhecimento zero ainda podem se destacar em 2023.

Também conhecida como zero-knowledge, ou ZK, essa tecnologia consiste em provar algo sem revelar informações, explica Balabuch. A principal aplicação do conhecimento zero dentro do ecossistema Ethereum, acrescenta, se dá nos rollups, focados em resolver problemas de escalabilidade.  

“Temos dois tipos principais de Rollups: os otimistas, que assumem que as transações são válidas até que se prove o contrário. E temos os ZK Rollups, o principal impulsionador da narrativa ZK no mercado cripto, que usam Zero Knowledge para gerar provas de validade que comprovam que as transações são autenticadas, sem a necessidade de supervisão”, diz.

Mesmo com grandes empresas e protocolos explorando essa tecnologia e suas aplicações em blockchain há um bom tempo, Balabuch salienta que somente nos últimos dois anos ela ganhou mais tração. O principal motivo, apontado por ele, é a corrida das blockchains de segunda camada. “Mais precisamente, o lançamento da zkSync e, logo posteriormente, a Polygon zkEVM”, completa.

Embora se mostrem uma potencial solução para os problemas de escalabilidade do Ethereum, o builder da Balancer aponta que ainda existem desafios a serem superados. A falta de compatibilidade com da Ethereum Virtual Machine (EVM, na sigla em inglês) com provas de conhecimento zero é o maior deles.

De qualquer forma, Balabuch avalia que os ZK Rollups exibem grandes vantagens quando comparados aos Rollups Otimistas. “As ZK, em geral, são mais seguras, rápidas e trazem melhorias consideráveis com relação à privacidade e escalabilidade.”

Como principais projetos interagindo com tecnologias de conhecimento zero, Balabuch aponta zkSync, Polygon zkEVM e StarkWare. 

Potencial do LSD

O mercado de staking líquido de Ether (ETH) tem crescido entre as aplicações inseridas no ecossistema Ethereum. Esse setor ficou conhecido pela sigla em inglês LSD, que significa derivativos de staking líquido. Recentemente, entusiastas e analistas têm adotado o termo LSDfi, onde “fi” representa finanças, dado o crescimento de aplicações financeiras nesse segmento.

O staking líquido permite que usuários usem seu saldo em ETH para participar da segurança da rede, recebendo rendimentos em troca, mas sem perder a liquidez. No lugar de suas ETH, o usuário recebe um token no saldo exato que foi depositado, que pode ser utilizado em outras aplicações.

Esse segmento das finanças descentralizadas (DeFi) tem crescido justamente pelo aumento de Ether em staking. Na segunda-feira (10), o total de ETH dedicadas à segurança da rede atingiu o patamar de 20% de todo o suprimento disponível.

Com base nesse cenário, Guiriba, pesquisador de criptoativos da Paradigma Education, acredita que o setor de LSDfi pode ser uma forte narrativa no segundo semestre deste ano. 

“O que mais me anima são as soluções desenvolvidas sobre os produtos existentes. Tem protocolos que pegam LSD que já são referências no segmento e constroem produtos financeiros sobre eles”, diz o pesquisador.

Como exemplo, ele menciona uma iniciativa da Yearn.finance, que desenvolveu um LSD composto por uma cesta de outros tokens derivados de staking líquido. A proporção de cada ativo da cesta é definida por uma votação feita no protocolo. “A Yearn incentiva os emissores de LSDs a pagarem ‘subornos’ aos votantes”, acrescenta.

Subornos são um mecanismo comum em DeFi, que consiste nos protocolos pagarem incentivos para conduzir votos em outra aplicação descentralizada. Neste caso, usuários recebem rendimentos através do staking líquido de ETH, do uso dos tokens gerados em outras aplicações e dos subornos pagos.

Outra plataforma mencionada por Guiriba é a Pendle, que permite a especulação sobre juros futuros de LSD. “Tem até protocolo de empréstimo de NFT emitindo LSD, criando pool com o token na Curve e direcionando emissões de CRV e CVX para o seu próprio protocolo, com o objetivo de gastar menos capital para trazer liquidez pras suas pools.”

O pesquisador classifica o setor de LSDfi como um terreno para ‘experimentações malucas’, e é por isso que ele se mantém otimista quanto à relevância desse segmento de DeFi em 2023.

E o Brasil?

Deixando DeFi e entrando no ambiente institucional, Dan Yamamura, sócio da gestora Fuse Capital, afirma que o interesse de empresas na tecnologia blockchain está em alta. “A blockchain nunca teve tanta aderência na pauta das corporações como uma tecnologia que pode tornar seus produtos e serviços mais eficientes.”

Esse interesse renovado das corporações em blockchain, acrescenta Yamamura, está ligado ao amadurecimento das aplicações e funcionalidades viabilizadas por esta tecnologia.

Além das instituições privadas, os avanços feitos no setor blockchain também chamou a atenção de entidades governamentais, como o Banco Central (BC), aponta o sócio da Fuse. “Há um direcionamento dos reguladores para o mercado financeiro para evoluir o uso de blockchain, principalmente puxado pelo Banco Central”, completa.

Com a presença cada vez maior de tecnologias de registro distribuído no ambiente econômico do Brasil, Yamamura acredita que a presença de testes envolvendo o Real Digital e ativos tokenizados serão mais presentes no segundo semestre.

“Acredito que o próprio título público digital, que será a contrapartida transacional do Real Digital, ainda vai ser testado até o fim do ano. E isso vai puxar uma série de produtos, serviços e empresas que vão girar em torno do Real Digital”, avalia o sócio da Fuse.

Por fim, a popularização do Real Digital pode impulsionar a criação de novas frentes de trabalho envolvendo blockchain por parte das empresas privadas, conclui Yamamura.

Leia mais: