Resumo da notícia
Stablecoins indicam liquidez à espera de novas compras no Bitcoin
Queda no hashrate reflete clima e energia, não capitulação estrutural
Preço consolida enquanto analistas divergem sobre curto e longo prazo
O Bitcoin voltou a ser negociado em US$ 86 mil na abertura desta semana e, mesmo após a recente recuperação para US$ 88 mil, os analistas estão divididos entre o próximo movimento da maior criptomoeda do mercado.
O analista conhecido como CoinNiel, acredita que haverá uma ampla recuperação no mercado impulsionada pelo volume de stablecoins. Para isso ele pede atenção ao Exchange Stablecoins Ratio, nesse indicador, todas as criptomoedas listadas nas exchanges formam o numerador, enquanto as stablecoins compõem o denominador. Quando os preços dos criptoativos caem e as stablecoins permanecem nas plataformas, a linha do indicador recua.
“Neste momento, o indicador está no ponto mais baixo de todo o quarto ciclo pós-halving”, explica. Ele lembra que, ao longo desse mesmo ciclo, surgiram diversas previsões de que a alta havia terminado de forma prematura. “Essas leituras estavam erradas. O mercado continuou avançando”, afirma.

Na avaliação dele, a recente supressão do preço do Bitcoin empurrou o indicador para mínimas de ciclo, o que revela uma dinâmica específica.
“Isso significa que o Bitcoin está profundamente subvalorizado e que existe uma grande quantidade de liquidez em dólares esperando à margem”, diz.
CoinNiel também observa o mesmo indicador sob outra ótica: a contagem de tokens, e não apenas o valor em dólares. Nesse modelo, o resultado é ainda mais extremo. “Em termos de quantidade de tokens, a relação está presa em mínimas históricas”, afirma.
Para ele, esse dado reforça a leitura de que há um volume expressivo de stablecoins pronto para entrar no mercado assim que o sentimento mudar. “Esses indicadores on-chain sugerem claramente que este não é o fim do ciclo, mas uma estrutura típica de bull market, com liquidez significativa aguardando para entrar”, conclui.
Queda no hashrate levanta alertas
Outro fator que alimentou o receio de fim de ciclo foi a queda acentuada no hashrate do Bitcoin nos últimos dias. Dados compilados pela XWIN Research Japan, com base em análises de especialistas da CryptoQuant como Ki Young Ju, Darkfost e Julio Moreno, mostram que a taxa de processamento da rede caiu de cerca de 1,13 ZH/s para aproximadamente 690 EH/s em um intervalo de dois a três dias. Trata-se de uma redução de curto prazo próxima de 30%.
À primeira vista, esse tipo de movimento costuma ser associado à capitulação de mineradores, quando operadores desligam máquinas por falta de rentabilidade. No entanto, a XWIN aponta um fator externo como principal gatilho.
“O catalisador primário foi uma forte onda de frio nos Estados Unidos, que pressionou as redes de energia”, afirma o relatório.
Com o aumento da demanda elétrica, usos considerados não essenciais foram reduzidos e os custos de energia dispararam. Diante disso, mineradores optaram por diminuir temporariamente suas operações. Como os Estados Unidos concentram uma fatia relevante do hashrate global, especialmente em polos como o Texas, essas decisões locais tiveram impacto imediato nos dados da rede.

Julio Moreno detalha esse efeito ao observar a produção diária de grandes mineradoras. Segundo ele, a CleanSpark caiu de 22 BTC por dia para 12 BTC. A RIOT recuou de 16 BTC para apenas 3 BTC, enquanto a IREN passou de 18 BTC para 6 BTC. A MARA, que depende fortemente de mineração solo e, por isso, apresenta maior volatilidade, registrou uma queda de 45 BTC para apenas 7 BTC em poucos dias.
“Os dados on-chain mostram impacto desigual entre as empresas”, observa Moreno. Ele destaca que apenas a MARA apresenta um desvio claro abaixo da média mensal, enquanto as demais exibem quedas pontuais, sem sinais de dano estrutural à capacidade produtiva.
Para a XWIN, isso indica ajustes regionais e temporários, e não uma deterioração generalizada da indústria de mineração.
No curto prazo, os efeitos técnicos já começam a aparecer. O intervalo entre blocos se alongou e a próxima dificuldade de mineração deve sofrer um ajuste negativo em torno de 4%. Para analistas, os próximos pontos de atenção incluem a velocidade de recuperação do hashrate, a estabilidade após o ajuste de dificuldade e o comportamento dos fluxos de Bitcoin das carteiras de mineradores para as exchanges.
Se esses fluxos permanecerem contidos, a interpretação dominante tende a ser de que o choque foi temporário. Caso contrário, o mercado pode começar a precificar um cenário mais prolongado de pressão sobre a oferta e sobre o sentimento.
Tensão no curto prazo
Enquanto os dados on-chain sugerem liquidez à espera, o gráfico de preços segue alimentando a incerteza. Guilherme Fais, head de finanças da NovaDAX, descreve um cenário de lateralidade com viés levemente negativo.
“O Bitcoin continua entre US$ 80 e US$ 88 mil, com o suporte dos 80 mil sendo o ponto mais importante do momento”, afirma.
Segundo ele, esse nível vem sendo testado com frequência. “Se esse suporte for perdido, o movimento pode acelerar para a região entre US$ 72 e US$ 73 mil, o que teria impacto relevante em todo o mercado”, diz.
Por outro lado, Fais também aponta um caminho mais construtivo. “Se essa lateralidade servir como consolidação e o Bitcoin conseguir romper novamente os 90 mil dólares, os próximos alvos ficam entre US$ 93 e US$ 94 mil”, afirma.
Ele ressalta, porém, que o cenário político global adiciona uma camada de incerteza à semana, mantendo aberta a possibilidade de testes em regiões mais baixas.
Leitura técnica reforça pressão de curto prazo
O analista Petar Jaćimović segue uma linha mais cautelosa no curtíssimo prazo. Em sua análise no gráfico horário, ele observa uma consolidação que durou vários dias, seguida por um rompimento forte para baixo na sexta-feira anterior. “Vejo potencial para um movimento adicional de queda”, afirma.
Na visão dele, a estrutura técnica sugere que o mercado ainda pode buscar níveis inferiores antes de encontrar um equilíbrio mais sólido. Essa leitura, no entanto, não entra em conflito direto com a tese de CoinNiel, que enxerga a liquidez das stablecoins como combustível potencial para movimentos mais amplos quando o sentimento virar.

O contraste entre os indicadores cria uma dinâmica típica de mercados em transição. De um lado, gráficos de curto prazo e eventos macroeconômicos alimentam a cautela. Do outro, dados on-chain apontam para uma base de liquidez que não saiu do sistema, apenas aguardou melhores pontos de entrada.
Para CoinNiel, esse comportamento é recorrente em ciclos de alta. “Ao longo de todo esse ciclo, vimos várias vezes o mercado declarar o fim da bull season, apenas para ser surpreendido por novas ondas de valorização”, afirma.
A leitura compartilhada por parte dos analistas é que, enquanto as stablecoins permanecerem concentradas nas exchanges, o mercado continua com poder de compra latente. Isso não garante uma alta imediata, mas sugere que a estrutura subjacente ainda não se esgotou.
