Um artigo de opinião publicado pela revista on-line americana Wired em 6 de fevereiro trouxe críticas à promessa de novas arquiteturas de confiança baseadas em blockchain. O argumento central do artigo é o de que nos sistemas blockchain, a confiança não é eliminada, mas sim deslocada - principalmente de instituições e convenções sociais para a tecnologia.
Bruce Schneier, autor do artigo, alega que este tecnomaximalismo negligencia tanto a confiança residual em sistemas tecnológicos cuja governança permanece irredutivelmente humana, como também a frequente - e muitas vezes opaca - falibilidade da própria tecnologia.
A opinião de Schneier sobre a confiança é que ela pode ser dividida em quatro elementos - os dois primeiros sendo de natureza social (moral e reputação), o terceiro institucional - regulamentos e lei - e o último investido em sistemas de segurança - mecânicos, tecnológicos ou sistemas de auditoria e forense.
Em seu artigo, Schneier omite blockchains autorizadas e aborda apenas blockchains públicas. Estas, argumenta ele, ambas pretendem deslocar explicitamente a confiança institucional e social na tecnologia e, além disso, esconder inadvertidamente aqueles elementos sociais de confiança que ainda permanecem.
No que diz respeito à tecnologia, Schneier afirma que protocolos, criptografia, software, etc. “frequentemente [representam] pontos únicos de falha” - como quando uma exchange cripto ou carteira é hackeada, ou um código de contrato inteligente fica bugado. Dado o fato de que o leigo médio não pode auditar o código complexo e, portanto, em grande parte opaco para si mesmo, esses sistemas de blockchain anticonfiança exigem, paradoxalmente, uma confiança absoluta de seus usuários, argumenta ele.
Schneier afirma ainda que há sempre uma necessidade residual de um sistema externo de governança para questões que não podem ser resolvidas apenas por meio da tecnologia - por exemplo, quando proceder com um hard fork em uma blockchain ou fazer outras alterações no protocolo. Isso, afirma ele, necessariamente preserva um elemento humano, híbrido, sócio-técnico - e, portanto, baseado na confiança.
O autor também se concentra no papel inevitável da reputação na determinação das plataformas e ferramentas que as pessoas usam para interagir com a tecnologia - ou seja, qual carteira ou troca eles usam. Pessoas e empresas, ele sugere, sempre confiarão e avaliarão sistemas por razões sociais:
“Por exemplo, algumas empresas da cadeia de suprimentos não confiam no sistema da IBM/Maersk porque não são é sua blockchain. Irracional? Talvez, mas é assim que funciona a confiança. Ela não pode ser substituída por algoritmos e protocolos. Tudo é muito mais social que isso.”
Schneier, por último, aponta para o grau de centralização que assola blockchains baseadas em mineração - em que players com hardware poderosos dominam a esfera - comprometendo assim a natureza supostamente distribuída do sistema.
Um novo relatório publicado hoje (06/02) indicou que a mineração de Bitcoin (BTC) tem se tornado cada vez mais descentralizada nos últimos cinco anos, promovendo um mercado competitivo que, por sua vez, torna a maior criptomoeda menos vulnerável a ataques.