Resistência entre US$ 93.500 e US$ 95 mil trava altas do BTC.
Oferta de holders do topo pressiona cada tentativa de ruptura.
Incertezas macro e fluxo fraco de ETFs reduzem o apetite por risco.
O Bitcoin abriu 2026 em alta, saindo do movimento lateral de US$ 85 mil a US$ 87 mil e estabelecendo uma nova negociação lateral entre US$ 90 mil e US$ 93 mil. No entanto, embora o mercado mantenha expectativas positivas para o ano, a criptomoeda opera em um intervalo estreito e mostra dificuldade para ultrapassar a faixa entre US$ 93.500 e US$ 95 mil, zona que já bloqueou diversas tentativas de alta desde dezembro.
De acordo com uma nova análise da Bitfinex, além dos fatores internos do mercado, o ambiente global também exerce influência direta nesta dificuldade do BTC de romper com o nível de US$ 95 mil e iniciar uma recuperação para US$ 100 mil. A incerteza geopolítica, especialmente envolvendo Estados Unidos e Venezuela, e o cenário indefinido sobre tarifas internacionais reduzem a convicção dos investidores mais sensíveis ao risco. Ao mesmo tempo, os fluxos dos ETFs de Bitcoin continuam mistos, sem uma direção firme que impulsione a demanda no mercado à vista.
A região entre US$ 93.500 e US$ 95 mil não é apenas mais um ponto técnico. Trata-se de um intervalo carregado de significado para o mercado. A faixa coincide com a zona onde muitos investidores compraram durante as máximas recentes, entre US$ 92.100 e US$ 117.400, criando um cinturão de oferta que se manifesta sempre que o preço se aproxima dali.”, disse.
A Bitfinex aponta que esse fenômeno não é novo nos mercados financeiros, mas ganha destaque em ciclos longos. Conforme o Bitcoin retorna aos níveis onde investidores se posicionaram no topo, vários deles enxergam a oportunidade de sair no zero a zero, reduzindo perdas acumuladas desde a queda. A análise da distribuição de preços realizados apresentada na página 10 mostra exatamente isso: uma grande quantidade de BTC foi adquirida entre o fim do ciclo de alta e o início da correção.
A presença dessa massa de vendedores potenciais cria o que analistas chamam de fricção ascendente. Esta é uma oferta latente que surge gradualmente, o que impede que o preço avance com fluidez. Para romper essa barreira, o mercado precisa de volume consistente, algo ainda limitado em janeiro por fatores estruturais.
Além disso, o mercado de derivativos passou por um dos maiores ajustes de posição já registrados. No fim de dezembro, o open interest em opções despencou de US$ 52,5 bilhões para US$ 28,6 bilhões, removendo quase metade das posições abertas em um único evento. Isso alterou radicalmente o comportamento dos formadores de mercado e reduziu a força de movimentos que dependiam de posições herdadas.
Com esse “reset” de final de ano, as bases que antes sustentavam faixas de preço ficaram mais frágeis. Os investidores iniciaram janeiro reconstruindo gradualmente suas estratégias, mas essa transição cria períodos de indecisão. Por isso, mesmo com alguma recuperação na volatilidade implícita, os movimentos permanecem contidos, sem impulso suficiente para romper resistências críticas.

Volatilidade contida e fluxo moderado
Além disso, a análise da Bitfinez destaca que a volatilidade está comprimida. Mesmo com o retorno dos traders após as festas, a volatilidade implícita continua em um intervalo estreito entre 42,6% e 45,4%, mostrando que o mercado não precifica um movimento explosivo no curtíssimo prazo.
Historicamente, estruturas de volatilidade tão achatadas surgem em momentos de desaceleração do mercado. Elas não indicam necessariamente fraqueza, muitas vezes antecedem grandes movimentos, mas representam um ambiente onde predominam estratégias defensivas. Não por acaso, o relatório aponta que posições de curto prazo apresentam proteção através de opções de venda, enquanto prazos mais longos revelam apostas mais otimistas.
Esse descompasso, de acordo com os analistas, reforça um cenário híbrido: cautela no curto prazo, convicção moderada no médio prazo. Enquanto não surgir um catalisador claro, o Bitcoin permanece preso na mesma faixa, aguardando dados econômicos e definições políticas.
