O ecossistema Ethereum e suas soluções de escalabilidade formam uma das narrativas mais fortes do mercado de criptomoedas em 2023. Embora não tenham recebido a mesma atenção intensa, os projetos de camada zero, como Cosmos (ATOM) e Polkadot (DOT), continuam muito vivos. Fontes ouvidas pelo Cointelegraph Brasil falam sobre os desenvolvimentos desses dois ecossistemas de camada zero, e o que esperar deles.

Desenvolvedores ativos

Uma métrica importante para ecossistemas blockchain é o número de desenvolvedores. Nesse ponto, o Ethereum lidera com folga o número de desenvolvedores ativos semanalmente, totalizando 1.956. Mesmo assim, Polkadot e Cosmos não possuem uma base de ‘devs’ irrelevante, figurando como segunda e terceira maiores bases de desenvolvedores ativos, respectivamente. Os dados são da plataforma Artemis. 

O Embaixador Head da Polkadot no Brasil, que se identifica como Luis, classifica os 710 devs ativos semanalmente como algo extremamente positivo. “A Polkadot é um ecossistema para construir blockchains para quaisquer casos de uso. O fato de ter tantos desenvolvedores construindo parachains, mostra que há demanda real”, afirma Luis.

Parachains são as 100 blockchains que podem ser construídas sobre a Relay Chain, que é a camada da Polkadot responsável por manter a segurança das parachains.

O pesquisador Guiriba avalia que a facilidade de criar blockchains sobre a malha da Cosmos pode ser a responsável pelos quase 600 devs ativos semanalmente desse ecossistema. “A tese das app-chains é possível para muitos, e também pode ser uma motivação adicional para projetos seguirem optando pela Cosmos em detrimento de outras redes”, diz o pesquisador.

App-chains são blockchains voltadas a aplicações específicas. É o caso da Osmosis, criada dentro da Cosmos, que é uma rede focada completamente em ser uma exchange descentralizada. 

Guiriba salienta, no entanto, que soluções de segunda camada do Ethereum estão buscando dar a mesma praticidade que ecossistemas de camada zero oferecem aos desenvolvedores. Isso pode, eventualmente, causar um êxodo de profissionais. 

“Ainda que existam diferenças técnicas, o fato de estarem dentro de ecossistemas ‘quentes’ pode atrair mais devs para estes ecossistemas, e atrair aqueles que trabalham no ecossistema da Cosmos”, afirma Guiriba.

A facilidade mencionada pelo desenvolvedor, no caso da Cosmos, é o kit de desenvolvimento de fácil utilização para devs, que podem criar novas blockchains de forma prática.

Novos desenvolvimentos

Os projetos baseados em camada zero, como Polkadot e Cosmos, são tecnologias relativamente novas. Luis, da Polkadot, destaca que as primeiras parachains foram lançadas no início de 2022. Por isso, essas novas redes estão deixando a fase de construção e iniciando uma nova fase, que ele classifica como efeito de rede. 

Além disso, o Embaixador Head da Polkadot avalia que as parachains tiveram mais tempo para “maturar” em relação às soluções de segunda camada do Ethereum. “Agora, as parachains estão ‘saindo para o mundo’, e temos visto isso nas últimas semanas”, afirma. Como exemplo, ele menciona diferentes desenvolvimentos vistos recentemente.

Um dos desenvolvimentos é a parceria da Astar, uma parachain focada em contratos inteligentes, com a Sony. Juntas, as entidades anunciaram um hackathon para identificar soluções em blockchain. Outro exemplo é a parceria entre Kilt e Deloitte, uma das quatro maiores empresas contábeis especializadas em auditoria e consultoria do mundo, para criar um sistema de identificação digital.

“A Frequency, uma parachain de redes sociais, passou a ser usada de base para a rede social MeWe, que possui 15 milhões de usuários ativos. E temos ainda a entrada da empresa de jogos Mythical como parachain da Polkadot, responsável pelo jogo de grande sucesso Blankos, e estreando recentemente o jogo de celular NFL Rivals, que liderou em número de downloads por um período”, lista Luis.

No caso da Cosmos, Guiriba dá destaque ao seu modelo de staking líquido, que liberará muitos recursos de usuários, que poderão interagir mais com os protocolos do ecossistema. Ele ressalta, no entanto, que muita coisa depende das propostas a serem aprovadas pelos membros de sua comunidade. 

“Em abril, aprovaram uma proposta para dar grants [bolsas de incentivo] a pesquisadores interessados em melhorar o tokenomics do ATOM [token do Cosmos Hub], mas nada foi entregue ainda. Uma melhoria na economia da Cosmos, somada aos incentivos corretos para criadores e projetos interessados em usá-la como infraestrutura, pode alavancar a rede. Por isso precisamos ficar atentos às próximas decisões na sua governança”, acrescenta Guiriba.

Redes de camada zero

Um ecossistema de camada zero é focado em dois objetivos principais, que são a modularidade e a interoperabilidade. A modularidade se refere à possibilidade de que várias blockchains de camada um sejam criadas sobre uma infraestrutura comum, que recebe o nome de camada zero, e sejam redes autônomas.

Novamente usando a Osmosis como exemplo, ela pode decidir criar uma solução de segunda camada, ou até se conectar com outro ecossistema através de uma terceira camada. Nada disso afetaria o restante do ecossistema Cosmos, já que a Osmosis é apenas um módulo dentro da arquitetura.

Quanto à interoperabilidade, ela é definida pela presença de mecanismos no ecossistema que conectam as redes sem fricção. Enquanto a Polkadot tem o “Formato de Mensagem de Consenso Cruzado” (XCM, na sigla em inglês), a Cosmos conta com a “Comunicação entre Blockchains” (IBC, na sigla em inglês). 

Em ambos os casos, o foco é permitir que as blockchains criada sobre a infraestrutura de camada zero consigam trocar informações, e até transações, sem a necessidade de pontes.

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