Enquanto a China passou o ano passado implementando uma série de regulamentos de proibição que tornaram quase impossível que a indústria de cripto prosperasse no país, entusiastas chineses da cripto não permitiram que a regulamentação governamental os impedisse de avançar com a inovação em cripto e Blockchain.
Operando na China dentro dos limites das muitas restrições relacionadas à cripto — desde a proibição das ofertas inicias de moedas (ICOs) e casas de câmbio de fiat-cripto domésticas em setembro de 2017, até a proibição adicional de janeiro de "serviços semelhantes a câmbio" e em fevereiro o banimento de casas de câmbio estrangeiras — não é impossível.
No entanto, à luz dessas restrições, muitas das principais casas de câmbio da China e outras empresas de cripto foram forçadas a se mudar para locais com políticas mais tolerantes, geralmente ainda na Ásia, como Hong Kong, Japão, Coreia do Sul e Cingapura.
No entanto, existem alguns inovadores chineses que veem um futuro nos mercados de cripto e Blockchain do país, independentemente ou apesar das limitações atuais para operar lá. Esses empresários estão fazendo seu melhor para desenvolver seus projetos de cripto e Blockchain especificamente com um público chinês em mente.
No final de janeiro de 2018, na conferência Blockchain Connect, realizada em São Francisco, a Cointelegraph teve a chance de conversar com dois desses empresários chineses de criptomoeda, Yi Lu, um dos fundadores da empresa de mídia SV Insight — a empresa que promove a conferência — e Xiahong Lin, fundador da plataforma de mercado de previsão Blockchain, Bodhi, um dos patrocinadores do evento.
SV Insight – encurtando a distância entre EUA e China
Lu da SV Insight disse à Cointelegraph que a conferência de São Francisco foi projetada com o objetivo de unir as comunidades Blockchain dos EUA e da China. Lu, que também é chefe de crescimento da SV Insight e líder de sua empresa-mãe, a plataforma de descoberta de conteúdo Blockchain U Network, também falou sobre a empresa de mídia baseada nos Estados Unidos e na China. Com metade de seus funcionários na Bay Area e a outra metade em Pequim, a dupla localização da SV Insight configura laços entre os dois países.
CT: Na posição de ser uma empresa de mídia americana e chinesa, qual foi o objetivo geral na criação da conferência Blockchain Connect?
Lu: Acho que estamos tentando fazer uma ponte... então a China e os EUA são duas potências no Blockchain e, com a visão da SV, nossa missão está sempre fazendo a ponte entre os EUA e a China. Então estamos trazendo os principais oradores dos EUA e da China, trazendo essas comunidades para compartilhar suas opiniões. Eles podem realmente definir um tom para o futuro do Blockchain.
CT: Brad Garlinghouse, CEO da Ripple (XRP), também falou na conferência. A Ripple é conhecida por seu apelo às instituições financeiras tradicionais, devido à sua vontade de trabalhar dentro das estruturas regulatórias existentes. Como você vê a Ripple trabalhando no mercado chinês?
Lu: Creio que [Garlinghouse] falou sobre como promover o Ripple nos mercados asiáticos. Eu acho que é uma coisa muito interessante porque você tem uma audiência com muitos usuários e detentores de tokens na China. Mas o Ripple não tem muitos negócios na China, eles provavelmente não podem promover o [Ripple] para o mercado chinês [devido a regulamentações].
CT: Você acha que uma conferência Blockchain similar poderia acontecer na China?
Lu: Sim, se tivéssemos uma chance, e se a política permitisse, definitivamente poderíamos fazer isso, talvez trazer alguns dos principais palestrantes para a China. Também estamos abertos a parcerias com algum time na China para fazer outra conferência.
Bodhi – uma previsão de mercado para a audiência chinesa
A Bodhi é um mercado de previsão descentralizado construído no Blockchaindo Qtum , onde os usuários fazem apostas usando o Bodhi Token (BOT) nativo da plataforma. Os mercados de previsão tornam possível investir e negociar a probabilidade do resultado de um determinado evento - qualquer coisa, de eleições, venda de uma empresa ou resultados esportivos até flutuação de preços de mercadorias ou até mudanças de clima. Alguns outros exemplos de plataformas descentralizadas de mercado de previsão baseadas em Blockchain são a Stox baseada no Canadá e a Augur, ambos usam o Blockchain do Ethereum.
A Cointelegraph conversou com Lin, o fundador da Bodhi, sobre seu projeto, por que ele quer trabalhar na China e o futuro da regulamentação de cripto no mundo.
