Resumo da notícia
Bitcoin cai 5% e testa suporte crítico nos US$ 84 mil
Liquidações em futuros ampliam risco de queda até US$ 75 mil
Analistas veem correção, não colapso estrutural do mercado
O Bitcoin caiu cerca de 5% nas últimas 24 horas e apagou por completo o forte início de ano que havia animado investidores e analistas. A maior criptomoeda do mercado voltou a ser negociada abaixo de US$ 84.000, tocando uma mínima anual em torno de US$ 83.600, segundo dados da Binance.
O movimento reacendeu o alerta sobre a possibilidade de uma correção mais profunda, que pode levar o preço do BTC para a faixa de US$ 75 mil caso os principais suportes técnicos não resistam.
A queda não surgiu de forma isolada. O recuo do Bitcoin ocorreu em meio a um ambiente de forte aversão ao risco nos mercados globais, marcado por perdas expressivas em ações de tecnologia, correções nos metais preciosos e um novo aumento das incertezas macroeconômicas nos Estados Unidos.
De acordo com a CryptoQuant, o volume de ordens de venda a mercado, o chamado taker sell volume, disparou para cerca de US$ 4,1 bilhões em apenas duas horas. Esse tipo de movimento costuma indicar que investidores altamente alavancados foram forçados a encerrar posições, e não que houve uma venda gradual e orgânica no mercado à vista.
“O que observamos foi um evento clássico de limpeza de alavancagem”, avaliou o analista conhecido como Crypto Zeno, ao comentar a estrutura de mercado do Bitcoin nos últimos meses.
Segundo ele, o ativo passou por uma forte fase de expansão em meados de 2025, mas desde julho acumula uma queda de aproximadamente 26% em termos de retorno trimestral, o que caracteriza um regime corretivo.

Pressão vendedora derruba o Bitcoin
A pressão vendedora ganhou força durante a sessão de Nova York. O preço do BTC recuou de cerca de US$ 88.000 para US$ 83.600, uma variação de quase 4,4% em poucas horas. Nesse intervalo, dados da Coinglass mostram que mais de US$ 570 milhões em posições compradas foram liquidadas, o que reforça o peso do mercado futuro no movimento.
O impacto também ficou visível em casos individuais. A plataforma on-chain Lookonchain destacou a situação de um trader conhecido como #BitcoinOG (1011short), que vinha operando com posições longas de grande porte.
“O mercado acabou de cair, e o #BitcoinOG está sofrendo perdas pesadas em suas posições compradas. Em apenas duas semanas, ele perdeu US$ 138 milhões, com os lucros totais caindo de mais de US$ 142 milhões para apenas US$ 3,86 milhões”, informou a empresa em uma publicação.
Do ponto de vista técnico, o Bitcoin segue preso em um intervalo de consolidação de 10 semanas, que limita os fechamentos semanais entre US$ 94.000 e US$ 84.000 desde novembro de 2025. Agora, com o preço novamente encostado na base dessa faixa, analistas veem o momento como decisivo.
Derivativos puxam o movimento e testam suportes-chave
O nível de US$ 84.000 se transformou no principal campo de batalha entre compradores e vendedores. O rompimento desse patamar pode abrir espaço para uma queda em direção à região dos US$ 80.500, que coincide com a mínima registrada em novembro. Se essa zona também for perdida, cresce o risco de uma extensão do movimento para áreas mais profundas, incluindo projeções na faixa de US$ 75 mil, apontadas por alguns analistas técnicos como alvo em um cenário de estresse prolongado.
Indicadores de momento reforçam o viés de curto prazo negativo. O Índice de Força Relativa (RSI) no gráfico diário opera abaixo da linha neutra e segue apontando para baixo. Já o Estocástico entrou em território de sobrevenda, sinalizando que a pressão vendedora domina o mercado, ainda que movimentos de alívio possam surgir a qualquer momento.
A dinâmica nos contratos futuros também chama atenção. Em eventos anteriores, quedas de 8% a 10% no interesse em aberto coincidiram com formações de fundo local no preço do Bitcoin. Isso aconteceu, por exemplo, na virada de fevereiro para março de 2025, quando o BTC caiu para a região dos US$ 80.000, e novamente em novembro, quando encontrou suporte entre US$ 85.000 e US$ 88.000”, destacou o analista e fundador da OutsetPr, Mike Ermolaev.
Esses padrões sugerem que, em muitos casos, a liquidação de posições alavancadas marca mais o esgotamento da queda do que o início de uma nova tendência de baixa prolongada. Ainda assim, analistas alertam que o cenário macro atual adiciona uma camada extra de incerteza.
Choques globais ampliam a volatilidade
A empresa XWIN Research Japan classificou o momento do mercado como uma “fase de transição”, em que o Bitcoin sai da etapa final de uma tendência de alta para um regime corretivo mais sensível a fluxos e notícias externas. Segundo a análise, o tombo recente não pode ser atribuído a um único fator, mas a uma sobreposição de choques.
Entre os elementos citados estão a renovação dos riscos de um possível shutdown do governo dos Estados Unidos, tensões geopolíticas envolvendo os EUA e o Irã, preocupações com investimentos em inteligência artificial após resultados de grandes empresas de tecnologia e vendas simultâneas em ações e commodities.
“Quando essas forças se combinam, a pressão de baixa sobre o Bitcoin tende a se amplificar”, afirmou a XWIN em relatório. “Em períodos de incerteza macro, investidores priorizam reduzir a exposição ao risco, e o Bitcoin, por ser altamente líquido e negociado 24 horas por dia, acaba sendo um dos primeiros ativos usados para ajuste de posições.”
Dados on-chain reforçam essa leitura. O Coinbase Premium Index, que mede a diferença de preço entre a Coinbase e outras grandes exchanges, caiu nos últimos dias, indicando maior pressão vendedora por parte de investidores baseados nos Estados Unidos.
O pano de fundo nos mercados tradicionais também pesou. As bolsas americanas abriram em forte queda, com o Nasdaq recuando cerca de 2% e o S&P 500 caindo 1%. Grande parte do movimento veio de uma desvalorização superior a 12% nas ações da Microsoft, após preocupações com o ritmo de crescimento de sua divisão de nuvem, apesar de resultados acima das expectativas.
Nos metais, o cenário foi igualmente volátil. O ouro chegou a marcar uma máxima histórica próxima de US$ 5.598, antes de recuar para a região dos US$ 5.200. A prata também sofreu correção. Mesmo assim, o desempenho anual do metal precioso, com alta próxima de 90%, contrasta com a queda de cerca de 16% do Bitcoin no mesmo período, alimentando o debate sobre a migração de investidores para ativos considerados mais defensivos.
Para o analista Michael Ebiekutan, a correlação entre o Bitcoin e as ações de tecnologia volta a se intensificar justamente nos momentos de estresse. “A reação do BTC segue o padrão de se alinhar mais fortemente ao setor de tecnologia durante quedas, o que explica a velocidade e a intensidade do movimento recente”, disse ele em nota.
Enquanto isso, o apetite por risco permanece elevado no mercado de derivativos. O interesse em aberto da Binance, medido em BTC, já supera os níveis observados antes do evento de liquidação de outubro, alcançando cerca de 123.500 BTC, um aumento de aproximadamente 31% desde então.