Essa dinâmica também se reflete nos fluxos dos ETFs nos Estados Unidos. A análise cita “dinâmicas mistas”, o que indica que parte dos investidores realiza lucros após a forte entrada do início de dezembro, enquanto outros ainda esperam sinais mais firmes antes de retomar alocações agressivas. A ausência de direção clara nesses fundos, que hoje influenciam diretamente o mercado à vista, ajuda a explicar por que o BTC ameaça romper os US$ 95 mil, mas não consegue se manter acima do nível.
Outro ponto destacado pela empresa é que o cenário macroeconômico descrito nas páginas 03 e 04 amplia a dificuldade do Bitcoin em consolidar novos patamares de preço. A economia dos Estados Unidos cresce, mas os motores dessa expansão estão mudando. O relatório destaca que o mercado de trabalho vive um momento de “contratação lenta, sem demissões”, com empresas preservando funcionários, porém evitando ampliar equipes.
Esse ambiente gera percepção de estabilidade frágil: a economia não está desacelerando a ponto de preocupar profundamente, mas também não avança com vigor suficiente para justificar otimismo exagerado. A produtividade mais alta permite que empresas mantenham margens sem novas contratações, ao mesmo tempo em que reduz o impacto de políticas monetárias mais brandas.
Com isso, o Federal Reserve tende a manter os juros inalterados no curto prazo, adiando cortes significativos para a metade do ano. Taxas estáveis em níveis elevados costumam reduzir o apetite por ativos considerados de risco, como o Bitcoin. Esse efeito pode ser discreto, mas soma-se às outras pressões que travam o avanço sobre a região dos US$ 95 mil.
Outro ponto relevante é o comportamento do comércio externo americano. A queda nas importações e o estreitamento do déficit comercial apontam para possível enfraquecimento da demanda doméstica, algo que também reduz a propensão ao risco por parte dos investidores institucionais.
Em paralelo, tensões políticas, incertezas sobre novas tarifas e movimentações geopolíticas afetam diretamente os ativos globais. Mesmo que essas questões não se relacionem diretamente ao Bitcoin, elas moldam o clima de decisão dos grandes players, que preferem aguardar desfechos mais claros antes de alocar capital em posições agressivas.
Sinais do mercado de stablecoins
Vivien Lin, Chief Product Officer da BingX, também destaca que a volatilidade segue elevada, com variações diárias entre US$ 2.000 e US$ 4.000, mas a ação de preço ainda reflete uma tendência controlada, e não um movimento excessivamente esticado.
Vale destacar que, na comparação anual com janeiro de 2025, o Bitcoin ainda apresenta leve queda, o que mantém espaço para narrativas de recuperação adicional, ao mesmo tempo em que reforça a atenção aos riscos associados à alavancagem. O sentimento do mercado continua interpretando esse rali como parte de um reajuste mais amplo dos ativos de risco, e não como o início de um novo ciclo, em linha com a forte recuperação do BTC após as mínimas do quarto trimestre, mas sem testar os antigos recordes históricos.
Lin, aponta contudo que as stablecoins, de forma discreta, apresentaram um dos sinais estruturais mais relevantes da semana, assim como ocorreu em 2025. O volume de transações com stablecoins no ano passado atingiu o recorde de US$ 33 trilhões, um crescimento aproximado de 72% em relação ao ano anterior, com a USDC liderando essa expansão. Esse avanço reforça o papel das stablecoins como infraestrutura central de liquidação e liquidez tanto em exchanges centralizadas quanto em mercados DeFi.
Ao mesmo tempo, a atenção regulatória segue se intensificando, com novas audiências globais sobre estrutura de mercado e legislação para stablecoins previstas para o início de 2026. Nesse contexto, risco de contraparte, transparência de reservas e o futuro das estratégias de stablecoins com rendimento continuam como temas-chave. Assim, mercado permanece em modo de rotação. Bitcoin e Ethereum continuam sendo os principais veículos para exposição direcional, stablecoins e rendimentos ligados a RWAs atuam como camadas centrais de funding, enquanto DeFi e altcoins de menor capitalização exigem abordagens orientadas a eventos e gestão de risco disciplinada, em vez de posicionamento passivo.