CT: Para começar, poderia nos contar um pouco sobre o que é a Bodhi e como funciona o mercado de previsão?
Lin: Sim. Isso parece com apostas. Mas quando você diz "apostas", as pessoas começam a perguntar, "você está metido com jogos de azar?" Minha resposta é sempre "não", porque o jogo de azar é apenas um dos tipos de apostas.
Na verdade, como seres humanos, nos prevemos ou apostamos em muitas coisas. Como quando você investe em alguma coisa, você aposta que alguma empresa vai fazer sucesso no futuro. Ou quando você viaja de avião e compra um seguro, você aposta que o voo pode ser atrasado, por isso você compra esse seguro. Ou você pode fazer comércio com ações ou, às vezes, você faz comércio de futuros e opções, neste caso você está prevendo que o preço irá além ou abaixo de um certo ponto. Então, todos esses casos de uso não são jogos de azar, são seu investimento, comércio ou seguro, tá certo?
Então, você pode criar vários tipos de uso, uso financeiro, algo como apostas esportivas com base de Blockchain, que permitirá a transparência e vai prevenir a manipulação de caixa preta.
Como a Bodhi é uma plataforma muito barata - você paga uma taxa de transação muito pequena - nós habilitamos um custo de manutenção muito baixo para que os usuários confiem nessa plataforma e apostem uns com os outros. Resumindo, estamos construindo este mercado de previsão transparente e muito barato para ser um protocolo melhor para o sistema financeiro. Isso é o que é a Bodhi.
CT: Por que a Bodhi é construída exatamente com o Blockchain do Qtum?
Lin: Há algumas razões por quais a Bodhi é construída com uso do Qtum. Uma delas é que tentamos construir este mercado de previsão para a China. Basicamente, o nosso produto é uma startup. Para abrir esse mercado, precisávamos achar um Blockchain que seria compatível com o ecossistema chinês. A equipe do Qtum é parcialmente chinesa, isso vai nos ajudar a construí-la e cooperar juntos para fazer este produto para a China. Essa é uma das razões.
A segunda coisa é que eu sou um participante de Blockchain por um longo tempo. Eu trabalho com o Bitcoin desde 2011 e em 2014 comecei a trabalhar com o Ethereum e participei na venda coletiva do Ethereum. Eu também fui o primeiro a introduzir essas tecnologias na China. Como muitas pessoas sabem, eu sou fã do Ethereum, mas, mais uma vez, a razão pela qual construímos a Bodhi com o Qtum é apenas porque queremos visar os mercados da China.
CT: É realmente porque uma parte da equipe do Qtum está na China? Por que isso é importante?
Lin: Acho que essa é uma pergunta muito importante porque muitas pessoas questionam a minha escolha, tipo, por que [Qtum], já que eles acham que o Ethereum é uma plataforma global e é acessível de qualquer lugar. Eu posso argumentar que é como Google, né? O Google também é como o rei da internet, uma plataforma global, mas você não pode ter apenas um mecanismo de busca para o mundo inteiro. Até o próprio Google têm vários idiomas e vários URLs para atender diferentes regiões.
Você pode dizer, ah, o Google não está operando no mundo inteiro porque às vezes ele é bloqueado [como na China], mas e a Reddit? A Reddit é acessível a qualquer um, mas, de novo, a linguagem é importante. O inglês é bonito, mas os usuários chineses ou usuários de outras idiomas não podem usá-lo diretamente.
É por isso que, para mim, no futuro mundo do Blockchain, teremos vários tipos de Blockchain que vão servir diferentes funções.
Além disso, mesmo se eles estivessem na mesma cadeia e servissem a mesma função, você teria vários Blockchains em diferentes regiões e países, porque essencialmente a linguagem, os negócios ou a cultura são locais. São locais, não são algo universal. É por isso que o Qtum é quase a única escolha para nós agora.
Eu plenamente acredito que é a tendência sabia para nós agora, quando eu olho para trás em 2011 - é o Bitcoin, e em 2014 - é o Ethereum. Agora, qual é a outra razão importante?
Eu penso nas tendências, acredito que todos esses grandes produtos vão florescer na China, e é por isso que escolhemos visar essa área.
Porque nos últimos três anos aprendemos sobre tantos tokens e se você desse uma olhada na lista, nenhum deles é da China. A maioria deles é construída por muitos gêneros e funcionários do mundo ocidental, e é por isso eu acredito que a China é um ótimo mercado ou um mercado com um grande potencial.
