O primeiro trimestre de 2025 foi marcado por um desempenho decepcionante para o Bitcoin (BTC), registrando uma queda de aproximadamente 11%, o pior resultado para esse período nos últimos oito anos.

O movimento contrastou fortemente com o começo explosivo do ano, quando o BTC atingiu sua máxima histórica de US$ 109.590 em 20 de janeiro, impulsionado por expectativas otimistas com o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA e uma possível agenda pró-cripto.

No entanto, essa euforia inicial rapidamente se transformou em uma típica movimentação de “sell-the-news”, ou seja, investidores venderam o ativo após a realização do evento positivo, o que derrubou os preços. Desde o topo, o BTC chegou a cair até US$ 77.041, uma retração de quase 29%, consolidando-se em uma faixa lateral entre US$ 78.000 e US$ 88.000 ao longo de março.

No entanto, como aponta um relatório da Bitfinex, a performance do Bitcoin em 2025 não pode ser dissociada do cenário macroeconômico. A economia dos EUA está sendo fortemente impactada por inflação crescente, impulsionada por tarifas de importação e custos mais altos, além de um ambiente de crescimento econômico em desaceleração.

O índice PCE (medida preferida do Fed para inflação) subiu 0,3% em fevereiro, enquanto a inflação núcleo aumentou 0,4% no mesmo mês — o maior avanço mensal em mais de um ano. Essas pressões levaram o mercado a revisar as expectativas quanto a cortes de juros por parte do Federal Reserve, reduzindo o apetite por ativos de risco como o Bitcoin.

"Além disso, indicadores de confiança do consumidor despencaram, com o índice da Conference Board caindo para 92,9 — o nível mais baixo em dois anos — e expectativas de inflação de longo prazo atingindo 4,1%, o maior patamar desde 1993", disse.

Apesar da queda, o Bitcoin demonstrou resiliência em relação às altcoins. A dominância do BTC no mercado cripto aumentou para 61%, refletindo uma realocação de capital de ativos mais arriscados para o “porto seguro” digital. Ethereum, Solana e outros tokens sofreram quedas entre 35% e 50% desde suas máximas recentes. Em março, o BTC caiu apenas 1,4%, enquanto várias altcoins registraram perdas mensais acentuadas.

"Esse movimento reforça a tese de que o Bitcoin funciona como reserva de valor em tempos de incerteza, desempenhando papel semelhante ao do ouro nos mercados tradicionais", destacou a empresa.

Regulamentação e perspectivas institucionais

Do lado regulatório, há sinais positivos para o ecossistema. A SEC arquivou processos contra grandes players como Kraken, Consensys e Cumberland, sinalizando uma virada na postura da agência — de uma abordagem punitiva para uma mais colaborativa. Paralelamente, foram anunciadas quatro mesas redondas públicas entre abril e junho sobre temas críticos como negociação, custódia, tokenização e DeFi, sinalizando um compromisso institucional com o diálogo regulatório.

Outro fator de médio prazo que pode influenciar positivamente o BTC é o lançamento planejado de ETFs de criptoativos pela parceria entre Trump Media e Crypto.com. Apesar da aprovação regulatória ainda estar pendente, essa iniciativa pode aumentar a penetração dos ativos digitais no mercado financeiro tradicional.

Ana de Mattos, analista técnica e trader parceira da Ripio, complementa que em março de 2025, o Bitcoin oscilou 19,3% entre a mínima e a máxima do mês, levando as outras criptomoedas a um desempenho médio frente às expectativas do mercado. Durante este mês, a dominância do Bitcoin ultrapassou 60%, sugerindo que investidores estão preferindo a segurança relativa do BTC em comparação com outros criptoativos.

"Primeiro, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva para criar uma "Reserva Estratégica de Bitcoin". No entanto, a euforia em torno da notícia acabou rápido após o mercado compreender detalhes sobre a iniciativa, que focou mais em reunir Bitcoins confiscados em processos legais para serem mantidos como ativos de reserva nacional, sem esclarecer sobre novos aportes do governo dos EUA. O mercado reagiu com volatilidade: o Bitcoin atingiu US$ 90 mil e, em seguida, recuou para US$ 85 mil", disse.

Ela aponta que embora as expectativas em relação à ordem executiva tenham sido reduzidas, é importante reconhecer que ela representa um novo marco de legitimação institucional para o Bitcoin.

"Ao mesmo tempo, desafios geopolíticos estavam em curso. O governo Trump travou uma guerra comercial ao implementar tarifas sobre importações do México, Canadá e China. Em um cenário de políticas tarifárias mais restritivas, as incertezas sobre a inflação aumentam, enquanto a maioria dos investidores anseiam por estabilidade.

O mercado financeiro precifica as notícias antes do fato, e não à toa, o preço das criptomoedas recuou, travando momentaneamente o ciclo de alta. O Bitcoin chegou a ser negociado por US$ 76.606, marcando a mínima do mês de março", aponta.

O que fazer para lucrar com Bitcoin neste momento de incertezas

Diante desse cenário, Ana aponta que para lucrar com Bitcoin nesse momento, a melhor estratégia é considerar o longo prazo, levando em conta os eventos macro que continuam exercendo grande influência sobre o mercado.

"Ao identificar movimentos corretivos, aplicar a estratégia de aportes fracionados para construir um preço médio atrativo e obter ganhos futuros. Apesar de um período desafiador, as condições fundamentais permanecem favoráveis a longo prazo. O saldo de março foi positivo: inflação sob controle, juros estáveis ou em queda, um ambiente político inclinado à inovação cripto e investidores de longo prazo mantendo suas convicções sobre o Bitcoin", disse.

Na mesma linha, a Bitfinex sugere que o momento é ideal para montar uma estratégia DCA, acumulando BTC para lucrar com o preço médio.

"A ausência de um catalisador de liquidez imediato, somada à política monetária ainda apertada, sugere que o mercado pode permanecer lateralizado no curto prazo. Porém, se a inflação começar a ceder e o Fed voltar a sinalizar cortes de juros — ou se houver avanços regulatórios significativos nos EUA — o BTC pode recuperar rapidamente o impulso. Em um cenário mais otimista, com retomada da liquidez e clareza regulatória, uma nova pernada de alta não está descartada para o segundo semestre de 2025", finaliza.

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