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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

Exclusivo: Ilhas Cayman viram ‘terra prometida’ das DAOs, stablecoins e tokenizadoras

Com avanço regulatório, explosão de registros e migração de gigantes Web3, Ilhas Cayman consolidam liderança global em DAOs, stablecoins e tokenização.

Exclusivo: Ilhas Cayman viram ‘terra prometida’ das DAOs, stablecoins e tokenizadoras
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Resumo da notícia

  • Ilhas Cayman registram salto de 70% nas foundation companies usadas por DAOs e projetos Web3, superando 1.300 entidades ativas.

  • Grandes protocolos migram para Cayman após riscos jurídicos nos EUA, formando um ecossistema que já administra US$ 10 bilhões em tesourarias.

  • Regulação clara e infraestrutura robusta tornam o território o principal hub global para DAOs, stablecoins e tokenização.

Assim como Suiça, Singapura, El Salvador e, mais recentemente, os EUA, a Ilhas Cayman estão descobrindo como o ecossistema de ativos digitais pode reposicionar o pequeno território caribenho como um dos centros mais influentes do futuro da economia digital.

O arquipélago, tradicionalmente conhecido como polo financeiro internacional, agora atrai atenção global ao se consolidar como o principal hub para DAOs, fundações Web3, stablecoins e projetos de tokenização, combinando avanços regulatórios, segurança jurídica e uma explosão inédita no número de entidades registradas.

Relatórios oficiais do Cayman Islands General Registry confirmam que as fundações locais, especialmente usadas por DAOs e ecossistemas Web3, registraram um salto de 70% em um único ano. No fim de 2024, mais de 1.300 foundation companies estavam na lista oficial, ante 790 no ano anterior. E o ritmo não desacelera: somente em 2025, mais de 400 novas fundações já foram registradas, um indicativo claro de consolidação estrutural e confiança internacional.

Esse fenômeno coincide com o fortalecimento da jurisdição como centro de inovação digital, algo reconhecido em resposta oficial do próprio governo. De acordo com informações compartilhadas com o Cointelegraph Brasil, por um representante do Ministério de Serviços Financeiros e Comércio, o crescimento de empresas Web3 e fundações DAO decorre de uma escolha política deliberada para fomentar tecnologias emergentes, como blockchain, Web3 e inteligência artificial, desde que contribuam para diversificação econômica e crescimento sustentável.

Em entrevista ao Cointelegraph Brasil, o governo ressalta que esse avanço se ancora no histórico do território como centro financeiro global e na busca contínua por certeza regulatória e padrões internacionais elevados .

DAOs migram para Cayman após riscos jurídicos nos EUA

A migração acelerada de DAOs para Cayman não é casual. Um dos gatilhos mais relevantes foi o caso Samuels v. Lido DAO, nos Estados Unidos, onde um tribunal federal determinou que a Lido DAO, por operar sem entidade legal formal, poderia ser tratada como uma parceria geral. Isso expôs seus integrantes a responsabilidade ilimitada, criando um precedente perigoso para protocolos DeFi e comunidades descentralizadas.

A partir desse episódio, a estrutura de foundation company das Ilhas Cayman tornou-se o “porto seguro” preferido pelas DAOs globais. Essa entidade oferece proteção jurídica, evita a exposição pessoal de participantes, possibilita governança formal e mantém alinhamento com o ethos descentralizado.

Como explica o governo: Cayman oferece clareza legal e flexibilidade ao delimitar com precisão quais atividades constituem serviços regulados sob o VASP Act — a lei que estabelece o marco para ativos virtuais no país. E quando reguladas, as entidades encontram um caminho transparente e proporcional para registro e licenciamento, fortalecendo confiança e integridade de mercado.

Hoje, pelo menos 17 grandes fundações Web3 registradas no território possuem tesourarias superiores a US$ 100 milhões cada. Juntas, essas fundações detêm cerca de US$ 10 bilhões em ativos, funcionando como guardiãs de ecossistemas, patrocinadoras de inovação e gestoras de tesouros que movem boa parte da economia cripto global.

Infraestrutura regulatória atrai estabilidade e capital institucional

O sucesso das Ilhas Cayman ocorre em paralelo à implementação do regime VASP, cuja fase de licenciamento começou em 2025. O modelo regulatório, segundo a Autoridade Monetária das Ilhas Cayman (CIMA), tem fortalecido a confiança das empresas, que passaram a oferecer serviços mais amplos, como emissão de tokens, custódia, câmbio fiat-cripto e integração com serviços financeiros tradicionais .

Essa visão é reforçada por especialistas do setor privado. Haymond Rankin, da Cayman Finance, afirma que a combinação de legislação moderna, serviços profissionais robustos e clareza regulatória tornou o país um destino natural para projetos que buscam deixar a fase experimental e assumir operações com governança institucional. Ele destaca que a estrutura permite aos projetos Web3 escalar “com responsabilidade” e atrair uma base mais ampla de participantes.

A advogada Melissa Lim, sócia da Walkers, segue na mesma linha. Para ela, a explosão no uso de foundation companies reflete a maturidade crescente do setor de ativos digitais e a busca das empresas por um ambiente que una segurança jurídica e flexibilidade operacional. Essa combinação, afirma, dá confiança para que projetos Web3 cresçam sem comprometer sua descentralização — ao mesmo tempo que atendem exigências de investidores, reguladores e instituições globais.

Tokenização, stablecoins e integração com mercados tradicionais

Embora o debate sobre DAOs domine as manchetes, o esforço das Ilhas Cayman para se posicionarem como um polo Web3 abrange muito mais que governança descentralizada. A jurisdição tem trabalhado ativamente para acomodar tokenização de ativos, stablecoins, fundos digitais e instrumentos financeiros avançados, algo reconhecido no documento oficial.

Consultas legislativas estão em andamento para tratar de fundos tokenizados, enquanto novos regulamentos já foram promulgados para aplicar exigências internacionais de transparência fiscal (como o CARF, novo padrão de reporte global). A CIMA reforça práticas de governança, controles internos, AML/CFT robustos e supervisão contínua, criando uma moldura que facilita o surgimento de produtos financeiros sofisticados sem comprometer integridade de mercado .

Essa abordagem contrasta com regimes que buscam competir por regulamentação mais leve. O governo afirma que não disputa “corrida para o fundo do poço”, mas aposta em credibilidade, confiança e qualidade institucional como motores de liderança sustentável no setor Web3.

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