Vai ter um enorme crescimento, um futuro promissor se você construir algo especialmente para a China. Então, essa é a tendência que eu vejo. Na verdade, se pensar onde estamos agora em 2018, dá para entender por que a China é um mercado enorme. Ela participa em muitos projetos e investimentos. Eu acho que é somente o começo e isso terá um grande futuro.
CT: Como você vê a Bodhi se desenvolvendo dentro do ambiente regulatório rigoroso da China?
Lin: em termos de regulamentação, você pode saber que costumávamos ser um produto muito popular na China, temos muitos fãs, [parcialmente] porque eu era um personagem de cripto por um longo tempo. Então recebi excelentes apoiadores iniciais. Nós fizemos uma pré-ICO em agosto [de 2017] com bastante sucesso.
No entanto, em setembro de 2017, houve a proibição das ICO na China. Ele fez quase todo projeto restituir tudo para os usuários. Somos uma empresa com sede em São Francisco, e temos uma coalizão em Cingapura - na verdade, consultamos muitos de nossos advogados. Eles disseram que está tudo bem se você mantiver esses fundos [pré-ICO], porque era antes do regulamento e você está fora da China.
Mas finalmente decidi reembolsar tudo porque não quero mudar minha visão [de trabalhar na China].
Mais uma vez, somos uma startup, não estamos fazendo um projeto sem sentido para simplesmente abrir algo e esperar que alguém o use. Quero estar totalmente em conformidade com as regulamentações da China porque estamos segmentando a China e os mercados da China. Então decidimos reembolsá-los totalmente.
Mas o que vem depois? Eu quero construir isso com sucesso e torná-lo utilizável para a China. É por isso que ainda precisamos de fundos, certo? É por isso que, eventualmente, surgiu essa idéia sobre a Oferta Inicial de Câmbio (IEO) [vendendo uma parte dos tokens de uma empresa aos investidores através de casas de câmbio, em vez de diretamente aos investidores via ICO]. Esses primeiros investidores estão livres para negociar esses tokens e nós o manteremos [alguns tokens].
Você ainda é um ICO porque está fazendo a mesma coisa, só está em uma casa de câmbio. Eu realmente espero que nosso projeto seja realmente um projeto descentralizado e que o token seja mantido por toda a comunidade de usuários.
A diferença entre ICO e IEO é o timing. É antes ou depois. Estamos no depois.
CT: Como que você está no mercado chinês há muito tempo, você acha que o público está mais interessado em ganhar dinheiro com comercialização de criptomoeda ou elas também estão investindo na tecnologia Blockchain?
Lin: Honestamente, a maioria dos investidores cripto agora está investindo em projetos de tokens cripto. Eles não têm forte interesse em capital, investimento tradicional. Isso não é verdade se você olhar em termos de mercado como um todo ao rsdor do mundo. Ainda são alguns outros VCs que investem nessas economias Blockchain, mas o que estou dizendo é que a maioria dos investidores [na China] nesta área agora só está participando dessas vendas de token.
CT: Qual é a sua visão para o futuro da regulação de criptomoeda?
Lin: Como criador da indústria ou contribuidor do setor, não quero que a indústria [de criptomoeda] se torne uma bolha ou apenas um hype que eventualmente desaparecerá. Eu realmente espero que haja mais, por exemplo, regulamentação ou projetos conduzidos pela comunidade que possam ajudar a evitar que certas coisas ruins e malucas aconteçam.
De alguma forma, sou alguém que acredita que a próprio cenda colegiva não é regulável. É um contrato inteligente; você coloca o token A e joga o token B fora. É muito difícil de verificar. Mas você poderia regular o dono do projeto, as pessoas que construíram o projeto, ou você pode regular a casa de câmbio para ter KYC suficiente, bem como evitar lavagem de dinheiro, por exemplo. Você pode até mesmo regular as pessoas que participam dessa área para fornecer KYC.
Eu acho que, em geral, [a regulamentação] é uma coisa boa. Muita gente acha que a regulamentação é uma coisa ruim. Para mim, acho que é necessário e é possível através do proprietário do projeto, casa de câmbio e participantes nesta área. Eu realmente acredito que a indústria crescerá na direção certa, ao invés do caminho [de agora], onde as pessoas acreditam que você obterá um rápido retorno de investimento em um curto período de tempo, o que eu acho que não é saudável.
Essas entrevistas foram conduzidas em colaboração com a editora de notícias da Cointelegraph, Olivia Capozzalo.