A Argentina vem sofrendo com surtos de hiperinflação há várias décadas devido a políticas econômicas fracassadas que geraram a recorrentes déficits orçamentários. À medida que o tempo passa, aumenta a probabilidade de a Argentina - país com 47 milhões de habitantes - enfrentar um colapso monetário em grande escala. Mas quais são as perspectivas da expansão da adoção do Bitcoin (BTC) no país latino-americano, dado seu histórico de alta quando cotado na moeda local, o peso argentino?

Ao longo de sua história, o governo argentino recorreu com frequência à inflação da oferta monetária por meio de depósitos bancários ou da emissão de títulos públicos. Notavelmente, a oferta monetária agregada M1 da Argentina - compreendendo moeda, depósitos à vista e outros depósitos verificáveis - subiu de 2,81 trilhões de pesos em julho de 2019 para impressionantes 10,66 trilhões de pesos em três anos – um crescimento de 277%.

O que aconteceu com preço do Bitcoin em pesos argentinos?

O preço do Bitcoin nas exchanges domésticas subiu para 19,6 milhões de pesos argentinos, ante 14,2 milhões quando o BTC atingiu seu recorde histórico em dólares  em novembro de 2021. Isso significa que, apesar da queda de 61,5% em relação à máxima histórica de US$ 69.000, os investidores argentinos ainda conseguiram acumular ganhos de 38% quando medidos na moeda local.

Preço do Bitcoin em pesos. Fonte: Bitso

No entanto, é possível encontrar um resultado diferente ao consultar o Google ou o CoinMarketCap para saber o preço do Bitcoin em pesos. A resposta a essa discrepância está na taxa de câmbio oficial do peso argentino, que é mais complexa do que a da grande maioria de outras moedas fiduciárias.

Para começar, há a taxa oficial, conhecida como "dólar BNA", definida pelo banco central da Argentina e usada para todas as transações governamentais, bem como para importações e exportações.

Preço do Bitcoin em pesos em 21 de setembro. Fontes: Google, Ripio, Bitso.

Observe como o preço do Bitcoin em pesos argentinos, conforme efetivamente negociado nas exchanges de criptomoedas, é quase o dobro do preço apresentado pelo Google.

A cotação calculada pelo Google multiplica o preço do BTC em dólares, conforme cotado nas exchanges globais, pelo índice oficial do peso argentino fornecido pelo governo local. Esse fenômeno não é exclusivo das criptomoedas; ele também afeta outros ativos internacionais de alta liquidez, como ações, ouro e futuros de petróleo.

Ao fortalecer artificialmente a taxa cambial oficial em favor do peso argentino, o governo tem como objetivo estabilizar a economia doméstica, reduzir a fuga de capitais e conter a especulação, tornando mais cara a compra de moedas estrangeiras e o armazenamento de reservas em dólares. Essa medida também pode aumentar o custo das importações e, ao mesmo tempo, impulsionar as exportações, com o objetivo de melhorar a balança comercial do país.

No entanto, a manipulação da taxa de câmbio oficial acaba contribuindo para o aumento da inflação e impedindo o crescimento econômico, como pode ser visto no caso da Argentina. Em primeiro lugar,  cria incentivos para a existência de um mercado cambial não oficial e não registrado, conhecido como "dollar blue", que também favorece atividades ilícitas, prejudica a transparência financeira e desestimula o investimento estrangeiro no país.

Isso produz taxas de câmbio variáveis, dependendo do mercado em que a transação ocorre e do fato de envolver ou não o governo e os bancos oficiais.

O Bitcoin é uma reserva de valor confiável para investidores na Argentina?

De acordo com a cotação em pesos argentinos da exchange Bitso, o Bitcoin valorizou 150% nos últimos dois anos, a contar de 21 de setembro, passando de 7,84 milhões de pesos para 16,6 milhões de pesos. Entretanto, o índice oficial de inflação nesse mesmo período ultrapassou 300%, o que invalida a tese de que o Bitcoin tem sido uma reserva confiável de valor para os argentinos.

Notavelmente, aqueles que optaram por investimentos em dólar, seja em dinheiro ou em stablecoins, viram suas reservas aumentarem em 297% durante o mesmo período, acompanhando efetivamente a taxa de inflação. Essa análise compara exclusivamente o período de dois anos entre setembro de 2021 e setembro de 2023.

No entanto, o resultado é um tanto decepcionante para os defensores do BTC e provavelmente favorecerá a adoção de stablecoins na região.

Em um aspecto positivo, os investidores tiveram a oportunidade de conhecer as vantagens da autocustódia e da escassez proporcionadas pelo Bitcoin, uma vez que a moeda local foi dizimada por sua oferta continuamente inflada.

Ao fim e ao cabo, enquanto o dólar mantiver seu poder de compra, acompanhando a inflação local, há pouco espaço para o Bitcoin se tornar a reserva de valor preferida dos argentinos.

Este artigo é para fins de informação geral e não se destina a ser e não deve ser tomado como aconselhamento jurídico ou de investimento. Os pontos de vista, pensamentos e opiniões aqui expressos são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem nem representam necessariamente os pontos de vista e opiniões do Cointelegraph.

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